Vencendo a barreira mental no esporte : A importância de realizar um processo de pensamento minucioso

Jeff Lodas, um de nossos treinadores, e eu temos uma grande meta: Subir uma nova via na face Leste do Cloud Peak nas montanhas Big Horn, em Wyoming. A face leste é um belo paredão de um pouco mais de 300 metros com apenas duas vias já estabelecidas. Nós trabalhamos na via nova pelos últimos dois anos. A viagem deste ano, que ocorreu no começo de agosto, nos deu suficiente para terminarmos a via. Porém, falhamos, não por causa da dificuldade da meta, mas pela demora que encontramos na aproximação da montanha.

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Nos anos anteriores nós caminhamos o caminho todo: 21 quilômetros de aproximação. A primeira parte, 10 km de trilha batida, é uma caminhada fácil, porém com cargas pesadas. A segunda parte, 11km sem trilha, é difícil, e consiste em subidas em blocos em rampa e florestas densas.

Este ano tivemos uma ideia brilhante: iríamos pegar emprestado um ATV (veículo para todo terreno) para levar nossas mochilas pesadas na primeira parte da aproximação. No entanto, a trilha para o ATV era diferente do que a trilha de caminhada. Ela começava mais ao norte e terminava em um lago, cruzando na trilha de caminhada. Não pensamos completamente sobre a consequência dessa diferença. O fascínio de dirigir um ATV capturou nossa atenção. Então, pegamos uma “Big Boss 6×6” com nossos amigos em Lander e dirigimos até o começo da trilha.

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Foto : https://warriorsway.com

Ideias brilhantes são ótimas, mas elas podem nos deixar em apuros se não realizarmos um processo minucioso de pensamento/preparação. A preparação requer que uma ideia seja pensada para ser compreendida completamente. “Completamente” significa pensar em todos os aspectos do risco, que incluem: a meta, a consequência, e o plano.

Jeff e eu não tínhamos familiaridade em usar um ATV nem com a trilha de ATV. Após um falso início, nos encontramos a 32km em uma região selvagem com um ATV quebrado. As montagens da roda direita da frente e esquerda do meio se separaram. Demoramos 2 dias para conseguir caminhar de volta, conseguir ferramentas e consertá-lo. Este atraso de dois dias nos deixou no meio de uma severa janela climática em Cloud Peak, a duas cordadas do cume, impedindo-nos de terminar a via e atingir nossa meta.

Vamos ver em qual parte o nosso processo de pensamento estava incompleto:

  1. Meta: Nós entendemos a meta. Queríamos chegar no lago com o ATV e nossas mochilas pesadas.
  2. Consequência: Não entendemos a consequência. Deveríamos ter questionado: “Qual é a pior coisa que poderia acontecer? ”. Responder a essa pergunta nos teria dado informação valiosa, tal como o ATV quebrar, ficar sem gasolina ou a trilha ser intransitável.
  3. Plano: Conhecer todas as consequências nos ajudaria a pensar sobre como se preparar para lidar com isso. Nós conseguiríamos consertar o ATV ou contrataríamos alguém para tal? Poderíamos levar gasolina reserva? Poderíamos descobrir mais informações sobre as condições da trilha?

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Nós invariavelmente atingiremos impasses que nos levam a duvidar da nossa capacidade de permanecer comprometido quando nos arriscamos. Nós atingimos um impasse com o ATV. Primeiro, tivemos um começo falso. Dirigimos cinco milhas na trilha e percebemos que não tínhamos combustível suficiente. Então, voltamos para obter mais. Em segundo lugar, depois de experimentar a severidade da trilha no nosso começo falso, eu duvidava se devíamos ou não usar o ATV. Se houvéssemos pensado melhor antes de nos envolver com o risco, teríamos informações valiosas para estar preparado para lidar com tais dúvidas.

Também podemos ser vítimas de um pensamento incompleto semelhante na escalada. Podemos simplesmente começar a escalar, esperando o melhor. Então, quando encontramos incógnitas que não esperávamos, nosso compromisso fica bloqueado, ou nos encontramos em situações que não são apropriadas.

Fazer um processo completo de pensamento/preparação nos ajuda a converter incógnitas em fatos conhecidos e nos ajuda a assumir os riscos apropriados.

  1. Objetivo: Estamos escalando à vista ou simplesmente nos familiarizando com uma via, trabalhando para uma cadena futura? Ser claro sobre o objetivo nos impede de mudar nossas mentes quando estamos estressados.
  2. Consequência: Esclarecer se é um risco de não-queda ou de sim-queda nos ajuda a saber como lidar com a possibilidade de queda. Não permitimos quedas em zonas de não-queda; permitimos quedas nas zonas de sim-queda.
  3. Plano: Conhecer a consequência nos ajudará a pensar sobre como se preparar para lidar com ela. Quão longa e “intensa” é a escalada? Como aplicaremos nossa energia, para a usarmos eficientemente? Poderíamos encontrar mais informações sobre a via?

Vamos atingir os impasses que nos fazem duvidar da nossa capacidade de permanecer comprometidos. Esses impasses parecem insuperáveis se não pensamos neles de antemão. Talvez podemos ficar sem energia, ou combustível, porque não conseguimos identificar possíveis posições de descanso ou usar nossos recursos de forma eficiente? Talvez surjam duvidas porque não estamos familiarizados com o tipo de risco em que estamos? Nós já sabemos como lidar com dúvidas se esclarecermos se é um risco de não-queda ou sim-queda.

As ideias brilhantes são ótimas, mas devem ser realizadas com um processo de pensamento completo. Fazer isso evita com que, a dois movimentos de nosso objetivo, quebremos e levemos uma queda, ou que falhemos estando a duas cordadas abaixo do cume de uma bela via nova na face leste do Cloud Peak.

Dica pratica: Olhando e pensando

Pensar de forma incompleta pode te deixar em apuros. Faça um processo completo e minucioso de pensamento durante sua preparação para um risco. Em pontos de descanso:

  1. Olhe para cima para identificar o fim do risco. Onde fica o próximo ponto de descanso com proteção?
  2. Olhe para baixo para determinar as consequências da queda. É um risco em uma zona de não-queda ou sim-queda?
  3. Olhe novamente para cima para desenvolver seu plano. O que você pode fazer para chegar no fim do risco e diminuir as chances de cair?

Quando se comprometer, escute as dúvidas se estiver em uma zona de não-queda, mas não escute se estiver em uma zona de sim-queda.

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O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em : http://www.companhiadaescalada.com.br/

Tradução do original em inglês : Gabriel Veloso

Sobre o Autor

Arno Ilgner

Arno Ilgner

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

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