É possível passar do 8b ao 10b em um ano? Aprenda a deixar de acreditar em Papai Noel

Na internet esta semana viralizou uma notícia de um escalador, de aproximadamente 50 anos, que deseja passar do 7b+ francês (8c graduação brasileira) para o 8b francês (10b na graduação brasileira). Imediatamente os questionamentos e perguntas de muitos escaladores pipocaram nos comentários de todo treinador sério. Então seria possível, seguindo a mesma lógica do vídeo, sair do 6° grau francês (6°/7º brasileiro) ao 7° grau francês (7°/9º brasileiro)?

Lamentavelmente, com este pensamento de quem parece acreditar em Papai Noel (ou coelhinho da páscoa) tomou conta da maioria. Assista ao vídeo acima que isso ficará muito evidente.

Ser realista, sem ficar deprimido, não se trata de ser pessimista. Muito pelo contrário. Ver as possibilidades reais de sua escalada, aprendera a apreciar suas próprias conquistas e não de metas inventadas.

Escaladores e estatística (real)

Existem escaladores que são tocados pelos deuses, que em dois anos sem treinamento específico já estão no 9°/10º brasileiro. Mas, por outro lado, existem escaladores que não possuem nenhuma “sorte” e ficam pelos 6°/7° brasileiro o resto da vida.

Para ambos grupos, que são os extremos da distribuição normal estatística de Gauss (como são distribuídos estatisticamente os escaladores) não vale a pena fazer uma análise exaustiva. Portanto o que se pode dizer, é que as exceções não fazem parte da regra. Portanto nenhum conceito pode ser tomado baseando-se em generalizações de casos isolados.

Quanto maior o grau, menor são os escaladores que o alcança

Existem escaladores, sem sombra de dúvida, que em poucos anos podem evoluir saindo dos graus mais básicos para vias muito altas. Mas para que seja entendível, que fique claro que isso é uma possibilidade, mas de baixíssima probabilidade. Para que fique claro, usarei um exemplo simples: existe a possibilidade que você ganhe na loteria (se jogar, claro), mas a probabilidade de que ganhe é baixíssima. Portanto, se alguém disser que se colocar toda a sua fé nos números, muita vontade de ganhar e pensamento positivo em ganhar… Vai ganhar? Obviamente a resposta é bastante óbvia… Ou não? Caso contrário estaria jogando na loteria agora mesmo, ou ja teria ganhado muitas vezes. Como nunca ganhei, parece a você que “não coloquei muito esforço”?

Subir de grau de modo muito rápido não é uma capacidade “normal” para a GRANDE maioria dos escaladores. Histórias sobre isso são contadas sobre as exceções e que, caso analisadas minuciosamente, existem muitos fatores associados. Portanto deve levar em conta que a adaptação a estruturas tendinosas e ligamentosas leva anos para se fortalecer. Um ciclo celular de melhora em polias e tendões demora, em média, aproximadamente três meses. Por isso para subir de grau, muitas vezes é necessário que o escalador passe muitos anos nestes ciclos. Isso nem calculando nesta matemática as lesões.

Escaladores que evoluem “rápido”

Alguém que está algo como três anos do 6b+ francês (6sup brasileiro) e pretende chegar ao 8a francês (9c brasileiro) em apenas um ano, tenho uma resposta na ponta da língua: IMPOSSÌVEL! Mas nisso está os segredos da vida. Eu, como treinador com mais de 15 de experiência neste ofício, já tive escaladores que saíram do 6c francês (7a brasileiro) e em um ano já chegaram ao 8a francês (9c brasileiro).

Mas isso seria falta de caráter dizer que pode acontecer com todos. Este caso, que acabei de citar, é um caso particular (uma exceção à regra), pois era um escalador semi-tocado pelos deuses. Isso porque o atleta em questão nunca tinha sido constante no treinamento, por isso estava abaixo do que podia render. Esta mesma pessoa tinha uma apatia muito grande para tentar vias mais fortes, ou simplesmente não tinha a motivação necessária para isso. Em um ano teve um trabalho muito intenso, bem programado e sistemático de treinamentos. Mas este escalador já na primeira semana de treinamento demonstrou que seria a exceção à regra.

Dentre a média dos escaladores, isso incluindo os escaladores que escalam 8a/8a+ francês (9c/10a brasileiro), me atrevo a dizer que passar de etapas é um processo cheio de obstáculos. Uma vez escutei um treinador dizer que o pico de dificuldade para o escalador adulto (acima de 18 anos) estava em cinco anos de treinamento. Esta afirmação se referia ao caso de um escalador que levou cinco anos para encadenar um 8b francês (10b brasileiro), por exemplo, seu grau não iria subir mais que isso. Como exceção a esta linha de pensamento apenas um “+” na graduação francesa (8b+ Fr / 10c BR) em vias que eram de seu estilo.

Que fique claro: Esta afirmação está muito longe da verdade! Se observarmos escaladores famosos como Chris Sharma, Patxi Usobiaga e Adam Ondra, sua progressão foi meteórica e chegaram ao máximo de sua potencialidade com poucos anos de escalada. Adam Ondra, por exemplo, subiu o grau máximo da escalada em pouco tempo. Mas este exemplo, obviamente, é uma exceção de outra exceção, pois não é à toa que ele é o escalador mais forte da história.

