Livro da semana: “Paul Preuss: Lord of the Abyss” – David Smart

Por ser a escalada uma atividade relativamente nova, se comparada com toda a história do montanhismo, muitos personagens ganharam destaques ao longo do tempo. Por outro lado, outros acabaram não recebendo o devido destaque pelo seu “conjunto da obra”, nem pela importância do seu legado, por algum motivo. Um personagem que pouco é citado em literatura especializada, sobretudo no Brasil e América do Sul, é o austríaco Paul Preuss (escrito Preuß em alemão e pronunciado Próice), um montanhista que obteve reconhecimento na Europa por suas ousadas ascensões em solitário e por defender uma prática de escalada qual ele mesmo definiu como “eticamente pura”.

Procurando resgatar a história do esporte, o diretor editorial da revista canadense Gripped David Smart, vasculhou a biografia de Preuss para publicar sua mais recente obra “Paul Preuss: Lord of the Abyss“. A atividade de Preuss na escalada e no montanhismo foi em finais do século XIX e início do século XX, o que demandou bastante pesquisa e um trabalho minucioso de investigação. Smart é autor de cinco guias de escalada, além de vários artigos da Canadian Alpine Journal e da revista norte-americana Climbing.

No livro de David Smart, há diversas passagens interessantes, além de relevantes, de Paul Preuss. O montanhista é biografado desde seus estudos em fisiologia das plantas pela Universidade de Viena e Universidade de Munique, até sua morte prematura em 1913 aos 27 anos de idade. O escalador faleceu em uma tentativa de fazer a primeira ascensão do cume norte, em solitário, da Mandlkogel (2.279 m), quando mais de 300 metros. Seu corpo foi encontrado uma semana e meia depois, enterrado sob um metro de neve. Dizia-se que Paul Preuss era amigável e de boa índole, e um companheiro fiel nas circunstâncias mais exigentes.

Paul Preuss publicou vários artigos sobre escalada um ano antes de sua morte. Em um desses, intitulado “Künstliche Hilfsmittel auf Hochturen“, o montanhista delineia a filosofia da escalada em seis “teoremas”, começando com a proposição de que um escalador deve apenas tentar escaladas que estejam abaixo do seu nível de competência. Partindo deste princípio, como se fosse um marco zero, são apresentadas versões parafraseadas de suas regras:

  1. O escalador deve ter mais habilidades do que às exigidas nas demandas da escalada proposta
  2. Deve-se escalar apenas as vias em que se pode descer com segurança
  3. Os auxílios artificiais são justificados apenas em situações perigosas e repentinas
  4. Pitons devem ser usados ​​apenas para emergências, nunca como base para montanhismo
  5. A corda deve ser usada para facilitar uma escalada, mas nunca como o único meio de possibilitar a subida
  6. O princípio da segurança deriva de uma estimativa razoável do que é capaz, e não do uso de auxílios artificiais

Esta foi, sem dúvida, a maior contribuição de Paul Preuss para o mundo da escalada. Chamada de “Controvérsia do Piton”, é considerada o princípio básico da escalada livre. Sem nenhum exagero, representou em seu texto o núcleo ético total da escalada. Paul Preuss não permitia pitons, cordas penduradas previamente ou rapel e, inclusive, até olhava desconfiado para uma proteção limpa.

O autor David Smart quando perguntado dos motivos que fizeram Paul Preuss virar tema de livro, a resposta é até bem simples: “não há nenhum livro sobre o escalador austríaco em inglês”. Além disso, muitos montanhistas da primeira metade do século XX, incluindo George Mallory e Emilio Comici, o consideravam o maior montanhista que já existiu. As pessoas o amavam, mesmo quando discordavam dele, por ser motivado e comprometido.

Por possuir uma personalidade muito complexa, representa um desafio fascinante para qualquer autor. Paul Preuss não era de uma família de montanhistas e, de certa forma, foi autodidata. Quando criança, ele teve poliomielite e ficou temporariamente paralisado. Cresceu em um ambiente de aprendizado e cultura privilegiado, tendo conhecido os músicos Brahms e Schumann, além de ter escalado com os Freud. Preuss ansiava pela respeitabilidade burguesa, por isso fez questão de divulgar a respeitabilidade da atividade diante do público leigo.

Para a divulgação, Paul Preuss tornou-se um dos primeiros montanhistas a ganhar a vida dando palestras e apresentações. Diferentemente dos apresentadores de TV da atualidade, Preuss falava de todas as suas conquistas conseguidas por mérito próprio e sem o auxílio de guias. A ética no montanhismo e a realidade sem floreios marcavam suas apresentações. Sua vida pessoal também foi destacada no livro, especialmente tocando no assunto de que Preuss cresceu judeu e se converteu ao cristianismo.

Por ser judeu, muitas vezes foi deixado de fora das histórias de montanhismo entre as Guerras Mundiais. Mais tarde, porque buscava a ética da escalada de maneira inabalável, foi evitado por escritores. Emmy Eisenberg-Brioschi, namorada de Paul Preuss à época quando faleceu, entregou a maior parte de suas correspondências e livros de montanhismo ao historiador italiano Severino Casara.

Casara era um jornalista de profissão e especializado nos Alpes, onde emergiu cedo como alpinista e autor. Em 1947, sem conhecimento prévio, ele fez “Il richiamo dell’Alpe spledente“, seguido de mais dois filmes de montanha até 1957 . Além disso, criou um grande número de curtas-metragens sobre o assunto, que ele percebeu com considerável esforço técnico.

 

Severino Casara escreveu um livro extenso sobre Preuss, mas não muito objetivo. A intenção do autor canadense com “Paul Preuss: Lord of the Abyss” é justamente resgatar a objetividade e profundidade de Paul Preuss mais de 100 anos depois de sua morte.

David Smart abordou também pontos mais objetivos, especialmente no contexto da escalada, esqui, religião, antissemitismo e outros assuntos relevantes nos lugares onde Paul Preuss morava. Muito mais que apenas uma biografia sobre um escalador, o livro é um retrato histórico de uma época em que a escalada e o montanhismo estava sendo moldado ao que conhecemos hoje.

Ficha técnica

  • Título: Paul Preuss: Lord of the Abyss: Life and Death at the Birth of Free-Climbing
  • Autor: David Smart
  • Edição:
  • Ano: 2019
  • Número de páginas: 248
  • Editora: Rocky Mountain Books

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