Pico das Agulhas Negras: A experiência de escalar a via “Oba-Oba” + “Bira”

O Parque Nacional de Itatiaia (PNI) foi criado em 1937 tornando-se o primeiro do Brasil. No coração da Serra da Mantiqueira e, relativamente, próximo das capitais do RJ e SP, ele é até hoje referência em montanhismo no país pensando na diversidade dos seus atrativos com diversos tipos de dificuldades de trekking e hiking, cachoeiras e um universo gigante e ainda em desenvolvimento de escaladas.

Muitas pessoas começam a ter contato com montanhismo ao visitar o parque e em sua grande maioria atraídas pelo magnífico Pico das Agulhas Negras (2.791 m).

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Com mais de 2.790 metros, o quinto mais alto cume do país (maior do estado do Rio de Janeiro), leva multidões ao PNI pela sua imponente presença e a possibilidade de iniciantes (com guias e alguns equipamentos de segurança) chegarem a um dos pontos mais altos do país em apenas um único dia. Eu fui uma dessas pessoas que, lá trás em 2013, descobriu a Mantiqueira e suas montanhas subindo o Pico das Agulhas Negras pela sua clássica via (caminho) chamada de “Pontão”, para assinar o livro do cume mais alto chamado de Itatiaçu (São no total quatro cumes com respectivos livros).

Foi realmente duro para uma iniciante enfrentar essa aventura que mistura trilha, “trepa pedra”, escalada e rapel. Estes últimos realmente técnicos e por isso são exigidos os equipamentos de segurança e, principalmente, saber usá-los.

Atualmente, durante a temporada de montanhismo no Brasil, é um grande desafio poder subir pelo “Pontão” porque, devido à imensa procura, o parque limitou o numero de pessoas permitidas a subir por dia. As pessoas chegam de madrugada na portaria do parque (que abre as 7:00) para garantir as vagas que muitas vezes já acabam, com pessoas que chegaram ali por volta de 2h/3h da manhã.

Dessa forma, ficou cada vez mais difícil e até chato subir o Pico das Agulhas Negras pela via “Pontão” de tantas pessoas que estão ali, grupos muito lentos, pessoas que não sabem se portar na montanha, enfim… Para quem já tem mais experiencia em trilhas/escalada, talvez não seja a melhor opção em um final de semana de temporada. Foi assim que fui pesquisar e buscar qual seria outro caminho para subir o Pico das Agulhas Negras.

A inspiração veio do livro “50 Vias Clássicas no Brasil” que faz uma seleção de vias por todo o país pelos diferentes estados, rochas, tipos de escalada e graduações. O livro é um excelente guia para começar a conhecer por onde existe escalada no país. É incrível como existem vias para conhecer em cada cantinho perdido por aí. A obra é bastante completa e traz cada detalhe que é necessário para realizar as vias ali apresentadas com dicas de aproximação, croqui detalhado, etc.

Com certeza, no livro teria uma via do Pico das Agulhas Negras e encontrei a via “Oba-Oba”. Porém, ao analisar o croqui da via, vi que o acesso a ela seria justamente pelo mesmo caminho que a galera do “Pontão”, o que não me ajudaria a fugir tanto da galera da multidão.

Pedi ajuda a alguns amigos, que são guias no parque e conhecem cada canaleta do agulhas, que me ajudassem a encontrar uma solução: Como fazer a via mais clássica da montanha sem enfrentar o aglomerado de pessoas?

O Pedro me trouxe uma ideia bastante audaciosa, mas que parecia perfeita: subir por outra via bastante clássica, a “Bira” que também chegaria ao cume do Itatiaçu e então com um rapel e pouco trepa pedra já chegaríamos na base da “Oba-Oba”. O grande desafio era garantir que desse tempo de tudo e então precisaríamos começar bem cedo, ter boa resistência e sem muito espaço para erros. O Pedro então seria a melhor opção de parceria para tentar o projeto.

Chegamos bem cedo no parque, enfrentamos a fila para preencher ficha, fila para pagar e seguimos até o Abrigo Rebouças de carro. Mesmo as vagas sendo reduzidas para ir até lá de carro, conseguimos permissão para que apenas nos deixassem lá que seria mais perto da escalada.

Diferente do que muitos acreditam sobre o Pico das Agulhas Negras, sua rocha não é granito, mas sim Nefelina Sienito. Este tipo de rocha lembra as agarras e aderência famosas do granito, mas o Agulhas em si tem um detalhe: sua formação é uma mistura de erupção de magma com o escorrimento de águas de chuvas (ácidas) que formam grandes canaletas. São estas canaletas que, umas ao lado das outras, dão o nome ao pico. Com isso, não é uma escalada exatamente como em outros granitos.

Via “Bira” – 3º IIIº sup E3

Para chegar na base da “Bira”, a trilha é quase a mesma para a base da via Pontão e já cruzamos com alguns grupos por lá, mas quando quebramos em uma matinha para direita, ficamos sozinhos. E é aí que começa o grande e real crux da via “Bira”: navegação. Até para chegar na base da via, a trilha não é tão batida como a do Pontão. Depois de chegar na base, começam grandes lances de canaletas infinitas e trepa pedra.

Este é o momento que eu diria de maior atenção porque é extremamente fácil errar. O próprio Pedro que conhece super bem o lugar ficou em duvida em 2 momentos por onde ir. Diferente de outras escaladas de paredes longas, a visualização de vias no Pico das Agulhas Negras é realmente desafiador.

