Argentina vive expectativa de ter primeira atleta sul-americana com medalha olímpica de escalada

Os Jogos Olímpicos da Juventude de Buenos Aires, que terá início neste final de semana, especialmente nas competições de escalada, estão cercados de muita expectativa pela comunidade de montanha do país vizinho. Caso confirme as performances realizadas em campeonatos nacionais e internacionais, a argentina Valentina Aguado pode tornar-se a primeira sul-americana a ter uma medalha olímpica na escalada.

O retrospecto de resultados positivos em provas de escalada cria uma expectativa positiva por parte de treinadores e torcedores argentinos.

Desde o início da semana, tanto a mídia tradicional, como o maior grupo de mídia do país, quanto o próprio canal de streaming do COI, destacaram a escaladora argentina. Com apenas 17 anos de idade, Valentina Aguado terá a chance não somente de ganhar a primeira medalha olímpica sul-americana de escalada da história, como também, caso consiga, atrair a atenção da mídia argentina para o esporte.

Esta atenção pode levar a um investimento de marcas e eventos sem precedentes na história do esporte no continente sul-americano. Portanto a área de escalada dos Jogos Olímpicos da Juventude de Buenos Aires pode marcar uma época de interesse no esporte, tornado a modalidade menos de nicho e com investimentos mais vultuosos do que atualmente possui.

Mesmo com pouca idade, Valentina Aguado é a maior vencedora do Master de Boulder do Chile, um evento particular e sem vínculo com o IFSC, que é considerado uma espécie de torneio sul-americano de boulder e que, a cada ano, ganha mais relevância.

Quem é Valentina Aguado?

Desde muito pequena Valentina Aguado era conhecida por ficar pendurada nos batentes das portas e portões, além de subir em árvores de todos os tipos e tamanhos. Não havia obstáculos para aquela criança. Aos 9 anos de idade, Valentina foi introduzida à escalada por recomendação do pediatra que já praticava escalada em sua cidade natal San Luís, uma região metropolitana com pouco mais de 470.000 habitantes (segundo censo de 2015). A título de comparação, a cidade é pouco menor que as cidades brasileiras de Joinville-SC e Juiz de Fora-MG.

Valentina declarou a todos os meios de comunicação que se apaixonou pelo esporte desde a primeira vez. Em entrevista concedida à Revista Blog de Escalada, que foi o primeiro veículo de comunicação brasileiro (e único até o momento) a entrevistá-la, revelou que grande parte de seu talento foi lapidado e desenvolvido por Maurício Javier Ho. Ho também revelou vários outros talentos que vêm se despontando no cenário da escalada da Argentina.

Valentina Aguado com Mauricio Ho | Foto: http://www.cincoanillos.com.ar/

Aguado entrou no radar de todos quando em 2014, com apenas 12 anos de idade, ficou em segundo lugar no Master de Boulder do Chile. Naquele ano, a jovem escaladora tinha perdido apenas para Akiyo Noguchi, japonesa que atualmente é frequentadora assídua de pódios em competições de boulder. A competição, afirma Aguado, foi o divisor de águas em sua vida. A atleta passou a ver a escalada com mais profissionalismo e não mais como um hobbie.

Com mais dedicação e treinamento mais especializado, pois muitos dos técnicos da argentina são formados em educação física e passam por constantes clínicas de reciclagem e atualização profissional, quando no Mundial Juvenil de Innsbruck de 2017, Valentina foi a sétima colocada nas finais de escalada guiada e a 13º na categoria de boulder.

Na ocasião foi realizada uma prova de escalada combinada e abocanhou um 7º. A colocação garantiu à jovem argentina a vaga para as Olimpíadas da Juventude de Buenos Aires 2018.

Dois meses depois Valentina foi para Montreal para disputar o Pan-americano Juvenil. Na competição no Canadá ficou com três medalhas de prata (via guiada, boulder e overall) e uma de bronze na categoria combinada (que será usada nos Jogos Olímpicos).

Neste ano de 2018, já competindo com a elite do esporte mundial, ficou em 40ª na etapa da Copa do Mundo de Escalada disputada na cidade francesa de Briançon. No mundial juvenil de Moscou disputado em Agosto deste ano, Valentina foi semifinalista em vias guiadas e boulder, terminando 25ª (de um total de 58 atletas) em ambas.

Em entrevista a veículos de comunicação tradicionais da Argentina, Valentina Aguado salienta que seu primeiro objetivo é entrar para a final. Somente após cumprir este objetivo é que irá preocupar-se em ganhar ou não uma medalha.

Desclassificação em 2016

Valentina Aguado, junto da Federação Argentina de Escalada (FASA), também protagonizou um capítulo curioso, que chamou atenção de todos. Valentina Aguado tinha entrado para história de seu país por ter se classificado para as semifinais do campeonato mundial de escalada que estava sendo realizado em Paris.

O International Federation of Sport Climbing (IFSC), entidade responsável pela organização da competição, optou por eliminar a argentina e cancelar sua participação na competição. O motivo alegado pela entidade organizadora é uma regra existente na competição de que menores de 16 anos são proibidos de participar do evento. A inscrição de Valentina Aguado foi realizada pela federação argentina que, aparentemente, desconhecia a existência desta regra.

Foto: Jose Tomas Labrin

O IFSC por sua vez no momento de receber a inscrição da atleta não conferiu os dados da competidora. Estranhamente somente após Aguado ter se classificado para as semifinais, conquistando o 19º e se sagrando como a Sul-americana de melhor colocação na história, é que os juízes se atentaram para a regra de limite de idade.

Para surpresa de todos, Valentina Aguado mostrou-se madura e serena com a decisão do IFSC. Angel Palacio, administrador do site OnBouldering, realizou uma entrevista com a argentina logo após a sua eliminação. A entrevista chamou a atenção de todos que não conheciam a jovem escaladora.

No ano de 2018, já com idade para poder competir nos torneios realizados na Europa, Valentina Aguado fez um período de treinamento em Innbruck e uma série de avaliações com técnicos e especialistas em treinamento europeus. O resultado desta imersão será colocado à prova agora nos Jogos Olímpicos da Juventude.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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