Copa do Mundo de Escalada cria expectativa pessimista para sul-americanos na Olimpíada

A primeira etapa da copa do mundo de escalada terminou no último sábado tendo como vencedores o esloveno Jernej Kruder no masculino, e a japonesa Miho Nonaka no feminino. Porém muito além de mostrar os resultados, até certo ponto surpreendentes, a primeira etapa criou uma expetativa pessimista para escaladores sul-americanos.

De acordo com os critérios de vagas para as vagas de atletas para a Olimpíada de Tóquio 2020, todas as vagas já estariam preenchidas por atletas dos EUA, Canadá, Europa e Ásia. Nesta primeira etapa somente uma única atleta sul-americana participou: Valentina Aguado. A atleta argentina ficou em 63º. Atletas brasileiros optaram por não participar desta etapa, preparando-se para competições no Brasil.

Foto: IFSC/Eddie Fowke

Os melhores momentos da competição, que teve as semifinais e finais transmitidas por streaming, foi disponibilizado no final do dia de ontem pelo IFSC (confira no topo do artigo).

O técnico da seleção alemã fez um estudo detalhado sobre o rendimento de atletas que fez a diferença. Udo Neumann publicou toda a análise em vídeo completo (confira no final do artigo).

Masculino

Foto: IFSC/Eddie Fowke

O nível da competição da primeira etapa da copa do mundo foi muito alto, tendo alternância constante no placar parcial durante todo o final de semana. Somente as semifinais e finais são transmitidas pelo IFSC.

O destaque ficou para a seleção japonesa que conseguiu colocar nada menos do que cinco atletas entre os 10 primeiros colocados. Ou seja, dos 10 melhores escaladores da primeira etapa de boulder do IFSC, 50% eram japoneses. Atleta de países com mais tradição no esporte como França, apenas um atleta se classificou para a final. Já Espanha, Alemanha, Inglaterra e EUA não figuraram entre os 10 primeiros. Lembrando que pelo regulamento do IFSC, apenas os seis primeiros se classificam para a final.

Para se ter uma ideia do nível dos atletas, a improvisação do atleta Jernej Kruder rendeu o vídeo mais compartilhado em redes sociais desde o dia de ontem. Kruder literalmente flutuou entre as agarras fazendo movimentos cinematográficos e que pareciam irreais. Veja abaixo o vídeo:

No masculino (veja o resultado completo aqui) os 10 melhores atletas foram:

  1. Jernej Kruder – Eslovênia
  2. Tomoa Narasaki – Japão
  3. Aleksei Rubtsov – Rússia
  4. Jakob Schubert – Áustria
  5. Tomoaki Takata – Japão
  6. Jongwon Chon – Coreia do Sul
  7. Manuel Cornu – França
  8. Rei Sugimoto – Japão
  9. Yuji Fujiwaki – Japão
  10. Yoshiyuki Ogata – Japão

Feminino

Foto: IFSC/Eddie Fowke

Se no masculino os atletas tinham um mínimo de espaço para erros mínimos, no feminino já não foi assim. Ou a atleta obtinha um rendimento perfeito, ou abria espaço para uma outra competidora ultrapassar.

A atleta Miho Nonaka confirmou as expectativas de especialistas e fez uma final impecável: 4 tops em quatro tentativas. A segunda colocada Janja Garnbret também teve o mesmo rendimento e o resultado somente desempatou pelos resultados obtidos na semifinal.

Diferentemente do que aconteceu no masculino, as japonesas não dominaram os 10 primeiros lugares. No feminino (veja o resultado completo aqui) as 10 melhores atletas foram:

  1. Miho Nonaka – Japão
  2. Janja Garnbret – Eslovênia
  3. Akiyo Noguchi – Japão
  4. Sandra Lettner – Áustria
  5. Fanny Gibert – França
  6. Shauna Coxsey – Inglaterra
  7. Jessica Piltz – Áustria
  8. Katjia Kadic – Eslovênia
  9. Leah Crane – Inglaterra
  10. Chlore Caulier – Bélgica

Expectativa pessimista para sul-americanos

Foto: IFSC/Eddie Fowke

De acordo com um documento do IFSC, que abordava sobre como serão distribuídas as vagas para a Olimpíada (e que vazou para a imprensa), o prognóstico de vagas para atletas sul-americanos não é dos mais otimistas.

