Treinamento mental para escalada: Conheça 5 atitudes que todo escalador deveria fazer

A primeira sensação que uma pessoa leiga tem quando chega a algum lugar de escalada, e observa uma pessoa mais experiente escalar, acredita que grande parte do que está vendo é dependente de força física. Na verdade o físico de um escalador possui uma porcentagem significativa no seu desempenho, mas não tão grande quanto parece. Por mais preparado uma pessoa possa estar para escalar, se ele estiver debilitado mentalmente, muito provavelmente irá fracassar em algum projeto ou campeonato.

Pergunte a vários escaladores qual é o segredo e grande parte destes irão responder que na verdade é um equilíbrio entre capacidades físicas (alongamento, força física, flexibilidade, etc) e mentais. O jornalista esportivo Nelson Rodrigues afirmava que quando um atleta estava sem confiança, engasgava até quando bebia água. Um atleta sem confiança é como um automóvel de alta potência com o câmbio de marchas travado na primeira marcha. Ou seja, há potência, mas não consegue ser utilizada por algum motivo.

No universo do esporte existem uma literatura vasta e ampla. Aqui mesmo na Revista Blog de Escalada existem nada menos do que quatro livros (Alles Onder Controle, Actitud, Rock Warrior´s Way e Training for Climbing) que abordam o assunto de preparação mental para escaladores. Se qualquer pessoa deseja aprofundar no tema de treinamento mental, uma boa sugestão é que leia com atenção cada um dos livros.

Atitude 1 – Não focar somente no resultado

Foto: Blake McCord – https://www.mountainproject.com/

Que atire a primeira pedra o escalador que não passou uma fase de busca desenfreada pelo grau. Há, entretanto, pessoas que ficam presas nesta fase por toda a vida, ficando sempre nos mesmos lugares e apenas decorar vias de forma coreografada para disfarçar o seu despreparo mental. Cada escalador deve se perguntar sempre: você quer escalar um grau mais alto, ou escalar melhor?

Obviamente que todo escalador, especialmente os boulderistas e esportivos, busca sempre a cadena catártica. Mas antes de pensar somente nisso, deve pensar qual o sentido a escalada possui a ele. A escalada está sendo gratificante, ou está sendo fonte de frustração ou ferramenta de humilhação a ela ou aos outros?

O esporte, qualquer modalidade, é muito mais do que somente projetar as frustrações pessoais. O ideal é saber que o resultado é fruto de uma consequência do esforço e amadurecimento do atleta. O escalador que se dedica a decorar movimentos, como um dançarino decora a coreografia, muito provavelmente não tem boa preparação mental. Exacerbar frustração, sentindo-se infeliz por não conseguir um resultado, sem sequer aprender nada no dia de escalada, é uma atitude que deve ser evitada sempre.

Atitude 2 – Concentração

Foto: Three Peak Films / The Circuit Climbing | http://threepeakfilms.com/

Possuir foco de atenção no que está fazendo, esquecendo tudo o que acontece ao seu redor é uma tarefa difícil. Muitos se distraem com pouca coisa, descontrolam a respiração e, claro, com as conversas paralelas. Por mais difícil que seja, é importante não concentrar nas quedas, mas no que está fazendo. Muitas vezes por falta de concentração, escaladores esquecem de verificar agarras, usam mal os pés e, principalmente, deixam de traçar as melhores estratégias para chegar a um lugar mais seguro ou mesmo o fim da via.

Um bom recurso que facilita a concentração é praticar meditação por aproximadamente 20 minutos por dia. A meditação aprende a controlar os devaneios que a mente sempre proporciona. Uma outra técnica é ler livros. Quanto maior o número de livros lidos, maior será o poder de concentração na tarefa a ser executada.

Atitude 3 – Leitura da via

 

No momento de escalar uma via, primeiramente todo escalador deve conferir os pontos os quais irá passar. Depois disso, para quem sente muito medo, é ir desvendando o caminho de proteção em proteção, concentrando em resolver cada trecho de uma vez. No momento que estiver protegido, e importante respirar e retomar a lucidez e calma, para novamente ir traçando a estratégia.

Um dos segredos mais utilizados por escaladores mais experientes é utilizar todos os descansos para reler todo o percurso enquanto se recupera fisicamente. Primeiro procure por posicionamento dos pés e, posteriormente, procure pelas melhores mãos. Esta é outra estratégia que facilita para não deixar a determinação baixar e o pânico tomar conta.

Atitude 4 – Análise de risco

Análise de risco consiste na verificação dos pontos críticos que possam vir a apresentar não conformidade durante a execução de determinado projeto ou atividade. Ou seja, avalie se um trecho é realmente exposto ou se está devidamente protegido. Procure nesta análise utilizar toda a sua razão e racionalidade. Quanto mais lúcido estiver o escalador, melhor são os resultados obtidos. Neste momento procure confiar em você mesmo, deixando para que coloque à prova as horas de treinamento de sua técnica.

Antes de ler a via, procure analisar o perigo que uma eventual queda pode resultar. Localize platôs, arestas e árvores que possam machuca-lo em ma eventual queda.

Atitude 5 – Procure diversidade

Quanto mais uma pessoa escalar vias diferentes das que está acostumado, melhor para que seu psicológico se fortaleça. Se você conhece alguém que insiste em somente escalar as mesmas vias, no mesmo lugar, sem sequer experimentar outro estilo, ou mesmo outro tipo de rocha, muito provavelmente conhece alguém com trabalho mental deficitário. Esta mesma pessoa está com medo de sair da zona de conforto.

Por este motivo, procure conhecer todos os lugares de escalada próximos a você e, caso seja possível, de tipos de rocha e estilos diferentes. Este tipo de reinvenção fará com que procure realizar cada item de preparação psicológica com mais atenção. Conhecendo outras áreas de escalada é importante também aprender que o mundo não é somente aquele que existe dentro de sua bolha social, mas é algo muito maior e complexo. Além de evoluir sua preparação mental, técnica de escalada, socialmente também irá amadurecer como pessoa.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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