Como eu fui do 6a ao 7b à vista em 3 meses – A evolução ao alcance de todos

Evolução, em qualquer aspecto, requer tempo. Desde que você não seja um prodígio. Mas somos uma geração que não sabe esperar. A ansiedade nos faz querer tudo no nosso tempo.

Quando comecei a escalar, e as vias de 4º grau ainda eram meu limite, eu invejava as pessoas da academia que treinavam em vias de 6º. Eu me sentia intimidado ao escalar do lado delas. Queria estar no mesmo nível, trocar betas e encontrar parceiros.

Foi quando, como qualquer um, comecei a buscar as famosas “fórmulas mágicas” para evoluir no esporte de forma rápida. Eu ficava assistindo vídeos de treinamento e lendo artigos no meu tempo livre e tentava aplicar estes treinos no meu dia-a-dia. Fingerboards, campus board, periodização e muitos outros treinos voltados para atletas e escaladores experientes que eu acreditava que iriam melhorar minha performance.

Vista da via Ya rup rup 7b | Foto: Marcos Ramos

Este é um erro muito comum de um iniciante. E eu descobri da pior forma possível. Quando estava chegando ao nível que queria, tive uma lesão no manguito rotador por imprudência que gerou uma sobrecarga desnecessária nos ombros.

Foram 8 meses sem poder praticar, e quase um ano e meio até ficar 100% novamente. Havia aprendido a lição e tinha me decido a fazer da forma certa.

Ache o escalador | Foto: Marcos Ramos

Meu primeiro passo foi retornar e recuperar a força. Aprendi que para um iniciante, todos aqueles treinos mirabolantes não servem. Só existe uma regra: escale. O treino de baixa intensidade era a chave. E comecei a me preocupar a escalar em quantidade em vez de qualidade. E fiquei sete meses fazendo vias fáceis, mas que eu poderia realizar entre 12 ou 15 por treino. Era preciso criar um repertório de movimentos e músculos primeiro.

Após estes meses, eu havia conseguido me consolidar como um escalador de nível 6a (grau francês), e atingi meu primeiro platô. Não importava o quanto eu treinava, não conseguia mais aumentar o meu grau a vista. Foi quando eu decidi o que seria, para aquele momento, meu maior projeto de escalada fora do país. Iria conciliar um mochilão pela Ásia para conhecer a meca dos escaladores, a praia de Railay na Tailândia.

Como todo projeto, planejamento é importante. Então comecei a estudar as vias que gostaria de fazer para poder me preparar. Foi quando percebi que as vias mais fáceis começavam no 6b e que as que queria fazer, eram de 7a para cima. Eu não estava preparado para isto. E pular de 6a para 7a não seria possível sem a ajuda de um profissional.

Contratar um técnico era minha solução

Justen Sjong é um escalador reconhecido mundialmente. Realizou façanhas como conquistar a via de big wall em livre mais difícil do mundo. Mas ficou mais famoso ainda como técnico de atletas, como Alex Puccio, vencedora do American Boulder Series mais de 10 vezes e conhecida como uma das escaladoras mais fortes de todos os tempos.

Justen, apelidado de Climbing Sensei, possui a habilidade de perceber detalhes que outros não enxergam. E desta forma, ajudar seus atletas a entender e melhorar seus pontos fracos. Embora eu não pudesse ir até Colorado para treinar com ele, descobri que ele também trabalhava com atletas via internet, através de conversas e análise de vídeo.

Justen Sjong | Foto: http://eveningsends.com

No começo achei que não funcionava. Era apenas uma forma de você pagar para falar que “treinou” com ele. Mas mesmo assim decidi arriscar. Marquei minha primeira conversa com ele.

Pelo Skype, contei o meu histórico de escalada, sobre a minha lesão e quais eram meus planos. Ele pediu para mandar um vídeo, onde eu deveria resolver seis problemas de boulder. Dividindo entre fáceis, médios e difíceis, fazendo 2 problemas de cada.

A análise dele me impressionou. Ele pontuou, inclusive, a forma como eu respirava pelo vídeo, gravado de uma GoPro. Nosso plano era um treinamento especifico por três meses com o objetivo de me tornar um escalador mais forte para ir à Tailândia. Ele dizia que a graduação era apenas uma consequência.

Os meus pontos fracos eram o ombro e costas. Portanto, ele dividiu os treinos para fortalecer estes músculos. A maior parte deles eram com a utilização de um TRX (Sabe aquele aparelho para exercícios em suspensão que ficou popularizado devido ao Crossfit?) que eu fazia dentro de casa. O que me chamou a atenção foi uma rotina de exercícios que ele chamava de prevenção à lesão. Parecia mais um treino funcional com a utilização da banda elástica que fortalecia as articulações do ombro.