De acordo com o documento um todo de 20 atletas masculinos e 20 atletas femininos irão participar. Duas vagas (1 masculino e 1 feminino) já estão garantidas para o país sede. Haverá também duas vagas, uma para cada categoria, para atletas que fizeram parte do Tripartite Commission, que designa vagas para atletas a países com menos de oito atletas em categorias individuais ou disciplinas nas últimas duas edições dos Jogos Olímpicos.

Está estabelecido também no documento que somente haverá no máximo dois atletas por país.

Foto: IFSC/Eddie Fowke

Os eventos qualificativos válidos serão

  • 6 Atletas melhor ranqueados no Campeonato Mundial de Escalada que será realizado em Tóquio 2019
  • Melhor atleta colocado na Copa do Mundo de Escalada de 2019 (após realizada todas as etapas)
  • 6 Atletas melhor colocados no evento no qual os 20 melhores colocados na Copa do Mundo de Escalada irão participar em 2019
  • 5 Atletas campeões de cada continente de 2020

Levando em conta o primeiro critério (6 ranqueados no Campeonato Mundial de Escalada 2019) os países que preencheriam esta cota seriam:

  • Feminino: Eslovênia (2º), Áustria (4º), França (5º), Inglaterra (6º), Bélgica (10º) e Coreia do Sul (12º)
  • Masculino: Eslovênia (1º), Rússia (3º), Áustria (4º), Coreia do Sul (6º), França (7º) e Letônia (11º)

Desta maneira existiriam outras oportunidades a países com maior tradição do esporte, mas que não foi feliz na copa do mundo. Países que chegaram à semifinal desta primeira etapa, como Espanha, França, Itália, Rússia, Ucrânia, República Tcheca, Alemanha, Suíça, Holanda, Noruega, Croácia, EUA e Canadá lutariam, em teoria, para as outras 14 vagas disponíveis. O Brasil não chega a uma semifinal da copa do mundo de escalada, assim como o campeonato mundial, há mais de dez anos. Para sonhar chegar à olimpíada, um atleta sul-americano deve chegar, no mínimo, às semifinais destes torneios.

Foto: IFSC/Eddie Fowke

Seguindo este raciocínio, a única esperança para que qualquer brasileiro possa sonhar é tornar-se campeão do continente. Portanto somente o campeão sul-americano irá para a olimpíada de Tóquio 2020. A partir dos resultados apresentados no Master de Boulder do Chile, em março último, apenas um atleta brasileiro ficou entre os finalistas, a paranaense Camina Macedo.

Camila Macedo está treinando na capital paranaense, com staff multidisciplinar, mas terá de superar atletas como Valentina Aguado e Alejandra Contreras. Atualmente ambas são consideradas as escaladoras mais fortes em competições da atualidade.

Aguado hoje treina em tempo integral na Áustria e participará de todas as etapas da Copa do Mundo de Escalada. Contreras possui uma equipe de treinamento atualizada e que constantemente realiza simpósios e cursos com especialistas em treinamento.

Fatos que decidiram a competição

O técnico da seleção alemã de escalada Udo Neumann publicou em seu canal de vídeos, uma análise completa do rendimento dos atletas. Observador experiente do esporte, Neumann destacou alguns itens que servem de orientação a quem tem o interesse de treinar mais intensamente.

A primeira observação é de que as habilidades mais clássicas (old school skills) devem ser lapidadas pelos escaladores, para que tenham mais paciência durante as provas e, se possível, fazer um movimento extra. O técnico aproveitou para destacar também que leitura e equilíbrio fizeram a diferença. Escaladores que priorizarem somente a força bruta e movimentos dinâmicos desnecessários, tendem a ficar nas posições mais inferiores.

Neumann também destaca a importância da leitura das vias durante a escalada, não somente antes de começar. Posicionamento, uma habilidade que somente em treinamento específico é aprimorado, é a chave para galgar posições mais altas na disputa.

Udo aproveita para deixar claro um de seus conceitos mais famosos: não existe uma única solução para tudo. Portanto, como pode ser observado no vídeo, na escalada ter consciência do próprio corpo e adaptá-lo às suas habilidades atléticas, é fundamental para que consiga destacar-se no campeonato. Desta maneira, ter repertório de movimentos é muito mais importante que possuir uma força sobre-humana.

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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