Temperaturas de sacos de dormir e isolantes: O fundamental para saber enfrentar o frio

Para praticar esportes de natureza é necessário estar fora de casa. Parece óbvia esta afirmação, mas muitas pessoas ainda sequer internalizaram este tipo de realidade. De acordo com a Norma Regulamentadora 17 (NR17) do Ministério do Trabalho, a temperatura do ambiente de trabalho onde são executadas atividades intelectuais como nos laboratórios, escritórios, sala de desenvolvimento e projetos deve ficar entre 20° e 23°C, com umidade relativa inferior a 40%.

Uma outra norma, a ISO 9241, estabelece que o ideal é manter a temperatura ideal de trabalho entre 20° e 24°C no verão e 23° e 26°C no inverno, com umidade relativa entre 40% e 80%.

Por que uma especificação tão técnica para falar de equipamentos outdoor? A resposta é relativamente simples: abaixo de 20°C podemos considerar que uma pessoa sentirá incômodo térmico e necessitará de usar algum tipo de agasalho. Portanto, para sair à natureza, especialmente para acampar, é necessário enfrentar temperaturas consideradas “baixas”. Portanto, usando as normas dispostas acima, consideraremos que abaixo de 20°C uma temperatura baixa.

Foto: Andy Cochrane | https://gearjunkie.com

Para aqueles que gostam da natureza e das montanhas, o saco de dormir, isolantes térmicos e a barraca são partes essenciais de qualquer equipamento outdoor. Um bom saco de dormir será o refúgio nas noites frias e pode fazer a diferença entre uma experiência boa ou ruim na montanha.

Entendendo que a aquisição de um saco de dormir é um investimento, nem tanto uma simples compra de um acessório, a escolha do modelo apropriado deve ser feita de acordo com nossas necessidades e aspirações. Existem vários fatores que influenciam nesta escolha, pois para cada atividade existe um modelo adequado, que irá variar de peso, volume, preço e, claro, a faixa de temperatura.

Muitas pessoas acabam por passar frio na montanha, às fezes contraindo hipotermia, por ainda insistirem em equipamentos inadequados e por ignorarem os números existentes no saco de dormir. Se alguém acredita que para qualquer atividade outdoor a atitude vale mais que qualquer equipamento, é bem possível que esta pessoa seja vítima de algum problema no futuro. Esta pessoa irá seguramente virar notícia de resgate ou mesmo de óbito.

A história do padrão mundial para sacos de dormir

Todas as marcas de qualidade submetem seus modelos de sacos de dormir a testes estabelecidos pela norma europeia EN 13537, a qual foi aprovada e aceita pelos países associados ao Comitê Europeu de Normalização (CEN) em 2002.

Desde então, todos os sacos de dormir vendidos na Europa são obrigados a ter esta certificação. Historicamente falando, esta padronização foi um avanço para a indústria, pois permitiu uma comparação objetiva entre os produtos pois definiu uma unidade de medida única.

Se um saco de dormir não possui certificação nesta norma, significa que possui qualidade duvidosa.

Antes desta data, especialmente nos EUA, as marcas”estimavam” uma faixa de revestimento em seus produtos, com base nos resultados obtidos nos diferentes testes propostos pela American Society for Testing and Materials (ASTM), uma organização que desenvolve padrões de consenso voluntário para uma gama de indústrias norte-americanas.

O problema com esta norma norte-americana é que os testes mediam apenas a resistência dos materiais, mas não o produto em si. A partir deste tipo de equívoco de interpretação a temperatura concedida pelos fabricantes era subjetiva e muitas vezes estavam longe da realidade.

A norma europeia EN 13537 define um procedimento que determina os limites de temperatura ambiental para o uso seguro de sacos de dormir com relação às suas propriedades térmicas, além de aferir a correta vedação de cada modelo.

É importante ressaltar que este padrão só se aplica a sacos de até -24 °C de conforto, já que o procedimento não considera vestimentas utilizadas para condições polares ou de alta altitude. Por isso sacos de dormir projetados para o Himalaia, não possuem essa certificação.

Existem, portanto, três classificações que são necessárias prestar atenção ao avaliar um saco de dormir certificado com EN 13537: Conforto, Limite Inferior e Limite Extremo.

