Dia 11 no Tour du Mont Blanc: De Refuge La Flegere (1.875 m) a Les Houches (1.007 m)

Último dia!

Era esse o pensamento que eu tinha enquanto ia dormir e o mesmo que estava em minha mente enquanto eu acordava. Fiz o meu roteiro tradicional das manhãs com café da manhã, mochila, etc. Me preparei para sair bem cedo, porque o último dia é bastante pesado tanto com subidas como descidas.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

A manhã começava fria como na maior parte dos dias, mas a vista ao sair do refúgio prometia um dia bonito ou, ao menos, melhor que o anterior. Mesmo com a presença de algumas nuvens, ainda era possível ver o céu azul e o cume do Mont Blanc. Quer dia mais especial que finalmente já começar vendo o Mont Blanc? Realmente um turbilhão de emoções.

Comecei o dia caminhando com a Lannie já que a Danielle havia ficado lá no refúgio junto do Lac Blanc e era uma parte relativamente fácil. Bastante verde, montanhas próximas na vista e praticamente plano. Alguns minutos depois cruzamos com o meu trio favorito de “senhorzinhos” franceses e fiz questão neste momento de tirar uma foto. Eles iriam descer direto para Chamonix e este seria o último momento que eu iria vê-los.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Neste caminho, nos estamos margeando a montanha sem chegar exatamente em sua crista e são inúmeras possibilidades de trilhas que levam para baixo para já chegar na cidade de Chamonix. Foi neste ponto que o clima começou a mudar. Aquelas lindas nuvens que faziam desenhos no céu aumentaram e se juntaram transformando em uma completa neblina como no dia anterior. Novamente a famosa vista das montanhas desaparecia. A expectativa da vista deste dia era muito grande, mas mais uma vez seguiríamos sem ela. Como o sol brilhava sobre as nuvens, às vezes éramos apresentadas com a vista da silhueta de uma montanha quando as nuvens ficavam menos concentradas. Mas era só.

Fomos seguindo nosso caminho pelas nuvens até que começou a subida de aproximadamente 500 metros até o Col du Brevent (2.368 m) que seria o último col de toda esta aventura. A subida era íngreme, mas os zigue-zagues ajudavam a ela não ficar tão pesada e no final começavam a aparecer algumas pedras tornando mais interessante. Porém, isso não compensou a frustração que houve ao chegar no col. Assim como quando cruzei a fronteira Ítalo-Suíça no Grand Col Ferret com a nevasca, as nuvens impediam a vista de qualquer um dos lados. Um pouco diferente desta vez, não atingimos o col vindo de um dos vales e cruzaríamos para o outro vale. Nós estávamos vindo já margeando a montanha pelo seu meio e neste ponto atingimos a sua crista.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Era por cima desta crista que continuaríamos a andar até atingir o cume do Brevent. Seria uma parte da trilha muito legal. Apesar do caminho bem marcado sem dificuldades de navegação, era tudo muito repleto de pedras até com pequenas montanhinhas de pedras. E a vontade de subir? Este também é um trecho que requer bastante atenção porque ao lado da trilha tem uma espécie de precipício. Não pudemos ver o sem fim pelas nuvens, mas seria um rolamento grande se alguém caísse. A trilha caminha um pouco ao lado da crista para, bem próximo do cume, voltar para a crista por vias “ferratas” com escadas de ferro como no dia anterior.

Logo que voltamos para a crista, a minha alma escaladora foi agraciada. Em um dos diversos paredões de rocha ali presentes havia um grupo de escalada praticando. Fiquei me perguntando se eu não deveria ter carregado a minha sapatilha (que estava em Les Houches) para escalar com eles… Ali já era possível ver o cume de Brevent (2.525 m) e alguns minutos depois chegamos à estação do bondinho que marcava o último cume e final da última subida de toda esta jornada somando 11.000 metros de aclive. Se fosse subir tudo de uma vez só seria mais alto que o Everest. O tempo continuava feio sem vista nenhuma e ali tinha um pedacinho da civilização que me broxaram no sentido de tirar a foto do saltito.

Aproveitamos a estrutura do restaurante do bondinho para fazer um almoço quentinho fechados das nuvens que estavam lá fora. Cruzamos com diversas pessoas que conhecemos pelo Tour du Mont Blanc e, inclusive, a Danielle apareceu. Foi um gostoso almoço de despedida já que diversas pessoas iriam terminar o Tour du Mont Blanc ali e já descer de bondinho para Chamonix. Eu terminaria a aventura como comecei: sozinha.

Diferente do dia anterior que o refugio estava a pouco tempo de distancia e as nuvens estavam se mexendo, dando a expectativa de que a vista fosse aparecer, hoje a descida seria muito longa com mais de 1.500 metros e as nuvens mantinham seu completo breu. Decidi então tomar o meu caminho da roça e comecei a seguir. Pouco tempo depois, logo à minha frente parecia aparecer algo. As nuvens estavam finalmente se movendo e finalmente o Mont Blanc reapareceu. Eu fiquei congelada de tão extasiada por aquela vista. Eu não tinha noção do quão próximo do Mont Blanc estava. Mesmo com Chamonix no vale entre nós dois. Era um dos momentos mais mágicos de toda essa aventura.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Essa era uma das combinações de cenas mais bonitas: cume branco, vale embaixo, nuvens dançando pela frente e isso tudo MUITO, mas MUITO próximo de mim. Apesar de eu já ter enrolado muito no almoço. Sentei para inspirar tudo que a vista me trazia. Em vez de diversas fotos, deixei a câmera sozinha ali do lado fazendo um timelapse. Alguns minutos depois eu ganhei companhias para dividir aquele momento: um rebanho com algumas ovelhas se aproximou e até fizeram participação especial no meu vídeo.

