“Tragédia do Everest” faz 22 anos em meio à banalização de ir ao topo do mundo

A temporada de escaladas ao Monte Everest (8.848 m) acontece todos os anos, durante o período da primavera no hemisfério norte (outono no hemisfério sul). No ano de 1996, há 22 anos, aconteceu a temporada tida como a mais mortífera do montanhismo no Monte Everest. Desde então, aconteceram outras duas tragédias no Nepal, com mais mortes, mas a mídia não especializada em montanhismo ainda lembra o ocorrido em 1996.

Naquele ano de 1996, quatorze montanhistas faleceram durante a temporada de escaladas no Monte Everest, sendo que oito deles morreram no mesmo dia. Estas oito mortes aconteceram no fatídico dia de 10 maio de 1996 e os outros morreram no dia seguinte (em decorrência das lesões sofridas no dia anterior).

O acontecimento ficou conhecido como “Tragédia do Everest” e gera discussão até hoje entre montanhistas. A fatalidade foi assunto de várias obras literárias como “No ar rarefeito” de Jon Krakauer, “Deixado para morrer” de Beck Weathers, “A Escalada” de Anatoli Boukreev, “Climbing High” de Lene Gammelgaard e “The Other Side of Everest” de Matt Dickinson.

Desde 1996, o governo do Nepal vem implementando várias medidas de segurança para minimizar o número de mortes. Estas medidas também acabou por permitir a vários “montanhistas de ocasião”, os quais utilizam a montanha como plataforma para alpinismo social. Todos os anos, mais e mais pessoas vão fazer “turismo de montanhismo” no Monte Everest, utilizando-o como atrativo midiático, para um plano de tornar-se celebridade. Desta maneira, apresentadores de TV, modelos fotográficos, escritores e todo o tipo de pessoas, que ambicionam algum tipo de estrelato, planejam chegar ao teto do mundo.

Com esta banalização, além do fato da real desvalorização de um montanhista chegar ao cume do Monte Everest, há ainda a quantidade de lixo e dejetos humanos deixados pelas empresas que administram as expedições. Todos os anos, cinco toneladas de lixo têm de ser retiradas por voluntários, em uma operação que sempre chama a atenção cada vez mais da mídia especializada.

Lembrando que, mesmo protagonizando várias tragédias o Monte Everest não é a montanha mais perigosa do mundo. As tragédias acontecem em decorrência da quantidade de pessoas, onde muitas delas não são montanhistas, visitando a montanha.

Tragédias de 2014 e 2015

Foto: http://www.bellinghamherald.com

No início da temporada de montanhismo do Everest de 2014, sherpas trabalhavam na fixação das cordas em uma passagem da via normal. O trecho é conhecido como “cascata de gelo” ou “cascata de Khumbu”. O local possui uma fenda larga e acentuada.

A cascata Khumbu fica pouco depois do acampamento base do Everest, e é considerado uma das passagens mais perigosas da escalada na Face Sul (que pertence ao Nepal). Muitos se referem a ela como a principal em termos de periculosidade, pois a passagem de montanhistas por ela é considerada delicada. Por sua dificuldade, o cartaz do filme Evereste (2015) é de um montanhista tentando a travessia.

Foto: http://www.cnn.com

Enquanto montavam as proteções, uma avalanche acabou vitimando 16 trabalhadores de uma só vez. Líderes das comunidades sherpas negociaram com o governo do Nepal e cancelaram a temporada de montanhismo de 2014.

Já no ano de 2015, o Nepal foi atingido por um terremoto de 7.9 graus na escala Richter que, segundo descrição de cada intensidade, este abalo sísmico causa danos sérios num raio de várias centenas de quilômetros em torno do epicentro.

O terremoto causou várias e gigantescas avalanches nas montanhas do país. Uma destas avalanches arrasou completamente o acampamento base do Everest. Ao todo foram 3.000 mortos no país inteiro. O país decretou também o cancelamento da temporada de montanhismo naquele ano.

Tragédia do Everest

Foto: Caroline Mackenzie | http://www.markhorrell.com/

O acontecimento conhecido como “Tragédia do Everest” aconteceu durante uma escalada ao Monte Everest na temporada de 1996. Na ocasião, enquanto duas expedições desciam do Cume do Everest, uma tempestade que se aproximou de repente atingiu o local. As previsões meteorológicas apontavam para a tempestade chegar à região do Everest três dias depois.

