Crítica do filme “Natural Born Climber”- Karina Oliani

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Há pessoas que acreditam que quando nascemos possuímos um destino escrito por um ser superior, e que estamos predestinados a sucessos e fracassos desde o útero. Baseado nesta ideia fazemos associações com atos praticados na infância com o que fazemos hoje, buscando associar o presente com as brincadeiras que faziam na primórdios da vida. Uma associação um tanto equivocada se analisada do ponto de vista do budismo e como a religião enxerga o que chamamos de destino.

Mas se este tipo de raciocínio é certo ou errado, não cabe aqui discutir, mas há de reconhecer que esta linha de pensamento pode levar pessoas a acreditarem em algo que não são. Este é o caso do filme “Natural Born Climber”, uma produção brasileira que documenta a ascensão da apresentadora de TV Karina Oliani ao Monte Everest.

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Uma produção que se revela ambiciosa desde o título (uma espécie de homenagem ao “Natural Born Killers” de Oliver Stone) , mas que derrapa fortemente em itens técnicos de elaboração de filmes como roteiro, veracidade, empatia e comprometimento com o público. Basicamente o roteiro do filme se baseia na documentação de como foi a ascensão da apresentadora, além de algumas das “dificuldades” que enfrentou para concluir a aventura e, segundo deixa a entender, realizar um sonho de criança.

A produção possui pouco mais de 17 minutos e é pontuada de muitas declarações sobre a personalidade e tenacidade da protagonista e alguns da própria Karina Oliani. Todos os exemplos são dados de maneira que o público entenda que ali está uma pessoa extraordinária e que realiza feitos extraordinários. Assim desde o início, e por quase todo o filme, escorregões de roteiro são constantes, deixando a impressão que foi editado às pressas (ou o planejamento não foi corretamente mensurado). Há relatos tão inverídicos ali que qualquer pessoa leiga no assunto do montanhismo já assimila que falta autenticidade e profundidade no desfile de “conquistas” e “aventuras” que a apresentadora realiza.

Entretanto quem tem uma mínima noção de montanhismo sabe das dificuldades de escalar uma alta montanha, detalhe que é mostrado em todas as produções do gênero, mas em nenhuma delas repete-se à exaustão sobre os perigos de morte. O Everest, diga-se, sequer está entre as 10 montanhas mais perigosas do planeta. Há uma indiscutível dificuldade, mas nada que seja tão mortal quanto ha 60 anos atrás.

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Uma produção série, e que tem como foco escaladas em alta montanha, sempre há citações sobre o perigo, mas muito mais que o perigo, é também retratado como ponto principal detalhes de como a pessoa se preparou para enfrentá-lo. O risco de morte inegavelmente existe, todos os praticantes sabem, mas nem por isso é explorado como fator determinante de uma produção que documenta escaladas em alta montanha.

O filme “Natural Born Cimber” entretanto concentra excessivamente o foco nestes “perigos” e muito pouco, ou quase nada,  na preparação para o desafio.

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O “desafio do Everest”, inclusive, é tratado de maneira superficial, quase banal, deixando forte sensação de que, para os produtores, não demanda nenhum preparo físico (técnico ou mental) extra. Basta chegar com um cheque dos patrocinadores, ter pouco medo da morte, e tudo está resolvido.

O amadorismo da produção fica evidente quando além de pecar por não ter nenhuma cena de Oliani se preparando fisicamente (muito menos tecnicamente) para subir ao teto do mundo, ilustra apenas cenas dispensáveis com uma certa glamourização de ir ao Everest.

Há ainda cenas em excesso que procura demonstrar a “versatilidade” das habilidades da protagonista dirigindo helicópteros, tratando crianças e competindo em wakeboard, enfim atividades não relacionadas com uma escalada em si, nem com o comprometimento que é exigido a quem deseja vencer uma altitude acima dos 8.000 m.  A inserção de  declarações de familiares, e pessoas próximas à apresentadora, fortalece a sensação de que tudo aquilo que está sendo reproduzido é apenas para vender uma imagem da protagonista, pouco acrescentando em termos de desenvolvimento de história. Com feitos tão artificiais, vazios e sem relevância do ponto de vista do montanhismo, algumas cenas são até risíveis.

A produção vai chegando ao seu final ofendendo a inteligência do expectador não mostrando quase nenhum histórico de altas montanhas (uma escalada ao Aconcágua é citado rapidamente e superficialmente), escaladas em rocha e, mais uma vez, transmitindo a falsa mensagem que chegar ao Everest é algo corriqueiro.

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O filme peca ainda em pontos fundamentais para denotar o tamanho do desafio que é o Everest : não há, por exemplo, explicações sobre o que são os temores repetidos sistematicamente como zona da morte, aneurisma ou congelamento de extremidades, nem quem são, ou o que são os Sherpas. Segundo a própria protagonista um deles salvou seu olho do congelamento e não há destaque a esta pessoa.

Se compararmos a “Natural Born Climber” com o “K2 Siren of Himalayas“( filme este que foi realizado com dinheiro de crowdfunding e não com pomposos patrocínios da apresentadora), fica evidente o tamanho do abismo que separa a maneira que se enxerga o esporte e a realidade de escaladas em alta montanha com o que é documentado na produção. Perto de um filme sério de montanhismo, com montanhistas de verdade, a produção parece feita por Adam Sandler muito pouco inspirado.karina_oliani_6

Todos elementos fundamentais foram esquecidos, para  construir um filme que apenas vende a imagem de uma “escaladora por natureza”como o título sugere explicitamente. Próximo ao final facilmente conclui-se de que o filme é apenas um retalho de filmagens desconexas e coladas sem nenhum roteiro ou intenção de documentar história.

O filme “Natural Born Climber” divulga uma imagem de escalada em alta montanha errônea e equivocada e em algumas partes chega a ser constrangedor tamanha a falta de qualidade que apresenta.

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A produção soa mais como simples peça publicitária para vender a imagem da protagonista do que um filme sério sobre o Everest. Para quem não conhece muito sobre montanhismo será apresentado ao esporte com superficialidade e fora da realidade. Questões como ética, preparação, conhecimento, técnicas e realidade de acampamento são deixadas de lado.

A escalada, os dramas e o enredo mostrados em “Natural Born Climber” estão mais para as novelas popularescas exibidas na TV aberta brasileira do que um filme que leva a respeito o montanhismo e escalada.

Nota Revista Blog de Escalada :

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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