A história do montanhismo no Brasil

Estima-se que os primeiros serem humanos, há 22.000 anos, começaram a habitar a América do Sul. Há evidências antropológicas de que depois disso a América, e consequentemente o Brasil, foi visitado por outras civilizações. Há evidências, por exemplo, de que os vikings, civilização originária da região da Escandinávia, estiveram na América por volta do ano 1003. O primeiro europeu a se situar nessas mesmas terras foi o viking Leif Eriksson.

Convencionou-se nas escolas que o país foi descoberto por Pedro Álvares Cabral a um território denominado Ilha de Vera Cruz (terras que hoje compõem o território do Brasil) em 1500. Todos os livros educacionais chancelados pelo Ministério da Educação perpetuam esta afirmação. Porém, ela não é exata, ou pelo menos conta a história de um ponto de vista particular.

Vicente Yáñez Pinzón

Isso porque, segundo dados históricos, o descobrimento efetivo de um território brasileiro a ser explorado, foi feito pelo navegador e explorador espanhol Vicente Yáñez Pinzón, que foi a mais antiga viagem comprovada ao território brasileiro.

Embora pouco conhecido em livros de história brasileiros e portugueses, Pinzón junto de seu irmão fizeram junto com Cristóvão Colombo a primeira viagem ao continente americano em 1492. Na ocasião, Vicente Yáñez era o capitão da embarcação La Niña. Durante a expedição liderada por Colombo, Yáñez sufocou as conotações de motim na embarcação e ajudou durante o naufrágio da caravela Santa Maria (liderada por Cristóvão Colombo). De fato, o próprio Colombo retornou em La Niña, liderado por Vicente Yáñez.

Posteriormente, Vicente Yáñez Pinzón organizou sua própria expedição às costas do continente americano (1499-1500), que foi a primeira a passar pelo Equador e a descobrir a foz do rio Amazonas e, portanto, o Brasil. Em meados de janeiro de 1500 chegou ao cabo de Santo Agostinho, na costa de Pernambuco. Sabendo que estavam em terras portuguesas, e tendo em conta o acordo firmado em Tordesilhas (assinado em 1494), o navegador espanhol rumou para norte.

Seriam os bandeirantes os primeiros montanhistas?

No processo exploratório do território brasileiro, o qual era colônia de Portugal, houve vários levantamentos topográficos e expansões territoriais. Buscando riquezas minerais, sobretudo ouro e prata, a partir do século XVI, sertanistas (pessoas que se embrenhavam nos sertões à caça de riquezas) começaram a desbravar o interior do Brasil e em específico a Serra da Mantiqueira.

Estes sertanistas foram chamados no sudeste brasileiro de bandeirantes e, além do português, também falavam a língua tupi. Por dominarem esta língua, batizaram várias cidades do interior como Jundiaí, Pindamonhangaba, Itaquaquecetuba, Taubaté, Itajubá, Itamonte, Sapucaí, Itanhandu, Caxambu, Cambuí, Itatiaia, Careaçu, Aiuruoca, etc.

Portanto, sob uma ótica prática e simplista, pode-se considerar que estes mesmos bandeirantes os primeiros montanhistas no Brasil. Entretanto, é claro, eles não tinham nenhum objetivo esportista ao excursionar pelas montanhas do Brasil.

Muito da recusa de historiadores de afirmar que os bandeirantes foram os primeiros montanhistas, é pelo passado não muito glorioso e ético. Os bandeirantes foram os responsáveis pela escravização e pelo extermínio de centenas de milhares de indígenas desde o início da colonização portuguesa.

Somente no final do século XIX, sobretudo nas décadas de 1920 e de 1930, que os bandeirantes tiveram uma “releitura” sob uma ótica mais positiva. Enquanto isso, na mesma época, na Europa a atividade esportiva a qual conhecemos hoje como montanhismo, já estava sendo desenvolvida e praticada pela aristocracia (a qual praticamente não existia no Brasil).

Quando em 1870, todos os principais cumes alpinos já haviam sido escalados, e os alpinistas começaram a procurar novas e mais difíceis rotas em montanhas fora do continente europeu. Assim, lugares como o continente Americano passaram a ser desejados.

No final do século XIX, os montanhistas europeus voltaram sua atenção para a Cordilheira dos Andes (América do Sul), Montanhas Rochosas (América do Norte), Cáucaso (Europa oriental e Ásia ocidental), África e, finalmente, Himalaia.

As primeiras escaladas no Brasil

Marumbi

No Brasil somente na segunda metade do século XIX, que se iniciaram os primeiros registros de subidas em montanhas com finalidades esportivas. Sendo assim, as finalidades colonizadoras, como levantamentos topográficos e de expansão territorial, não são consideradas como montanhismo propriamente dito por historiadores. Foi somente na primeira metade do século XIX que existem registros oficiais de ascensões à Pedra da Gávea, Serra da Carioca e Maciço da Tijuca com fins esportivos.

Uma das montanhas mais icônicas do Brasil, o Pão de Açúcar foi subida em 1817, por cidadãos estrangeiros, que utilizaram a via que atualmente é conhecida como “Costão”. Movido por sentimentos patrióticos, alunos da antiga Escola Militar da Praia Vermelha repetiram o feito.

O Pico da Bandeira (2.891 m), ponto mais alto dos estados do Espírito Santo e de Minas Gerais e atualmente Parque Nacional do Caparaó, foi durante muito tempo considerado o ponto culminante do Brasil. Por volta de 1859, D. Pedro II determinou que fosse colocada uma bandeira do Império no pico mais alto da Serra do Caparaó.

