A história de como a escalada chegou às Olimpíadas de Tóquio 2020

O Comitê Olímpico Internacional (COI) confirmou em 3 de agosto de 2016 a inclusão de softball-baseball, skate, escalada esportiva, karatê e surf como esportes de exibição para a próxima edição dos Jogos Olímpicos de Verão, marcados para meados de 2020 na cidade de Tóquio, no Japão. Desta maneira serão incluídos 18 eventos a mais nas datas dos Jogos Olímpicos de 2020. A edição de 2020 será a Olimpíada com maior número de modalidades na história.

Desde então o esporte foi encarado de maneira diferenciada por anunciantes, mídia e, claro, pelos seus próprios praticantes. Imediatamente ficou escancarado a diferença enorme que existe em termos de infraestrutura de federações, associações e ginásios de escalada em diversas partes do mundo. A título de exemplo, no Brasil não há nenhum ginásio que siga os parâmetros internacionais, muito menos as tendências, utilizadas nos principais centros do mundo.

Foto: http://www.ifsc-climbing.org/

Ficou evidente também, em cada um dos esportes contemplados com a escolha do COI, o amadorismo de quem faz parte da organização de eventos competitivos. Algumas faltas de coerências, que sempre existiram (e parecem fazer parte da cultura), ficaram ainda mais evidentes. Portanto há muito ainda por fazer para sonhar com uma vaga para algum atleta brasileiro.

Houve até mesmo jornalista esportivo de veículo tradicional, como o jornal Lance!, que chamou a inclusão da escalada como “bizarrice”.

Mas como foi que a escalada indoor ganhou a chance de participar da olimpíada de Tóquio? A resposta a esta pergunta, além muitas outras, é o que este artigo tem o objetivo de responder.

Esporte de Exibição?

Antes de entrar no assunto é importante salientar que a escalada não é, de fato, esporte olímpico. Há a possibilidade de vir a ser, evidentemente, mas ainda não é. A escalada não irá participar exatamente como esporte de exibição (também conhecido como esporte de demonstração) nos Jogos Olímpicos de Verão em Tóquio 2020.

As modalidades de um esporte de exibição são consideradas esportes de pouca expressão. Por esta baixa projeção participam como teste. Caso passem neste “teste”, são promovidas a esporte olímpico. As medalhas dos esportes de demonstração são idênticas às dos demais esportes olímpicos mas são menores, com apenas 3/4 do tamanho da original. Além desta diferenciação, nenhuma delas conta para o quadro oficial de medalhas.

Pelota Basca, um esporte de exibição nos jogos de Barcelona 1992

A última vez que uma edição dos Jogos Olímpicos de Verão teve esportes de exibição foi em Barcelona no ano de 1992, com o hóquei sobre patins e a pelota basca. Nas Olimpíadas de Pequim (2008) e Rio de Janeiro (2016) tiveram o Wushu e o e-Games, respectivamente, mas as medalhas distribuídas não foram as oficiais. Além disso, os atletas não puderam, participar das cerimônias (abertura e encerramento), nem haver nenhuma alusão a “esporte de demonstração” em lugar algum.

A não inclusão dos esporte de exibição, a partir da Olimpíada de 1992, se daria por dois motivos: o exagero dos organizadores e a falta de interesse do público.

Pelo menos em teoria, o COI não inclui mais esportes de exibição. Para o surf, escalada e skate, baseball/softbol e karatê, todos foram incluídos como esporte olímpicos, mas com uma carta de validade.

Mas a decisão é valida somente para os Jogos Olímpicos de Verão de 2020. O que, em termos práticos, significa a mesma coisa que um esporte de exibição, mesmo que a nomenclatura do COI deixe a entender o contrário.

Escalada na Olimpíada

O processo de fazer com que a escalada fizesse parte dos Jogos Olímpicos de Verão de 2020 começou no momento em que a União Internacional das Associações de Alpinismo (Union Internationale des Associations d’Alpinisme – UIAA) decide deixar de lado as competições. A decisão, tomada de forma civilizada e amigável em 2006 (sem incluir nenhuma briga política), foi levando em conta filosofias do montanhismo. Desta maneira foi criada a International Federation of Sport Climbing (IFSC), uma federação internacional de escalada esportiva.

