O que é preciso para escalar o Everest ?

O Everest nunca sai das principais pautas de alta montanha na mídia, muito pelo contrário: ele é um assunto cada vez mais polêmico.

Duas temporadas dificílimas seguidas por conta de desastres naturais, um filme sobre uma das maiores tragédias na montanha, e a crescente pressão por mais ética na indústria do montanhismo comercial colocam o Everest e o governo do Nepal de novo na pauta da mídia outdoor.

Cascata de Gelo | Foto : Sper Radson

Cascata de Gelo | Foto : SPer Radson

Isso resultou numa pequena reação do governo nepalês de agora exigir um currículo mínimo para emitir permissos para escalar a montanha mais alta do mundo.

Mas será que colocar idade mínima e algumas ascensões em montanhas menores é suficiente para diminuir os riscos para montanhistas e sherpas?

E qual seria efetivamente um bom currículo que garantiria uma escalada segura, dentro das variáveis controláveis, no Everest?

Adaptação à Altitude Extrema

O fato mais indiscutível e que funciona como “note de corte” é sem dúvida a adaptação à altitude.

Tem gente que vai bem só até 5.500 m, tem gente que vai bem em 8.000 sem oxigênio, tem gente que vence triatlo e não consegue passar dos 4.000 m.

Neste quesito não adianta tentar trapacear quando se trata de ascensões com ou sem oxigênio: você pode ser o mais forte maratonista ou o mais rico dos montanhistas, se seu corpo não funciona bem em altitude extrema, não tem dinheiro nem treino que compre o cume.

Condicionamento Físico

Ainda que só sobe quem se adapta bem à altura, é importantíssimo estar com condicionamento físico, principalmente o aeróbico, na melhor forma possível.

A altitude extrema desgasta o corpo, e a recuperação acima dos 5.000 m é lenta e vai se tornando nula quanto mais alto se sobe.

A partir de certa altura, o corpo deixa de se recuperar, e gasta energia demais até para digerir a comida.

Ou seja, é preciso estar preparado para tolerar a decadência física por um longo período de tempo, e ainda assim ter forças para se equipar apropriadamente, subir de acampamento em acampamento, e estar em sã consciência nos momentos de cansaço para tomar decisões que muitas vezes podem significar voltar pro acampamento base ou ficar pela montanha.

Maturidade Emocional

Levando em conta que seu corpo está preparado para tolerar as muitas semanas de desgaste, cansaço e frio na montanha, é preciso também estar com a cabeça preparada para eventuais desistências.

Muita gente vai ao Everest hoje em dia já com planos de capitalizar a ascensão através de palestras, livros e auto promoção.

Uma falha em chegar ao cume nesses casos significa um investimento de dinheiro e tempo perdido. Montanhismo não é isso, mas infelizmente esse tipo de atitude prevalece em expedições comerciais no Nepal, e é importante não se deixar levar pelo que os outros estão fazendo.

Cascata de Gelo do Khumbu | Foto : SPer Radson

Cascata de Gelo do Khumbu | Foto : SPer Radson

Modéstia, humildade e um bom auto conhecimento são outros fatores que podem fazer você voltar para casa ou não.

Se o corpo não aguenta mais, se já passou a hora de corte para chegar no cume, se existe gargalo, e se qualquer situação apresenta o mínimo de perigo, lembre-se: você não está no parque, onde chega ambulância, funciona celular e provavelmente tem um médico por perto.

Você estará numa montanha de 8.000 m, onde todas as outras pessoas estarão tão desgastadas fisicamente quanto você, onde não chega helicóptero, e onde verdade seja dita, na hora que der problema, é cada um por si – com ou sem sherpa.

Experiência em Escalada Técnica

Congestionamento na parte alta do Hillary Step | Foto : SPer Radson

Congestionamento na parte alta do Hillary Step | Foto : SPer Radson

Já disseram por aí : Everest não é o local para aprender a usar jumar, colocar crampom, ou aprender a escalar terceiro grau.

