Como treinar para obter progresso – Quando a medida quantitativa não está em nosso controle

Na lição passada nós aprendemos que podemos medir o progresso quantitativamente pelas metas que atingimos, tais como escalar um grau mais difícil, conseguir uma cadena ou realizar a sequência de movimentos do crux de um IXc. Medir o progresso quantitativo é obvio: nós sabemos se progredimos se atingimos a meta.

Também aprendemos que podemos medir o progresso qualitativamente ao melhorar os processos, tais como escalar de maneira eficiente ou mudando nosso pensamento. Medir o progresso qualitativo é mais sutil. Por exemplo: escalamos em um ritmo determinado entre os pontos de parada em uma via. Se escalamos lento demais, podemos esgotar nossas forças e cair; se escalamos muito rápido, podemos cometer um erro, como posicionar um pé no lugar errado, e cair. Medimos o progresso com processos refinando o melhor ritmo para escalar uma parte específica da rocha que se adéqua às nossas habilidades e ao que ela exige.

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O progresso quantitativo não está em nosso controle. Conseguir uma cadena existe no futuro; não conseguimos controlar o futuro. O progresso qualitativo, porém, está dentro do nosso domínio. Os processos, como refinar o ritmo da escalada em um trecho, existe no momento presente; conseguimos controlar o que fazemos no presente. É importante entender esta distinção para que nossa atenção permaneça focada no que podemos controlar.

A motivação é crucial; ela conduz o nosso foco. Se estamos motivados principalmente por ter um progresso quantitativo, então focaremos nossa atenção na meta futura e nos frustraremos quando não a atingirmos tão rapidamente quanto esperamos. Se estamos motivados primariamente por fazer progresso qualitativo, então focaremos nossa atenção no processo presente e permaneceremos curiosos sobre o que precisamos aprender para melhorar.

A seguir, identificamos os processos nos quais focamos nossa atenção. Existem processos de pensar que fazemos com a mente e processos de fazer que realizamos com o corpo. Também há um processo para observar nossa atenção. Existem sete processos fundamentais. Todos os outros processos são apenas variações destes sete.

  • Dois processos da mente : Pensar para coletar informação; tomada de decisão
  • Três processos do corpo : Mover-se; cair; descansar
  • Um processo de observação : Estabelecer intenções e observar quando nossa atenção se distrai da tarefa.

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Nosso treino deveria incluir estes processos para podermos ter progresso qualitativo com eles. Nós melhoramos a qualidade destes processos focando nossa atenção por completo neles. É mais difícil usar a mente para pensar e tomar decisões quando estamos sob estresse, portanto a qualidade do uso de nossa atenção diminui. É mais difícil usar o corpo para movimentar-se, cair e descansar quando estamos sob estresse, por isso a qualidade de nossa atenção diminui. Portanto, estar atento à qualidade de como treinamos, especialmente quando o estresse aumenta, é extremamente importante.

O treino qualitativo requer que desenvolvamos a habilidade de observar o que estamos fazendo, de momento em momento. Podemos relaxar em um descanso difícil em um momento, e no seguinte ficar tensos apertando a agarra com força demais ou flexionando o braço. Podemos nos comprometer a escalar eficientemente e sucumbir à pressa, criando uma movimentação ineficaz, quando ficamos sobrecarregados pelo estresse. Observar quando o estresse faz com que nossa atenção se distraia do ato de descansar ou movimentar-se efetivamente nos dá a opção de redirecioná-la para a tarefa.

O treino qualitativo começa com nossa intenção. Por exemplo, nós estabelecemos uma intenção de descansar. Escolhemos focar nossa atenção no processo de relaxar constantemente nossa pegada. Este não é um evento único; é um processo contínuo. Relaxamos nossa pegada, a cada momento, conforme o estresse aumenta. Também estabelecemos uma intenção de escalar. Escolhemos focar nossa atenção no processo de movimentar-se eficientemente. Este também não é um evento único; é um processo contínuo. Teremos a tendência de nos apressarmos para acabar com o estresse, o que cria um uso ineficaz de nossa energia. Percebemos essa tendência de apressar, momento a momento, conforme o estresse aumenta. Estabelecer intenções nos ajuda a agir conscientemente para direcionar como escolhemos usar nossa atenção.

Foto : Rafael Barbosa

Foto : Rafael Barbosa

Estabelecemos uma intenção geral para ajudar a alinhar nossa motivação: permanecermos curiosos para os processos de melhora. Se ficamos curiosos, estaremos interessados em como mudar a forma que nossa mente pensa quando estamos coletando informação e tomando decisões. Se ficamos curiosos, estaremos interessados em como comprometer o corpo para descansar melhor, mover-se melhor e cair melhor. A curiosidade nos ajuda a observar o corpo e a mente, e muda a qualidade da nossa experiência geral na escalada.

Mudamos nossa motivação para estarmos motivados principalmente por processos nos quais podemos nos comprometer. Fazer isso garante que estaremos focando nossa atenção no que podemos controlar.

Estabelecemos uma intenção de permanecer curiosos sobre a qualidade de como realizamos cada processo. Finalmente, nós observamos quando nossa atenção se distrai na frustração e a redirecionamos para permanecermos curiosos. Ao treinar desta forma, nós controlamos nossa atenção, nossa escalada e nossas vidas.

Dica Prática: Treine Processos

Estruture seu treino de acordo com sua intenção. Escolha focar sua atenção nos processos apropriados, dependendo de onde você estiver (ponto de descanso ou escalando entre eles). Todos estes estão explicados mais detalhadamente no livro Lições Expressas.

Pontos de parada: Foque sua atenção em descansar e pensar para coletar informação. Depois tome uma decisão. Perceba se sua atenção é distraída pelo estresse, te fazendo exagerar na força da pegada, e redirecione-a para o relaxamento da pegada.

Escalar entre os pontos de parada: Foque sua atenção em uma movimentação contínua e eficiente. Perceba se sua atenção se distrai pela escalada estressante, te fazendo apressar, e redirecione-a para uma movimentação contínua e eficiente.

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O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em : http://www.companhiadaescalada.com.br/

Tradução do original em inglês : Gabriel Veloso

Sobre o Autor

Arno Ilgner

Arno Ilgner

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

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