Livro da semana “Mas você vai sozinha?” – Gaía Passarelli

A América do Sul possui uma inegável cultura machista. Entenda que cultura machista é muito mais profundo que apenas apenas ceder participação às mulheres. A prática de esporte, de qualquer modalidade, também é impactada neste aspecto. Ainda é muito incomum em locais de escalada pela américa latina ver grupo de mulheres viajando e escalando juntas.

No Brasil esta prática é testemunhada esporadicamente e é, mesmo em feriados prolongados como páscoa e carnaval, praticamente inexistente. Os motivos são muitos e precisam ser analisados com frieza, pois vislumbrar apenas grau de dificuldade de vias e número de praticantes seria miopia intelectual.

Foto: Camila Svenson | http://www.popload.com.br

Utilizando um outro país sul-americano para análise, talvez chegaríamos próximos do que deve ser combatido. A Bolívia, um dos grandes destinos para montanhistas e escaladores no mundo, é o país de América Latina com maior número de casos violência física contra as mulheres e o segundo com mais violência sexual. Os dados são das Nações Unidas. Uma reportagem do diário britânico Daily Mail dá ao Brasil o segundo lugar em uma lista de países mais perigosos para mulheres que vão viajar sozinhas. O Daily Mail é indiscutivelmente o jornal britânico mais popular depois do The Sun.

Viajar sozinha, principalmente pela América do Sul é um verdadeiro tabu. A jornalista Gaía Passarelli, sempre teve o costume de viajar. Desde pequena tinha o hábito de estar na estrada, sempre acompanhada dos avós. Para incentivar que amis e mais mulheres sintam coragem e vontade de ter como companhia ela mesma, sem qualquer tipo de medo ou receio, elaborou o livro “Mas você vai sozinha?”. O objetivo, como pode ser visto pelo título, é inspirar pessoas, especialmente as do sexo feminino, a “gostar da sua própria companhia”.

A obra, entretanto, não é muita extensa (172 páginas) deixando a entender que possui a ambição de seduzir o leitor, por ser uma leitura relativamente rápida. Além disso, o livro possui uma linguagem bem direta, evitando a todo momento ser repetitivo, se assemelhando muito a uma conversa informal entre amigos. (na verdade entre amigas). Em “Mas você vai sozinha?”, a abordagem nitidamente quer provocar a curiosidade de quem tem vontade, mas nunca se arriscou, de viajar sem ninguém acompanhando.

“Mas você vai sozinha?” não é um livro técnico, daqueles que são recheados de dicas e ensinamentos que toda pessoa deveria saber para viajar a algum destino. O conteúdo elaborado pela autora, foi todo voltado para a preparação psicológica para tomar decisões a respeito de viajar. Não há, por exemplo, aprofundamento em detalhes como seguros de viagem, itens essenciais na mochila ou mesmo os lugares mais perigosos para uma mulher viajar. Nem mesmo diferenças entre viagens de mochilão e com malas de rodinhas. Infelizmente, há ainda o velho cacoete de jornalistas de somente ilustrar os mesmos lugares clichês como destinos obrigatórios de viagens.

Inegavelmente é uma visão muito particular, amplamente utilizada por jornalistas (aborda muitos assuntos de maneira superficial), do que é viajar desacompanhado. Mas, o grande mérito da obra é a abordagem psicológica, sendo ela muito franca e sem muitos rodeios. Mesmo não sendo um livro de viagens para constar nas prateleiras de agências de viagens, sites voltado ao turismo e mochileiros (as) de carteirinha, é uma excelente opção para um presente a alguma amiga que necessita começar a viajar.

Ficha Técnica

  • Título: Mas você vai sozinha?
  • Autor: Gaía Passarelli
  • Edição: 1ª
  • Ano: 2016
  • Número de páginas: 176
  • Editora: Editora Globo

Elisabet de Marco é Design Researcher, apaixonada por viajar e fazer trilhas a pé e de Mountain Bike, já fez mochilão pela Patagônia Argentina, Peru, Bolívia, Brasil e Uruguai.

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