Todos os integrantes da expedição foram pegos de surpresa e alguns dos montanhistas ficaram impossibilitados de finalizar a descida, vitimando oito dos integrantes desta expedição. Maioria destes, sem a menor experiência em montanhismo e extremamente dependentes dos sherpas. Ao todo, oito pessoas faleceram sendo três do lado norte e cinco na vertente sul.

Entre as vítimas, estavam os guias das duas expedições: Scott Fischer, que faleceu na descida a 8.300 m (Mountain Madness) e Rob Hall (Adventure Consultants), que se recusou a abandonar o cliente Doug Hansen, a 8.749 m. Faleceram também Andrew Harris (Adventure Consultants) e Yasuko Namba. O americano Beck Weathers foi dado como morto, mas milagrosamente (como mostrado no filme Everest e em seu livro “Deixado para Morrer”) conseguiu chegar ao campo base do Everest.

Foto: https://www.lidovky.cz

As imperícias destes clientes foram denunciadas em quase todos os livros. A título de exemplo, o jornalista Jon Krakauer em seu livro “No ar rarefeito”, cita que havia pessoas que sequer sabiam como utilizar os equipamentos de escalada. Lene Gammelgaard no seu livro “Climbing High”, que foi de fato a primeira obra a tratar sobre a Tragédia do Everest, também aborda o tema, embora de maneira menos contundente e bastante superficial.

Talvez a maior critica aos acontecimentos, incluindo as observações de Jon Krakauer , foi de Anatoli Boukreev em seu livro “A Escalada”. Boukreev, que era um dos guias de montanha no dia da tragédia, rebateu as críticas do americano. Krakauer, que não era montanhista com larga experiência em alta montanha, não tinha a experiência em montanhismo como o russo. No livro fica evidente como Anatoli, foi na verdade um verdadeiro herói e naquele dia salvou muitas vidas.

Até hoje, com o aumento da massificação do montanhismo do Everest, a dependência do trabalho dos sherpas (que chegam a carregar nas costas alguns clientes), além da infraestrutura luxuosa das agências de turismo, há crescentes críticas sobre o real mérito da ascensão.

Foto: ninadsheth

Mas o que faz a o incidente de 1996 ser considerado “tragédias” até hoje, mesmo com tantos incidentes com mais mortes e feridos? Muitos comentam que foi pela morte de ocidentais e não por sherpas. Este tipo de afirmação é falsa.

A principal diferença entre os incidentes de 1996 em relação aos de 2014/2015, é que o primeiro aconteceu durante uma escalada na parte alta da montanha. As tragédias de 2014 e 2015 aconteceram no campo base e outras partes do país. A quantidade de mortos nestas tragédias recentes deve-se ao fato, de que há pelo menos 1.000 pessoas no campo base do Everest, comprovando a banalização do montanhismo e uma vulgarização dos valores do esporte.

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

There are 3 comments

  1. Luisa

    Não sou montanhista, mas tenho muita vontade de um dia poder praticar esse esporte que tanto admiro. No entanto, a forma como você coloca o texto e termina com os termos “banalizacao“/“vulgarizao” do esporte me desencoraja bastante por passar a impressão de que “novatos” como eu não são bem vindos no esporte e não serão bem vistos por montanhistas profissionais como você. Entendo que não posso começar já tentando subir o topo do Everest, mas achava (até minutos atras) que poderia ser factível ir pelo menos a base, e que todos têm direito de apreciar a natureza (independente de ser montanhista ou não). Enfim, só compartilhando minha impressão. Abs

    1. Fabiana

      Luisa não desista não!…
      Mas entendi bem o ponto de vista dele que ressalta essa necessidade de muitos que querem apenas ir pra dizer “eu estive lá” e estamos vivendo um momento onde isso está ocorrendo muito..
      Pessoas totalmente despreparadas sabe..E que não querem também esse preparo pois só irão mesmo uma unica vez..🤷🏼‍♀️ A todo custo e jeito..
      Seu pensamento está correto inicie dessa forma..degrau a degrau..conseguiu superar a primeira?Otimo! Vá para proxima,aumente a dificuldade a altitude e continue.
      Comigo foi e é assim..
      E não acredito que novatos não sejam bem vindos..mas tem aquela diferença dos novatos por amor,que querem estar ali por vontade e que vao atras para aprender e entender sobre tudo que envolve esse esporte,e aqueles que vão de qualquer jeito só pra fazer aquele Click sem respeito ao proximo ao local e etc..
      Bom Caminho e se precisar de ajuda pode me chamar que terei gosto em tentar te auxiliar a conquistar alguma.

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