  1. A classificação de conforto é, em geral, para para mulheres (mas pode considerar uma também uma pessoa “friorenta”): Este tipo de designação nada tem a ver com sexismo, mas com biologia. As mulheres precisam de mais isolamento quando dormem do que os homens.
  2. O limite inferior é para as demais pessoas: Designa a temperatura mais baixa em que uma pessoa pode ficar confortável no saco de dormir, desde que esteja usando roupas e dormindo em um isolante térmico de 2,5 cm.
  3. O limite extremo designa a temperatura mais fria que alguém poderia sobreviver sem congelar até a morte: Cuidado com esta classificação. Algumas marcas por vezes citam como o limite inferior ou a classificação de conforto do saco de dormir. Assim como vendedores, muitas vezes porque eles não entendem o significado das informações.

O teste e as faixas de temperaturas

Para a pessoa mais incrédula, é necessário explicar como os institutos europeus chegaram a este “número mágico”. O teste de raios de temperatura de um saco de dormir é realizado em uma câmara de ambiente controlado, na qual é possível variar a temperatura, umidade e velocidade do ar.

Até o momento, existem três laboratórios no mundo que realizam estes testes e que ficam na França, Alemanha e Noruega. Somente nestes lugares os sacos de dormir são certificados. Por existirem tão poucos laboratórios para sacos de dormir no mundo, o preço para certificar um produto fica encarecido.

Para determinar as propriedades de cada modelo é usado um boneco, do mesmo tipo usado em testes automobilísticos, que é vestido com uma camiseta e uma calça fina. Por serem biologicamente diferentes, a norma faz diferença por gênero. Portanto, para estes laboratórios, o processo considera:

  • “Mulher padrão”: idade de 25 anos, medindo 1,60 metro e 60 kg de peso
  • “Homem padrão”: idade de 25 anos, medindo 1,73 metro e 73 kg de peso

Dentro do manequim existem aquecedores e vários sensores de temperatura e depois colocados dentro de um saco de dormir em uma espécie de bandeja. Uma vez que o manequim é aquecido à temperatura do corporal padrão (entre 36,1ºC e 37,2ºC), a temperatura do ar é medida dentro da câmara e na superfície do manequim por várias horas.

Foto: Gabe Rogel/Aurora Photos | https://www.backpacker.com

A partir destas medições realizadas, calcula-se o valor de isolamento do saco de dormir e são estabelecidas quatro faixas de temperatura que, se bem interpretadas, oferecem uma boa ajuda na hora de escolher o modelo correto.

Os quatro intervalos são:

  • Temperatura máxima – Tmax : Temperatura na qual um homem pode dormir sem transpiração excessiva. É estabelecido por padrão nestes testes que está com a cabeça para fora do saco de dormir, com os braços para fora e com os zíperes abertos. Este intervalo não é informado pelos fabricantes.
  • Temperatura de conforto – Tcomf : Faixa de temperatura em que uma pessoa pode dormir confortavelmente, sem a necessidade de roupas adicionais e sem sentir frio. Por padrão a pessoa deve estar usando usando o capuz (modelos mummy) e com os braços dentro do saco de dormir.
  • Limite inferior – Tlim : É o limite de temperatura na qual que um indivíduo do sexo masculino pode dormir sem tremer, usar roupas mais abrigadas e sem acordar por oito horas. Também é chamada de temperatura de transição, embora esta nomenclatura esteja caindo em desuso.
  • Temperatura extrema – Text : Temperatura na qual uma pessoa sensível ao frio possa permanecer pelo menos seis horas sem risco de contrair hipotermia. Esta é a temperatura de sobrevivência e quando é atingida, a pessoa não consegue dormir pois corpo não consegue descansar.

Fatores que influenciam no conforto térmico

Considerando que as pessoas não são manequins, são também feitos testes para averiguar quanto cada equipamento auxiliar em um camping influencia no uso de um saco de dormir. O cálculo é feito para servir de uma espécie de backup, pois ao comprar um saco de dormir é importante levar em consideração somente as temperaturas de conforto (nunca as de extremo).

Como já foi dito aqui na Revista Blog de Escalada inúmeras vezes, ao comprar um saco de dormir o valor a ser escolhido deve ser sempre o de CONFORTO, baseando-se na menor temperatura que irá fazer na região visitada.