O treino era intenso. Eu passava quase duas horas por dia, divididos entre cardio, musculação e boulder. Todos os dias. Por muitas vezes pensei em desistir com medo de estourar meu ombro, mas percebi que aquela rotina de prevenção fez toda a diferença. Sentia muita dor (no pain, no gain), mas não houve lesão, em nenhum momento.

Tonsai, o paraíso dos escaladores

Após toda esta sabatina, chegou o dia da minha viagem a Railay. A praia era dividida em três regiões, Tonsai (a meca), Railay oeste e leste. Minha primeira parada era Tonsai, e quando vi aquela parede que só via em fotos, fiquei maravilhado.

Pessoas de todo o mundo escalando e uma das vistas mais bonitas que havia presenciado. Já era fim de dia, então fui para o resort descansar para estar preparado para o próximo dia.

Tonsai Wall | Foto: Marcos Ramos

No primeiro dia, chuva. Nosso plano de fazer DWS – Deep Water Solo (escalada sem corda no mar) foi cancelado, mas a parede em Tonsai é tão negativa que mesmo com chuva podíamos escalar sem problema. Foi então que percebi que escalar fora não era fácil.

Via de aquecimento, Statagasaurus 6C+ | Foto: Marcos Ramos

Eles haviam escolhido vias “fáceis” para poder aquecer (6b e 6c). Minha primeira via, fiz em top rope, para sentir o drama. Quase arreguei. Pensei que todo aquele esforço não havia adiantado.

Mas com o tempo, fomos subindo para vias mais difíceis. Pude encontrar meu ritmo. E então, havia chegado o momento decisivo. Chegamos na via que tinha me planejado para fazer.

– Você vai tentar guiar ou quer eu abra para você?

– Vou guiar. É tudo ou nada.

Naquele momento estava com um espanhol e um americano, compartilhando equipamentos e corda. Eram escaladores melhores que eu. E escalar com pessoas de nível maior é motivacional. Analisei a via, peguei as costuras que precisava, e comecei.

Não tenho palavras para descrever o quanto eu estava feliz. Ao chegar ao topo fui recebido com uma pessoa segurando uma câmera dizendo: Parabéns! Você conseguiu. Tinha guiado meu primeiro 7b. Olhei para trás, vi aquele mar formando uma paisagem incrível. Respirei e fiquei pensativo.

Alcançar seus objetivos não é fácil. Requer trabalho duro e perseverança. E quando estamos perdidos, precisamos de alguém para apontar o caminho certo. Não me entenda errado. Você pode viajar o mundo para escalar mesmo sendo iniciante. Mas para mim não era apenas escalar no local, e sim fazer vias incríveis que via na foto de muitos escaladores profissionais durante as suas turnês. Eu queria saber que podia, queria aquelas fotos incríveis.

Pude viver diversas historias nesta viagens. Uma escalada inclusive que quase custou minha vida. Mas meu objetivo tinha sido alcançado: tinha me tornado um escalador melhor. E como diria o Sensei, a graduação é apenas a consequência.

Como foi meu treinamento

Um treinamento efetivo deve ser personalizado e feito por um profissional.

Portanto, vou apenas exemplificar mostrando como foi o meu.

  • Resolver de 4 até 6 boulders durante os dias da semana, um nível abaixo do seu grau a vista
  • Fortalecimento para ombros (2 dias da semana): 2 exercícios de TRX para ombro (I e Y), 15 repetições, 4-6 sets
  • Fortalecimento do abdômen (1 dia da semana): 4 Exercícios de TRX seguidos (prancha, oblíquos, reverso e moutain climber), 1 minuto cada
  • Resistência do abdômen (1 dia da semana): Prancha lateral no TRX para cada lado do corpo, 3-6 sets
  • Treinamento para costas e bíceps (1 dia da semana): 2 exercícios com pesos (no seu limite) para bíceps e costas cada, 12 repetições, 2-5 sets
  • Rotina de prevenção a lesão (2 dias da semana):
    • Rotação externa com banda elástica
    • Rotação externa elevada com banda elástica
    • Rotação internal com banda elástica
  • Fingerboard (1 vez por semana): 10 minutos suspenso, 10 descansando, 5-10 sets
  • Para os campeões: No sábado, escale uma via fácil, uma mediana e uma difícil em seguida, 3-6 sets

Engenheiro Líder de software e mochileiro de alma. Aproveita suas viagens a trabalho para curtir as montanhas. Já escalou na Argentina, Perú, Mexico, USA, Alemanha, Suiça e Tailândia. Mochilou em 18 países por 236 cidades. E ainda contando…

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