Crítica do filme “Família Ciclista”

familia-ciclista-1Apesar de muitas pessoas não saberem, ou fingirem não saber por algum motivo, é necessário educar um filho para o mundo, e não para si mesmo.

A consequência desta miopia cultural estamos vivendo todos os dias com pessoas mimadas em excesso durante a infância e juventude para serem hoje totalmente despreparadas ao convívio social com intolerância de ideias e pessoas alheias de seu círculo cultural.

Parece absurdo este tipo de afirmação ? Perceba como há excesso de intolerância com fatos, idéias e ideologias que mesmo levemente levanta um incômodo a quem as escuta. Assim é perceptível ver o despreparo social, além de cultural em grande parte da sociedade que vivemos, que está concretizado no abismo de idéias e reflexão, além da completa ausência de reflexão por parte de todos.

Analisando mais profundamente encontramos muitos “intelectuais” surgidos das mais rasas teorias, consequência de que muito menos pessoas procuram entender todos os lados de qualquer situação. Intelectuais estes que invertem idéias e teorias à sua conveniência.

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Mas como educar uma criança para que sempre entenda que há um mundo inteiro a ser explorado, recheado de outras culturas e pessoas que seguramente pensarão diferente dela ?

A resposta a isso também é polêmica, recheada de pequenos detalhes além de demandar muita reflexão e, por isso, não é respondida com facilidade. Uma das alternativas para fazer com que uma pessoa amplie os seus horizontes, e comece a enxergar além do seu umbigo, é leva-la a viajar e conhecer um outro universo fora de sua zona de conforto.

Assim conclui os canadenses Dan e Alice Clark que realizaram uma cicloviagem pela Patagônia que durou pouco mais de 5.000 quilômetros junto de seus filhos Koby, de 6 anos, e Ava Fei, de 4 anos em uma jornada que durou pouco mais de 7 meses.

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Durante o período de viagem puderam interagir com outros cicloturistas de várias partes do mundo, acamparam em locais remotos e campings estruturados, comeram comida liofilizada, restaurantes e casa de amigos, e muitas outras atividades que somente uma longa viagem proporciona.

Tudo tratado com a devida naturalidade que, obviamente, somente quem pratica regularmente enxerga desta maneira.

Na bagagem além de seus equipamentos Dan e Alice também tiveram a preocupação de educar seus filhos para que aprendessem a linguagem local, entendessem como o mundo é grande e diverso, além de, com a devida segurança, pedalarem para gastar a energia que qualquer criança possui.

O resultado de toda esta aventura pode ser vista em seu filme “Familia Ciclista”, que o casal filmou durante toda a jornada, e resultou em uma produção de pouco mais de 17 minutos.

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Utilizando edição dinâmica, sem apostar em muitos diálogos ou momentos de comédia, todo o roteiro do filme é construído para que o expectador possa imergir não somente nas paisagens, mas também no crescimento intelectual dos dois filhos e em como o mundo interage com os dois.

Detalhes como sofrimento, cansaço, e outras frivolidades que revistas sem conteúdo, ou programas televisivos  adoram focar de maneira rasa felizmente foram deixados de lado. Não há em nenhum momento tentativa de criar drama desnecessário ou arrancar lágrimas de quem assiste.

O foco de toda a produção nitidamente é a viagem, e como as crianças reagiram a cada acontecimento, seja ele bom ou ruim.

Optando por ter o mínimo de diálogo possível, mas sem muitos cortes de imagens, “Família Ciclista” faz o expectador ser convidado a refletir não somente sobre que tipo de viagens estão fazendo, mas também sobre o tipo de educação que as crianças podem obter nos dias de hoje.

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Os diretores também apostaram em não valorizar excessivamente paisagens e locações, mas sim pequenos detalhes de pessoas, além das reações de seus filhos quando interagiam com a natureza e clima os quais não estavam acostumados.

Por isso a fotografia das localidades pode não agradar quem gosta e apenas ficar olhando paisagens, mas como o filme tem um foco definido desde o início é facilmente compreensível o motivo desta escolha.

Porém a opção pela ausência de muito diálogo, também tirou um pouco do brilho do enredo de “Familia Ciclista”, que próximo do fim parecia um mosaico de imagens organizadas e menos um filme propriamente dito.

A ausência de comparações com o local de origem, assim como mais declarações dos próprios pais sobre o amadurecimento dos filhos a cada etapa, deixaram a produção aquém daquilo que poderia render.

Mesmo assim o filme “Família Ciclista” é interessante para quem deseja fazer o mesmo tipo de aventura, especialmente com a família, para assim, quem sabe, criar um filho para a vida, e não somente para si mesmo.

Nota Revista Blog de Escalada : 

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Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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