No ano seguinte, 2007, o Comitê Olímpico Internacional (COI) deu reconhecimento parcial ao IFSC. Esta atitude fez com que o sonho de tornar a escalada olímpica nascesse. Isso porque, de acordo com o estatuto do COI, um esporte para ser olímpico deve ser “amplamente praticado por homens, em pelo menos 75 países e quatro continentes, e por mulheres, em pelo menos 25 países e três continentes”.

O reconhecimento total do COI para a escalada esportiva veio somente em 2010. A partir disso, sendo uma federação reconhecida, o IFSC poderia postular uma inclusão nas olimpíadas.

O passo seguinte para ser reconhecido como esporte olímpico, foi passar pelo filtro de seleção do COI. Este filtro existe porque existem outros esportes que, por não fazerem parte das olimpíadas, também sonham com este reconhecimento. A primeira tentativa foi em 2011, quando o comitê executivo do COI inclui a escalada esportiva dentro do shortlist dos esportes com potencial para serem olímpicos. Entre estes esportes estavam wushu, karate, baseball, squash, wakeboard, patins e luta greco-romana.

Na ocasião, identificada como sessão 127 e realizada na cidade de Buenos Aires em 2013, ficou decidido que apenas a luta greco-romana seria reinserida (a modalidade tinha sido excluída no mesmo ano).

Como a modalidade vinha ganhando bastante cobertura dos meios de comunicação, especialmente na Europa, a escalada esportiva como negócio começou a aparecer. Exatamente por este potencial financeiro, foi chamada para participar da segunda edição dos Jogos Olímpicos da Juventude em Nanjing como esporte de exibição.

Na ocasião foram oito atletas de cada modalidade (masculino e feminino) com representantes de Austrália, China, França, Alemanha, Inglaterra, Itália, Coreia, Rússia, África do Sul e EUA. Todos os atletas foram escolhidos pelo IFSC e que, na opinião da entidade, melhor representavam o esporte à época.

No ano de 2015, graças à criação pelo COI do programa de adição de eventos, foram propostos a inclusão em bloco de 5 modalidades para fazer parte dos Jogos Olímpicos de Verão de 2020. Desta maneira, na sessão 129 do COI realizado em 2016 na cidade do Rio de Janeiro, foi aprovado a inclusão da escalada esportiva em Tóquio 2020.

Mas e depois?

Como afirmado no início do artigo, a escalada não é um esporte olímpico. Na verdade ela está como esporte olímpico, mas nada da certeza de que irá continuar nos jogos de Paris 2024. É necessário, tanto para o público quanto para os organizadores de todos os países, que a escalada esportiva pertence a um programa especial.

Sabendo que os próximos Jogos Olímpicos de Verão serão em Paris, no ano de 2024, há a esperança de que possa ser novamente incluída. Para que a escalada esportiva seja incluída novamente existem dois caminhos:

  • Entrar novamente como candidata (shortlist) e obter votação vencedora para ser esporte olímpico
  • Participar novamente do programa de adição de eventos

Portanto dependerá do êxito que a escalada esportiva tiver nos próximos Jogos Olímpicos de Verão em Tóquio. Somente um relativo sucesso de audiência, identificação do público e, claro, potencial financeiro, farão a escalada sonhar com permanecer nas olimpíadas.

Foto: http://www.ifsc-climbing.org/

Portanto este sucesso depende não somente de cada atleta, mas também do interesse do público, em fazer com que o esporte mostre-se viável. Caso atletas e público acreditar em sofismas, como o de que a escalada deve permanecer de nicho, todo o esforço em torno da modalidade será desperdiçado

A primeira chance de demonstrar este interesse poderá ser testada em Buenos Aires em outubro deste ano. Nesta data acontecerá a terceira edição dos Jogos Olímpicos da Juventude. No evento a modalidade de escalada no formato idealizado pelo IFSC será testada. No local será construído um muro de escalada em velocidade que seguirá os padrões oficiais e ficará disponível para os escaladores.

Uma outra chance de testar o formato de competição proposto pelo IFSC são os Jogos Panamericanos de Lima 2019, evento que somente podem participar atletas das Américas.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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