Pior ainda, em altura extrema tudo isso fica muito mais difícil e lento.

Ainda que existam as cordas fixas e os sherpas para auxiliar nas tarefas básicas, o ambiente é extremo e as chances das coisas darem errado são sempre maiores que as chances das coisas darem certo.

É imprescindível saber subir e descer da montanha por conta própria em caso de algum cenário extremo.

Achar que um sherpa vai resolver todos os problemas é uma atitude de extrema irresponsabilidade com os sherpas e com outros escaladores.

O Everest não é uma montanha técnica, mas isso não exclui ter que saber fazer auto resgate, rapel, jumarear, vestir-se e alimentar-se bem, hidratar-se e outras coisas básicas de escalada em alta montanha.

Qual a experiência mínima para ir ao Everest ?

Essa resposta depende única e exclusivamente de uma coisa: a sua ética de montanha.

A maior parte das grandes empresas comerciais por exemplo, pedem ao menos um cume em algum outro 8.000 m.

Algumas pedem somente alguma ascensão acima de 6.000 m.

As empresas locais de logística normalmente sequer pedem qualquer experiência, já que seus serviços se limitam ao campo base.

Hillary Step | Foto : SPer Radson

Hillary Step | Foto : SPer Radson

Essa experiência no entanto não quer dizer que a pessoa esteja preparada para escalar o Everest. E é indiscutível que essas regras são feitas para o bom funcionamento de uma indústria, o que não é o mesmo que dizer que será para o bom funcionamento da comunidade de montanhistas e menos ainda para a etnia dos sherpas.

Segunda as novas regras do governo nepalês, pessoas muito jovens ou idosas, ou com alguma deficiência física estarão proibidas de escalar, além de ser necessário ter alguma ascensão acima de 6.500 m.

Para um governo que recebe rios de dinheiro com os permissos de escalada, e está fortemente à mercê de empresas que se responsabilizam por 90% da escalada de um cliente (exceto colocar um pé na frente do outro), essas regras funcionam como boa politicagem frente à enxurrada de críticas após o desastre de 2014.

De maneira alguma, no entanto, essas regras aliviam o peso do termo “suicídio legalizado” recentemente cunhado pela imprensa para os “turistas” que tentam escalar a montanha com quase nenhuma experiência.

Exemplos Práticos

Sem entrar demasiado na questão ética, darei abaixo minha opinião de uma boa progressão e bom currículo para se tentar o Everest com preparo e consciência limpa.

Apesar da minha ética ao escalar ser bastante purista, vou deixar aqui minha opinião no caso de alguém optar por uma expedição comercial onde impere bom senso, com boa liderança, e onde os montanhistas sejam tratados como equipe e não como turistas de luxo, e vice e versa.

  • Segundo, aprender a se virar sozinho na montanha, em diversas altitudes. Ajudar nos porteios, na montagem e desmontagem de acampamento, na hora de fazer a comida, na orientação, escolha das melhores horas para sair, horas limite para chegar. Ainda que numa expedição a uma montanha de 8.000 m não seja necessário fazer tudo isso, se você souber como e quando fazê-lo vai estar mais habituado à vida de expedição e portanto sem surpresas, e sem falsas expectativas.
  • Primeiro, testar por alguns anos sua adaptação à altitude, aumentando aos poucos a altura e entendendo se seu corpo leva mais ou menos tempo para se aclimatar, se você precisa de mais ou menos litros diários de água, quais sintomas são aceitáveis e até qual altura.
  • Depois de estar confortável em altitudes de menos de 8.000 m, talvez tenha chegado a hora de tentar um 8.000 m “fácil”. É importante vivenciar uma expedição de alguns meses: desde o tédio do campo base em dias de tormenta, até os vários e maçantes ciclos de aclimatação, e longas esperas por janelas de bom clima. Esse tipo de vivência só se tem em expedições longas, e chegar ao Everest já com uma boa ideia do que se vai passar com certeza vai facilitar o escalada, ao invés de tornar tudo novidade. Ainda melhor que tentar um 8.000 m, é colocar alguns no currículo.
  • Saber utilizar o equipamento, dar nós básicos, fazer o auto resgate, improvisar situações, e noções básicas de escaladas em geral. Saber montar uma ancoragem, ou um rapel improvisado podem fazer diferenças enormes.
  • Estudar um pouco de medicina de altitude, entender plenamente os efeitos que ela tem no corpo. Vivenciar esses efeitos em montanhas menores e saber contorná-los.
  • Saber alimentar-se, saber quando é hora de forçar-se a comer.
  • Saber quando o corpo está no limite, saber quando é hora de desistir.
Avalanche no Campo Base | Foto : SPer Drazil

