O que é escala RIC e por que ela afetou o rendimento de Adam Ondra no mundial de escalada?

A edição extra do Campeonato Mundial de Escalada do IFSC começou no domingo, em Hachioji (Japão), e classificará sete atletas de por gênero para Tóquio 2020, até o dia 21 de agosto. Os resultados apresentados pelos finalistas do boulder, especialmente no masculino, surpreendeu. O motivo é simples: a escalada de alto rendimento possui a peculiaridade de que alguns escaladores (as) às vezes se estão no topo, em outras não. Por este motivo que no esporte de alto rendimento a certeza é sempre relativa.

Baseado em teorias não objetivas, houve quem cravasse que Adam Ondra estaria no pódio e que venceria fácil. Pois quem verificou ontem (assista ao vídeo no topo) o rendimento do atleta tcheco aprendeu que ninguém ganha por antecipação. Esta realidade faz parte de qualquer esporte, por mais que a subjetividade (como torcer para alguém ou alguma equipe) tenda a afirmar o contrário.

Nas finais da disciplina de boulder, Adam Ondra vivenciou seu pior rendimento da história. Resumidamente, não praticamente conseguiu tirar os pés do chão. Sem conseguir fazer uma pontuação mínima (não chegou na zona de pontuação), ficou com um melancólico 6º lugar de seis finalistas. A repetir este rendimento, o improvável pode acontecer, que é o maior escalador esportivo da atualidade não se classificar para as olimpíadas nesta primeira seletiva.

Escala RIC

Muito criticada, a final de boulder masculino da edição extra do Campeonato Mundial de Escalada do IFSC teve apenas dois tops. Nela, o segundo e terceiro lugares do masculino sequer chegaram a fazer top, pontuando apenas pelo número de zonas de pontuação (outrora conhecida como “agarra bônus”). Como os route setters conseguem medir tão exatamente a dificuldade de uma linha de boulder para que escaladores do calibre de Adam Ondra sequer tirem o pé do chão?

A resposta desta “medição” está em uma escala que transcende muito mais que apenas o grau da via. O “culpado” disso é o francês Jacky Godoffe que, junto de Tonde Katiyo, é o idealizador da escala RIC. Em seu livro “My Keys to Route Setting“, Godoffe explica que “O objetivo da escala RIC não é criar números absolutos. A escala RIC não é mais objetiva que os graus“.

Em teoria a escala RIC é um sistema para descrever numericamente um problema de boulder entre os route setters do IFSC, permitindo que as equipes não tenham que se concentrar apenas no fator de dificuldade ao escalar uma linha.

O objetivo é também estimular a capacidade de resolver a abordagem de uma linha pela maneira mais técnica e criativa possível, e leva em consideração três fatores essenciais identificados como: R (risco) + I (intensidade) + C (complexidade). Dentre cada um desses fatores é atribuída uma nota que varia de 0 (mínimo) a 5 (máximo).

Colocando de forma resumida:

  • Risco: Não significa necessariamente o risco físico (do atleta se machucar), mas à necessidade de decisão, ou confiança, que um escalador deve assumir ao arriscar um movimento. Portanto, refere-se à insegurança que o conjunto de movimentos pode criar. Pois quando o movimento começa, não pode mais ser retrocedido, obrigando ao escalador arriscar perder a tentativa.
  • Intensidade: Refere-se à força física exigida da linha ao escalador.
  • Complexidade : A simplicidade, obviedade e complexidade de linhas de boulder e suas sequências de movimentos necessários. Neste quesito a capacidade de leitura e projeção mental dos movimentos de cada escalador é testada.

Foto: Daniel Gajda

Portanto, um problema como os que Adam Ondra, assim como todos os semifinalistas na edição extra do Campeonato Mundial de Escalada do IFSC, de escala RIC de valor 5-1-4 significaria:

  • 5 – Uma linha com movimentos que não há retorno de posição e, por isso, comum de cair nas primeiras tentativas
  • 1 – Uma linha que não exigirá dos escaladores muita força física
  • 4 – Leitura complexa, que exige concentração e capacidade de raciocínio para montar a sequência de movimentos

Injusto para Adam Ondra e para os outros competidores? Nem tanto, pois o japonês Tomoa Narasaki conseguiu chegar a dois tops, mesmo sendo exigente. Se observarmos a categoria feminina, Janja Garnbret chegou a fazer três tops de um total de quatro linhas, vemos que o que conta mais é a capacidade de concentração de que formular a estratégia em campeonatos.

O diferencial, no caso de usar este tipo de granulosidade valores em uma linha de boulder, é proporcionar mais espetáculo ao expectador. Atualmente, como diversas vezes foi analisado aqui na Revista Blog de Escalada, não é necessariamente o “mais fortão” (ou, no caso das mulheres, a mais fortona) que vence uma competição de escalada no IFSC, mas aquele que possui força, raciocínio e estratégia.

Foto: Daniel Gajda

Observando os resultados da competição de Tomoa Narasaki em cada uma das linhas teve a seguinte performance:

  • Boulder 1: Seis tentativas para chegar ao Top
  • Boulder 2: Oito tentativas para chegar na agarra bônus ou zona de pontuação
  • Boulder 3: Seis tentativas para chegar ao Top
  • Boulder 4: Uma tentativa para chegar na agarra bônus ou zona de pontuação

Observando os resultados da competição de Janja Garnbret em cada uma das linhas teve a seguinte performance:

  • Boulder 1: Duas tentativas para chegar ao Top
  • Boulder 2: Cinco tentativas para chegar na agarra bônus ou zona de pontuação
  • Boulder 3: Não chegou à agarra bônus ou zona de pontuação
  • Boulder 4: Uma tentativa para chegar ao Top

Foto: Eddie Fowke

Repare que entendendo a escala RIC, fica mais fácil de compreender porque às vezes algumas linhas são mais difíceis para alguns escaladores, embora os resultados de cada um sejam díspares. Este tipo de granulosidade de índices favorece também a emoção das competições, pois, pelos números apresentados acima, os competidores tiveram que dar o melhor de si de maneira bem explícita para chegar ao topo.

Portanto, escala RIC ajuda as equipes a criar linhas e etapas mais equilibradas, nas quais os problemas de boulder premia os vencedores mais completos e versátis possíveis.

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