Foto: @moniqueoliveira_atelier

A base da via é um lugar muito lindo nas entranhas do Pico das Agulhas Negras, que de longe parece uma grande fenda na diagonal. Ali, colocamos as sapatilhas, capacetes, mas não nos encordamos ainda. Em alguns dos lances de canaletas até tem grampos “P ” para proteção, mas não chegamos a usá-los.

Mesmo eu morrendo de medo de canaletas e aderências, é confiar no pé que vai. São lances fáceis de IIº e IIº sup até chegar no que seria a 5ª enfiada e o lance de IIIº sup. É realmente um lance mais difícil que os anteriores e colocamos as cadeirinhas e nos encordamos. O Pedro guiou facilmente a enfiada que conta com apenas um grampo “P” e uma parada simples em um “P”. É um lance de uma canaleta mais inclinada, menos positiva e mais escorregadia. Beta: lá em cima na canaleta ,tem uma mão boa na esquerda…. Acho que é a única mão o tempo todo. Bom treino de aderência, confiar no pé e equilíbrio.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Depois disso voltando os lances de IIº e IIºsup de trepa pedra, mais canaletas e navegação não tão óbvia até que se visualiza o cume do Itatiaçu. Para quem vem pelo pontão é necessário descer por um rapel para acessar a pedra do cume e então escala-lo.

Pela via “Bira”, você já chega direto nas canaletas desta pedra. Eu guiei a enfiada de II que chega até o livro com apenas um P de proteção e a parada passando a fita em uma grande pedra. Novamente, é uma espécie de canaleta mais vertical que as outras que começa apenas confiando nos pés e depois aparece algumas agarras para as mãos. Eu já assinei o livro do Itatiaçu 4 vezes, mas em nenhuma delas eu havia guiado então foi uma grande emoção.

Foi nesse momento que percebi que estávamos indo realmente bem porque fomos os primeiros a chegar no cume no dia. O grupo mais rápido vindo pontão estava ainda fazendo o rapel para chegar na pedra do cume. Daria tempo de completar todo o desafio e fazermos o verdadeiro objetivo do dia: a via “Oba-Oba”.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Nós aproveitamos uma corda fixa de um dos grupos que estava tentando chegar até o cume para chegar ao cume ao lado do livro onde já começavam a chegar varias pessoas.

Seguimos um pouco na direção contrária de quem estava seguindo pela via pontão e fizemos um rapel que nos deixou quase ao lado da base da via “Oba-Oba”.

Via “Oba-Oba” – 3º VI (A0) E2 (50 Vias Clássicas no Brasil)

A base da “Oba-Oba” fica fica no meio do grande corredor que faz parte da via Pontão, no grande paredão da direita o primeiro grampo “P” vai ser embaixo e bastante visível. A partir deste ponto, a via é de forma geral, mais curta que a anterior. Como a via fica bem no caminho da muvuca de pessoas vindo pelo pontão, a dica que dou é o segurador ficar bem posicionado de forma a impedir pessoas passando na frente dele e deixando aberto um caminho por trás.
Diferente da “Bira”, essa via é menos trepa pedra, é realmente escalada porque é tudo mais vertical em um grande paredão. Tirando 2 lances, de forma geral, é tranquilo com agarras e movimentação bem definida. O desafio é justamente o movimento de “saída” da primeira e da segunda enfiada.

O primeiro movimento da via é se posicionar em um espaço bom para pés de forma tranquila de subir e ali já costura com tranquilidade. É então onde vem o lance em VI em aderência. (Como confiar em um pé de aderência em um lance vertical e sem agarra?) O move é realmente delicado e o próprio Pedro, que estava guiando, tomou um tempinho para refletir a melhor forma de passar o lance.

Com a costura do lado, é possível artificializar o lance – Vá para a direita que para pessoas mais altas haverá uma agarra e para baixinhos como eu, a canaleta irá salvar. Ao menos foi assim que nós 2 desenvolvemos. Depois segue tranquilo até a parada.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

A saída da segunda enfiada traz de novo um lance delicado em Vº sup em aderência. A primeira agarra não ficara longe para os mais altos, mas mesmo o Pedro acabou de novo avaliando algumas possibilidades de lance antes de mandar o move. Como a parada está do seu lado, é possível artificializar de novo em A0 para quem não quiser arriscar.

Nos próximos moves tudo já vai fluir de forma mais tranquila. Fizemos a parada onde tem as 2 chapeletas. A enfiada seguinte é mais tranquila voltando a aproximar mais de trepa pedra e com agarras bastante definidas.

O retorno da via acontece pelo pontão.

Para quem quiser contratar o Pedro Pereira para trilhas e escaladas no PNI, contato: (12) 98199-2734

Um guia com outras vias do Pico Agulhas Negras e PNI será relançado em breve.

There is one comment

  1. Thaís Cavicchioli Dias

    São os grupos grandes de pessoas que não conhecem montanhismo e muitas vezes não sabem como se portar. Ao subir o agulhas pelo pontão, muitos trechos só passam uma pessoa e grupos grandes sem experiência tendem a empacar o fluxo mesmo com guias… As vezes acontecem de conversas muito altas, gritos, sujeiras etc…. Essas coisas podem atrapalhar o clima e evolução de outros grupos.

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