Entrevista com Najla Moufarreg

O ano de 2017 foi marcado pelo acontecimento de vários campeonatos e torneios competitivos de escalada, os quais optaram por não fazerem parte de nenhuma das entidades que brigam politicamente. Estes eventos, além de propiciar a integração de atletas e comunidade, servem para revelar talentos que estavam “escondidos”, à espera somente de uma oportunidade de mostrar a todos os resultados de seus treinos.

Eventos competitivos de escalada aconteceram na Serra da Mantiqueira, Estado de Santa Catarina e no Nordeste, além de outros festivais de boulder festivos que aconteceram em outras localidades. Todos optaram por ficarem alheios à disputa política entre entidades representativas.

Um destes novos talentos que afloraram para os holofotes, foi a mineira Najla Moufarreg. Considerada pela maioria como destaque incontestável do Circuito Mantiqueira de Boulder 2017, demonstrou talento, técnica e muita força (além de concentração inabalável). Animada com os resultados obtidos no evento competitivo, também participou de outros eventos competitivos, os quais também se destacou, já despertando admiração, além de ciúme, de participantes e organizadores.

Foto: Felipe Barbosa

Equilibrando na sua vida pessoal, um mestrado e muita de dedicação em treinos realizados na academia de Resende-RJ, a atleta não deixou em nenhum minuto de se motivar. Estabeleceu um objetivo e não mediu esforços para alcançá-lo.

Procurando conhecer quem são os novos rostos da escalada de competição brasileira, os quais simbolizam a necessária renovação, a Revista Blog de Escalada procurou Najla Moufarreg para uma conversa para saber mais sobre a carreira e alguns pensamentos a respeito do esporte.

Najla, você se destacou em todos os eventos competitivos que aconteceram em 2017. Qual o segredo?

O meu segredo é continuidade. Não na definição do treino de continuidade, mas no sentido de frequência, tanto nos treinos indoor como na escalada na rocha. Na verdade 2017 foi o ano em que meus treinos foram mais desorganizados, infelizmente, pois estou concluindo meu mestrado em Química na UFRJ então nem sempre posso me dedicar aos treinos como gostaria.

Mas consegui manter uma frequência de escalada em rocha aos fins de semana e alguns treinos em casa e indoor de vez em quando, então pude manter a evolução que estava acontecendo naturalmente, com uma boa base feita em 2016.

Foto: Felipe Barbosa

Atualmente as competições de escalada no Brasil passam por uma crise política que se arrasta por anos. Qual a sua opinião a respeito disso?

Como atleta fico muito triste por ver que as organizações que prezam pelo futuro da escalada de competição no Brasil não conseguem entrar em um entendimento, até mesmo porque na maior parte das vezes quem perde é o atleta, as vezes de forma até mesmo arbitrária como ocorreu em um episódio de 2017.

Respeito muito o trabalho de ambas as entidades e por isso procuro ouvir e ler muito antes de formar uma opinião, mas o que vejo hoje é que nenhuma das duas oferece democracia ao esporte, então não mantenho paixões.

A escalada feminina no Brasil não teve ninguém competindo no exterior. Você conseguiria explicar o motivo?

Provavelmente explicar não conseguiria, mas posso formular hipóteses. As atletas em geral travam uma batalha maior que os homens na busca pelo respeito como atleta profissionais, isso em todos os esportes, e talvez isto reflita no aporte de patrocínios e dedicação exclusivas, uma vez que sempre são cobradas na sociedade por outros papéis.

Por isso admiro imensamente aquelas que buscam trilhar essa batalha, sigo todas nas redes. Isso aliado ao fator dinheiro e nível da escalada brasileira comparada à escalada mundial talvez limite a exposição das atletas à participação no exterior.

Foto: Felipe Barbosa

Você também participou do Circuito Mantiqueira de boulder como parte da organização. O que você aprendeu trabalhando com isso?

A proximidade na organização de campeonatos no ano de 2017 só me fez admirar mais ainda todos os que tentam contribuir ao esporte dessa forma e reafirmar a importância destes eventos na motivação dos treinos. Posso dizer que na correria do dia a dia o Circuito Mantiqueira com suas cinco etapas distribuídas pelo ano foi o principal motivador dos meus treinos naqueles dias de maior cansaço, que você só quer ligar a Netflix e ficar de boa.

Como parte da organização pude levar o lado do atleta ao lado de quem faz acontecer, insistindo nos detalhes que permitem que ninguém saia chateado dos eventos e que os atletas possam crescer como atletas, tomar responsabilidade pela sua escalada, contribuir e não apenas esperar um evento perfeito, afinal somos todos humanos. O Circuito soltou regulamento específico para cada etapa e se você observar, verá que foi ficando cada vez mais detalhado.

A cada etapa, novos aprendizados e como consequência, regulamentos mais bem escritos. O aprendizado final é que quem se aventura nas organizações de competições é por muito amor à escalada, o que você escuta no caminho nem sempre é agradável, mas o retorno à comunidade de escaladores faz valer a pena.

O Circuito Mantiqueira de boulder foi sucesso de público revelando vários atletas. Você saberia apontar quais foram os segredos?

O segredo não é segredo: fortalecimento da base. Uma grande festa de escalada, no formato festival, com a concentração e o acirramento da competição que as finais promovem. Todos os atletas que participaram do Circuito sabiam que tinham condições de mandar pelo menos cinco boulders.

O resto foi estratégia e diversão, motivando os treinos para os próximos eventos.

Treinar para competições é uma tarefa sacrificante. Para se destacar este ano o que você teve que sacrificar?

A lista é grande: o lado social completamente abandonado (rs), nada de visitas aos amigos no fim de semana. A dedicação à minha pesquisa de mestrado poderia ser muito maior, equilibrar o tempo de laboratório com o tempo que ainda precisava para treinar no dia.

Descanso, aquele domingão de bobeira? Esquece. E por aí vai, sem entrar nos detalhes financeiros (rsrs).

Foto: Felipe Barbosa

Como é feito o seu planejamento de treinos?

Como mencionado, este ano planejamento não foi bem o meu forte para os treinos. Mas acredito absolutamente na força construída sem pressa, em consolidar o grau antes de malhar projetos em números. A escalada é exigente, mas também te recompensa se você se dedica a ela o suficiente.

Faço alguns treinos pensando nos músculos antagonistas, treinos de flexibilidade, mas em geral acredito também na máxima: o melhor treino para escalada é escalar, então na falta de tempo e planejamento, bora para pedra. Consolidar o grau sem pressão te permite consolidar o psicológico em paralelo, que as vezes é negligenciado e como li em alguma revista de escalada por aí: o corpo não pode chegar onde a mente não foi antes.

Para o ano de 2018 quais são seus objetivos?

2018 que me aguarde (rs)! Termino o mestrado no começo do ano, então quero planejar meus treinos e padronizá-los pela primeira vez, pensando nos ritmos de recuperação e máxima do corpo com foco nos campeonatos.

Vamos ver se o resultado vai ser bom.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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