Pico da Bandeira – Foto: Rodrigo Viana | https://www.dreampass.com.br/

Pode-se considerar que o montanhismo como conhecemos hoje no Brasil (atividade recreativa e esportiva) teve seu começo efetivo em 1856, quando José Franklin da Silva decidiu escalar o Pico das Agulhas Negras (2.791 m), atualmente situado no Parque Nacional do Itatiaia. José Franklin, entretanto, não atingiu o cume e pela dificuldade enfrentada, tornou-se então, em meados do século XIX, a principal barreira a ser quebrada no montanhismo brasileiro. O cume do Pico das Agulhas Negras só foi atingido em 1919, por Carlos Spierling e Osvaldo Leal.

No século XIX, todas as tentativas e realizações do montanhismo no Brasil eram realizadas por motivações militares e territorialistas, mas não esportivas. Vale lembrar que apesar do Brasil ter conquistado sua independência de portugal em 1922, ainda era um país colonial e pouco urbano. O processo de urbanização no Brasil somente tem início no século XX com o êxodo rural. Embora a Revolução Industrial já fosse uma realidade na Europa, na América, sobretudo central e do sul, não. Pois o processo de industrialização dos centros urbanos foi fundamental para que a urbanização se expandisse cada vez mais no continente.

Dedo de Deus | Foto: Marcelo de Paula

Tomando o Brasil como exemplo, até meados do século XX, grande parte da população brasileira vivia nas zonas rurais. A título de exemplo, em 1872 a população do estado do Rio de Janeiro era de 819.604 habitantes, a de São Paulo era de 837.354 habitantes e a do Paraná era de 126.722 habitantes. Os dados são do IBGE.

Já no final do século XIX, um grupo de paranaenses, liderados por Joaquim Olímpio de Miranda, decidiu escalar o maciço do Marumbi, situado na Serra do Mar do Paraná. O cume principal, com 1.539 metros de altitude foi alcançado no dia 21 de agosto de 1879. Este, para muitos, é considerado o marco inicial do montanhismo brasileiro, embora não seja oficialmente reconhecido como tal (da mesma maneira que a exploração de Vicente Yáñez Pinzón em 1500).

Uma outra ascensão emblemática foi a do Dedo de Deus (1.692 m) realizada 1912 (33 anos mais tarde que a do Marumbi). Esta expedição é reconhecidamente de maneira oficial como o início do montanhismo no Brasil (embora não corresponda à realidade). A expedição foi chefiada por Teixeira Guimarães e tendo como integrantes os irmãos Américo (Acácio, Alexandre e Raul Carneiro), só foi repetida vinte anos depois. O Dedo de Deus é um símbolo do estado do Rio de Janeiro, figurando em sua bandeira.

Na mesma época, uma outra montanha também teve sua primeira ascensão: O Pico dos Marins (2.420 metros), o ponto mais alto do estado de São Paulo foi subido em 1911. A conquista do ponto culminante do Brasil, o Pico da Neblina (2.995 metros), foi realizada somente em 1965 por José Ambroso Miranda Pombo.

Clubes de montanhismo

Teixeira Guimarães na conquista do Dedo de Deus

Da mesma maneira que na Europa Clubes Alpinos começaram a aparecer, no Brasil os Clubes de montanhismo também começaram a ser fundados. No início do século XX, no ano de 1919, o Centro Excursionista Brasileiro (CEB), foi o primeiro clube de montanhismo do Brasil fundado na cidade do Rio de Janeiro.

Cinco anos depois o Centro Excursionista Brasileiro criou a primeira publicação dedicada ao montanhismo. A publicação “O Excursionista”. Durante muito tempo, especialmente no início do século XX, foi a principal publicação de montanhismo do país.

Produzindo várias conquistas nas montanhas no Brasil, o Centro Excursionista Brasileiro inspirou que outros montanhistas também criassem clubes para realizar outras conquistas. Assim nasceram o Centro Excursionista Rio de Janeiro (CERJ) e Clube Excursionista Carioca (CEC) nos anos 1940.

Foto: https://www.netdiario.com.br/

Nos anos 1950 e 1960, outros clubes foram inaugurados no Brasil para incentivar a prática do montanhismo. Porém, com a instauração da ditadura a partir de 1964, o esporte passou por um período de estagnação ou, pelo menos, de baixo crescimento e difusão.

A partir da década de 1980, vários montanhistas brasileiros começaram a procurar desafios em nível mundial. Foi a partir desta década, que coincide com a volta da democracia em solo brasileiro e a reabertura no país, que o montanhismo começou a se popularizar e mais pessoas começaram a praticar a atividade.

Nomes de destaque começaram a aparecer no montanhismo brasileiro desde então. Em busca de um feito icônico, a conquista de montanhas no Himalaia passou a ser uma espécie de obsessão de montanhistas brasileiros. Tanto nos Andes, como no Himalaia, começaram a aparecer ascensões de destaque. Grande parte delas em estilo alpino.

Foi assim que em 1995 o Brasil chegava pela primeira vez ao cume do Monte Everest (8.848 m) com Mozart Catão e Waldemar Niclevicz. Em 2002, Rodrigo Raineri e Vitor Negrete formaram a única dupla brasileira a subir pela Face Sul do Aconcágua (6.962 m). Atualmente brasileiro que mais escalou montanhas acima de 8.000 metros é o paranaense Waldemar Niclevicz com sete, apesar de várias controvérsias a respeito de seus cumes e de sua postura com companheiros de cordadas.

Recentemente o brasileiro Moeses Fiamoncini foi o primeiro brasileiro a atingir o cume no Manaslu (8.156 m) em 2018 e em 2019 fez a primeira ascensão no Nanga Parbat (8.125 m). Neste mesmo ano, Fiamoncini se firma como o grande nome do esporte na década de 2010 ao também subir o Monte Everest e o K2 na mesma temporada.

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