Avalanche no Campo Base | Foto : SPer Drazil

Se for dar exemplos concretos para um bom currículo, indicaria quase tudo que temos nos Andes: os vulcões do Equador pelos dias de cume longos, as montanhas peruanas pela exposição e técnica, as montanhas do Cone Sul pela altura e condições climáticas extremas.

Uma visita ao Monte Denali no Alasca para vivenciar o frio. Algumas visitas às montanhas remotas de menos de 8.000 m no Paquistão e na Índia, para vivenciar o isolamento geográfico, as aproximações longas, a distância da “civilização”.

Tudo isso é aprendizado, e quanto mais melhor. Quantas montanhas? Suba dezenas, e você vai saber quanto estiver pronto.

Também é importante ter claro que oportunidade e capacidade são duas coisas muito diferentes. Para o montanhista responsável o que determina estar pronto não é ter o dinheiro para bancar uma expedição, mas sim o ponto em sua carreira onde sobra experiência, talento e capacidade suficientes para dar o passo de escalar o Everest (ou qualquer outra montanha) de maneira ética.

Finalmente, a coisa mais importante, ainda que pareça simples, para se ter no currículo, é uma boa razão para se escalar o Everest.

“Por que está lá” é uma resposta para os Messners e Ueli Stecks.

Para meros mortais, é preciso uma razão muito boa para se colocar em uma situação tão extrema sem ter a capacidade dos dois grandes citados.

Por do Sol Face Norte | Foto : SPer Cliffpowys

Por do Sol Face Norte | Foto : SPer Cliffpowys

Para terminar, gostaria de deixar uma opinião bem pessoal para refletirem: para mim não é a montanha que faz o escalador grande, e sim o escalador que cria grandes escaladas, e para isso é preciso escalar a montanha por completo, participando de todos os processos e etapas.

Colocar um pé na frente do outro até 8.848 m de altitude é um grande feito, mas é muito pequeno perto de quem chega lá sem ignorar o resto dos processos da escalada.

Não se trata aqui de diminuir feitos, mas sim de não engrandecer coisas que de fato não são assim tão grandes (exemplo: tipos como Alan Arnette e Ueli Steck estão em  categorias muito diferentes e sequer cabem na mesma frase).

Sobre o Autor

Cissa Carvalho

Cissa Carvalho

Cissa Carvalho é natural de São Paulo e praticante de esportes outdoor desde os 8 anos de idade. É alpinista fanática, e nas horas vagas tenta escalar em rocha, surfar e arranjar dinheiro para continuar viajando. Já esteve em todos os continentes e já escalou na América do Sul, África, Ásia e Europa

There are 3 comments

  1. Conheça as principais montanhas mais altas do mundo e que ainda permanecem virgens

    […] Todo montanhista raiz, seguindo definições dentre parâmetros não tão claros, sonha com realizar uma alta montanha virgem. Na primeira metade do século XX a exploração de altas montanhas, turbinadas por uma política imperialista de cada país, patrocinou grande parte das expedições a lugares até então não pisados pelo homem. Muito desta corrida criou a fama, hoje não justificada mas alimentada por jornalistas saudosistas, de escalar o Monte Everest. […]

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