  • Isolante térmico: Uma porcentagem da perda de calor considerável é produzida ao estar em contato com o chão. Os isolantes térmicos, entretanto, utilizam outra unidade de medida, que é o Fator R. Os significados dos valores do Fator R de cada isolante podem ser encontrados em um artigo que aborta somente ele.
  • Barraca: Uma barraca pode oferecer até 5°C a mais, funcionando como uma camada extra em relação ao exterior. Entretanto, os valores variam conforme a qualidade da barraca. Somente barraca de quatro estações chega a este valor de 5°C.
  • Indumentária: Os testes do padrão europeu EN 13537 estimam a faixa de temperatura apenas com uma primeira camada fina (camiseta e calças finas). Nos casos em que o frio é intenso, é relativamente normal dormir com segundas camadas ou ainda mais a terceira. Isso aumenta o conforto térmico, mas não deve ser levado em conta no momento de comprar o saco de dormir.
  • Liners: Existem no mercado liners (também conhecido como manta térmica) para o saco de dormir que permitem aumentar o conforto em vários graus.
  • Tamanho do equipamento: Se o tamanho do saco é muito grande em relação ao do tamanho do usuário, o calor em vez de mantidos tende a se dissipar. Portanto é recomendável um saco de dormir proporcional à estatura do usuário.
  • Idade: Os idosos tendem a gerar menos calor e sentem mais frios do que os mais jovens. Particularmente, homens bem nutridos entre as idades de 16 e 24 anos têm uma alta taxa metabólica, fazendo com que seus organismos bombeiem o calor para que não se sintam frios. Assim, para uma pessoa jovem, a temperatura de conforto poderia facilmente ser 5°C mais fria do que para um homem mais velho. Por outro lado as crianças pequenas não têm os mesmos controles naturais de calor que os adultos.
  • Condição física: Pessoas treinadas e em boa condição física estarão melhor preparadas para o frio. Esgotamento físico limita a geração de calor.
  • Alimentação e hidratação: Uma pessoa bem nutrida e hidratada gerará mais calor corporal e poderá recuperar-se melhor do esforço realizado.

Atualizações do fator R nos isolantes térmicos infláveis

Até agora, comparar o nível de calor dos isolantes térmicos em todo o mercado outdoor tem sido um pouco difícil. isso porque poucas empresas utilizam o mesmo tipo de medida, da mesma maneira que aconteceu com os sacos de dormir até o início do século XXI.

Atualmente no mercado, somente a Therm-a-Rest que realizava a medida. Mesmo que uma marca liste o Fator R de seu isolante térmico, o teste por trás desse número é totalmente diferente do teste de uma para outra marca. Para contornar este problema, a indústria outdoor norte-americana concordou em adotar um novo padrão de teste de Fator R da American Society for Testing and Materials (ASTM), para que o usuário possa comparar melhor entre os isolantes térmicos de todas as marcas.

Há rumores de que, assim como os sacos de dormir, tanto a REI (Maior rede de lojas outdoor dos EUA) quanto a MEC (maior rede de lojas outdoor do Canadá) exigirão que todas os isolantes térmicos infláveis vendidos adotem o novo sistema de classificação da ASTM.

Mas o que a classificação do Fator R significa exatamente? Em suma, é uma medida de quão bem um isolante térmico resiste ao fluxo condutor de calor ou o calor do seu corpo sendo perdido no chão.

Em geral, um Fator R de valor 1 a 2 é bom para o verão e valores de 2 a 4 faz um ótimo isolante térmico de 3 temporadas. Já valores de Fator R de 4 a 6 é um isolante térmico para todas as estações.

Qualquer coisa de um Fator R acima de 6 é para o frio extremo. Lembrando sempre que variáveis ​​como umidade, tipo de abrigo, condições do solo e preferência pessoal podem significar que você vá mais alto ou mais baixo.

Semelhante à classificação EN/ISO para sacos de dormir, o padrão ASTM R-value requer uma máquina específica para fazer os testes e critérios rigorosos de teste para calcular uma classificação de Fator R aprovada. Isso garante que o resultado seja comparável entre todas as marcas.

A Therm-a-Rest foi uma das primeiras marcas a investir nesta máquina de teste Fator R da ASTM (ASTM R-value). Como resultado, alguns dos seus modelos atuais ajustarão as classificações de Fator R, incluindo o modelo NeoAir Uberlite que passou de 2 para 2.3, o NeoAir Xlite que passou de 3.2 para 4.2 e o NeoAir XTherm de 5.7 para 7.2.

A certificação ASTM R-value será exigida pelas maiores lojas nos EUA e Canadá a partir de junho de 2020.

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