Voltemos ao assunto do início: No vídeo no topo do artigo, que todos acabaram pensando “eu também posso…”, há um escalador de 50 anos de idade, que pretende encadenar um 8b+ francês (10a brasileiro) saindo de um 7b+ francês (8c brasileiro). Nele o escalador explica que está treinando com dois escaladores de elite e, aconselhado por outro escalador também da elite, para encontrar a via “ideal”. O que ninguém reparou, como as letras pequenas de um contrato, nesta história é que o escalador em questão já apresentou muitas lesões em seu histórico de escalada e não sabe realmente quais são suas capacidades reais.

Exemplos reais

O exemplo do escalador que treinei, usando de exemplo acima (saindo do 7a para 9c em um ano) é uma armadilha, especialmente se quero alardear que bom escalador que sou. Obviamente, caso tenha lido com atenção e racionalidade, se tratava de um escalador mal encaminhado e com baixa motivação.

Da minha parte afirmo que não foi fácil subir tanto o seu grau, pois sua probabilidade de êxito era muito grande por causa do potencial que tinha dentro dele. Mas isso, como também afirmei acima, seria como jogar na loteria, mas com uma moeda (50% de chances de ganhar ou perder). As probabilidades de ganhar, de metade das chances, eram muito altas.

Se disser que todos possuem a capacidade de subir de grau tão rápido, seria uma mentira. Isso acontece somente em casos muito excecionais. Para todo o resto da média da população de escaladores (a qual me incluo), subir o grau é um caminho longo e cheio de fracassos. Por isso que muitos não conseguem.

As lesões de muitos escaladores acontecem em função da busca do grau mais alto. Vi muitos exemplos, mas o mais cristalino é de um amigo que sempre se lesionava o ombro, mais precisamente quando entrava em uma via de graduação 7b+ francês (8c brasileiro). Mesmo fazendo mil exercícios de compensação e treinamentos muito bem planejados e sistemáticos. Depois de muitos anos, felizmente, ele conseguiu encadenar um 7c+ francês (9b brasileiro). Mas depois disso ficou acomodado na graduação 7a/7b francês (7c/8b brasileiro).

As lesões são para muitos o limite do grau, o que é algo normal. A escalada, para os dedos e mãos, é de longe as situações mais anti-fisiolóficas que se pode pedir ao corpo. Por isso para muitos, o corpo dirá: até aqui eu chego.

O que deve estar consciente é de qual é a sua capacidade e o sentimento com a escalada enquanto está evoluindo. Este não é um conselho piegas de “chegue até onde possa” ou “escale para se divertir”. Não serei hipócrita: o grau importa, pelo mesmo motivo que torce para que seu time de futebol ganhe sempre. Para isso escrivi um artigo sobre a importância do grau.

Passar do 6° francês (6°/7° brasileiro) ao 7º francês (7°/9° brasileiro) é uma etapa que a grande maioria dos escaladores deveriam poder fazer. Especialmente para 7a/7a+ francês (7c/8a brasileiro). Mas passar para o 8° francês (acima de 9c brasileiro) somente acontecerá para uma quantidade pequena de escaldadores e, por isso, todos devem estar preparados para saber se irá conseguir ou não. O vídeo, o qual está ao fim do artigo (sobre o pensamento mágico imbecil), ilustra bastante que uma coisa é a paixão, outra é o talento.

Mas já deve ter se perguntado se a satisfação pessoal que significa a sua própria superação. Afirmo que também tive a sorte de treinar uma escaladora por anos estava estagnada no 5º grau. ANOS!! À época começamos com um treinamento brutal. Entenda por brutal todos os regletes e arestas que podia melhorar. Procuramos baixar seu peso, melhorar a técnica (que era horrível), trabalhar a concentração, reconhecer seriamente seus erros, visualizar vias de escalada, ter mais confiança e ganhar força específica. Nos primeiros quatro meses trabalhados conseguiu encadenar seu primeiro 6° francês (6sup brasileiro). No quinto mês de treinamento, chegou muito perto do 6c francês (7a brasileiro). Para ela, à época, foi uma conquista gigante. Era, muito provavelmente, a mesma sensação de sair do 7b ao 8b francês (8b ao 10b brasileiro) que para outra pessoa. Era uma sensação que empolga qualquer pessoa. Foi uma restruturação de pensamento e motivação que a levou ao seu milagre pessoal. Ela sempre teve claramente que suas metas eram somente chegar a algo que seu corpo conseguir, não chegar a um grau altíssimo. Não tinha talento nato (nem nunca terá), mas sua paixão se desdobrou tanto que tornou-se uma escaladora que jamais pensou que poderia ser. Nisso está todo o segredo desta história.

Não acredite que as conquistas excepcionais de outros irão acontecer com você. Saiba que há uma grande probabilidade que não será assim. Não acredite em nenhum pensamento inocente (de quem acredita em Papai Noel). Claro que, se vai tentar mesmo assim, mergulhe de cabeça, sem muita expectativa do resultado final e aproveitando cada etapa do processo. Chegando onde quer que chegue. Se descobrir que é um daqueles que é tocado pelos deuses, então parabéns. Mas se for como grade parte dos escaladores do mundo, aproveite sua paixão pela escalada. Isso porque o único talento que desenvolver, é fazer as coisas o melhor possível.

O que é um pensamento mágico imbecil?

Tradução autorizada de: http://rocanbolt.com

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Gonzo Rocanbolt é chileno, médico, escalador e indiscutivelmente uns dos mais completos autores de artigos sobre treinamento de escaladores existentes no mundo. Respeitado em todo o mundo é o organizador do Simpósio de Medicina de Montanha no Chile e palestrante de eventos de escalada no Chile, Argentina e Espanha

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