Eu queria ficar um bom tempo ali namorando aquela vista e absorvendo toda a energia especial, porém ainda faltava bastante de trilha e eu não queria chegar tarde em Les Houches, então tomei de volta o meu caminho. Ainda pelo alto da montanha, ele se tornava cada vez mais lindo com o Mont Blanc aparecendo e eu andando justamente em direção a ele. A princípio, a descida seguia pouco íngreme até que terminou a parte na crista e veio a ladeira. Era uma das descidas mais íngremes que eu já tinha estado. Mesmo em zigue-zague, o caminho era muito inclinado e exigia muito cuidado porque ao lado estava o precipício que levava direto à Chamonix.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Como eu rendo bem em descidas, eu estava seguindo bastante rápido até que comecei a ver pessoas diminuindo a velocidade e até paradas pela trilha. Aquele não era um espaço onde dava para parar e, uma parte de mim, ficou um pouco irritada já pensando naquelas pessoas atrapalhando meu caminho. Porém quando eu as alcancei, eu percebi o motivo que fez todas elas pararem: uma mulher havia se acidentado e estava sendo resgatada com um helicóptero. Eu nunca havia presenciado um resgate como esse e deixou meu coração um pouco apertado e angustiado, mas fez eu rever os riscos da trilha e andar mais devagar.

Este é um trecho com mais pessoas pela proximidade de Chamonix e a possibilidade de trilhas curtas de apenas um dia, mas seguindo o caminho do Tour du Mont Blanc em direção à Les Houches, foi se tornando mais espaçado o tempo que eu levava para cruzar com alguém. Quanto mais para baixo, mais fechada ia se tornando a trilha e as arvores iam fechando a vista. O Mont Blanc ia ficando para trás. O final da trilha realmente é fechado pelas arvores, muitas folhas no chão e vai se tornando, aos poucos, menos íngreme.

A sensação de que eu estava terminando era tão complexa que eu não conseguia nem entender o que eu estava sentindo. Eu apenas continuava andando tentando entender alguma parte daquela sensação que me transbordava. Eu ia conversando comigo mesma, tentando colocar em palavras, mas parecia em vão.

Finalmente, aquelas árvores se abrem e a saída da trilha deu direto em Les Houches (1.007m). Não sei se pela emoção do que estava, mas foi um dos raros trechos onde eu fui olhar no GPS. Talvez seguir para o Tour du Mont Blanc fosse mais fácil, mas o meu Tour terminava na verdade em uma casinha de janelas floridas. Segui o GPS até que cheguei na rua principal que eu havia passeado naquela primeira tarde pré-trilha e dali eu já sabia os caminhos dos meus últimos passos.

Os sentimentos foram tomando conta de mim quando eu avistei a tão sonhada casinha com flores nas janelas. Chegar ali de volta era um sentimento muito complexo porque diferente de um grande pico onde o auge é no cume ou em uma travessia que o êxtase é sair do outro lado, eu estava no mesmo lugar do marco zero. Percebi então que, depois de 180 km, o verdadeiro tour tinha sido feito dentro de mim mesma. Apesar de ter começado a jornada dizendo “vou sozinha”, no fundo, nunca estive sozinha.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

A minha própria companhia era tudo que eu precisava: fui eu mesma que consegui me manter motivada quando achava que não iria conseguir no primeiro dia. Dentro de mim estava cada risada em conjunto com as minhas brincadeiras com as vaquinhas. Ali já estava o grito de “é isso aí” quando eu conquistava uma parte difícil. Em meio a nevasca e todo medo que eu senti do desconhecido, dentro de mim mesma havia um abraço quentinho me fazendo acreditar que tudo daria certo. Essa jornada foi não tão solitária pelas pessoas que eu cruzei, mas pela Thaís-Pérola que eu pude encontrar em cada um dos cantos da minha mente, do meu coração e da minha alma.

Dentre diversas sensações positivas de ter completado e ter conseguido sempre seguir pela variante mais alta, havia uma sensação de despedida. Algo como uma falta ou ausência. Apesar de parecer que era a despedida do Tour du Mont Blanc que tinha sido tão presente na minha vida por quase um ano, mas era uma despedida de mim mesma. Aquela mulher que tinha pisado ali 10 dias antes, não era mais a que estava ali. Outra já ocupava o seu lugar e eu mal posso esperar por onde todas estas mulheres dentro de mim irão me levar.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias


10º dia em números (valores aproximados)

Distância total 17 km
Aclive 700 metros
Declive 1.570 metros
Cols 1 (Col du Brevet)
Variantes 0
Duração 9 horas (Paradas extras: almoço e fotos Mont Blanc)
Fronteiras 0
Cume 0
Variantes 0

Gastos

Descrição Valor
Sorvete
Hospedagem (Dormitório + Café da Manha + Jantar ) € 50,00
Almoço Brevent € 20,00
Café da Manhã
Vinho
Mousse de Chocolate extra
Total € 70,00
Total ACUMULADO € 916,00

Leia os relatos anteriores Tour du Mont Blanc aqui

  • Chegando no Tour du Mont Blanc: De cirurgia no joelho a Les Houches

Tradicional garota da cidade grande (São Paulo – SP) teve seu primeiro contato com trilhas em 2013 no Peru, mas só veio descobrir as belezas da sua vizinha Mantiqueira em 2015.

Apaixonou-se pelas montanhas e passou a se dedicar ao trekking e à escalada por diversos cantos do Brasil além de Peru, Chile, Venezuela, França, Itália e Suíça. Completou os 180 km do Tour du Mont Blanc sozinha após uma cirurgia no joelho.

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