Entrevista com Janine Falcão

Foto: Eduardo Geovane

Foto: Eduardo Geovane

Muitos escaladores desejam dedicar-se de corpo e alma ao esporte.

Cada um escolhe o caminho de acordo com a sua realidade, mas quem deseja de verdade sempre encontra o caminho ideal para si.

Mas algumas pessoas que se destacam no esporte nem sempre fazem algo por ele, preferindo sempre deixar para que outros o façam.

Este não é o caso de Janine Falcão, escaladora do estado da Paraíba que não somente se dedica de corpo e alma para a escalada, mas também mergulhou de cabeça na organização de eventos, como o Encontro de Escaladores do Nordeste.

Janine Falcão além de apaixonada pelo ambiente outdoor, é garantia de uma boa conversa e sempre está aberta para um bate-papo e troca de idéias.

Para divulgar cada vez mais os atletas nordestinos e saber um pouco mais do estilo paraibano de escalada a Revista Blog de Escalada procurou Janine Falcão para uma conversa que resultou em uma divertida entrevista.

Acompanhe abaixo.

Janine, você passou por um processo de recuperação de contusão. Como foi que ocorreu todo o processo?

Nossa, só de lembrar disso eu já sinto dores no joelho.

Há dois anos sofri um entorse no joelho direito, que me rendeu duas cirurgias, em um intervalo de 35 dias.

A última delas pra reconstruir o ligamento cruzado anterior (LCA).

A recuperação foi tensa, chorosa, dramática. Foram sete meses sem escalar, sendo seis deles fazendo fisioterapia quase todos os dias.

Foto: Denn Malloy

Foto: Denn Malloy

Um médico dizia que eu não devia mais escalar enquanto o outro falava que eu ia voltar pro esporte.

Eu não sabia em quem acreditar. Mas, mesmo sem data pra retornar, eu comprava equipo, costura, fita, mosquetão etc.

Ainda participei do EENe em Serra Caiada (RN), mesmo sem poder escalar.

Minha rotina era reduzida a treinar musculação, para o fortalecimento muscular, e a fazer fisioterapia e hidroterapia, além de aplicar compressas de gelo sempre que possível.

Não desejo um episódio desses na vida de ninguém, e afirmo com todas as letras: só quem já passou por algo semelhante é capaz de entender como a angustia se faz presente no dia-a-dia.

Voltei a escalar na casa de um amigo, num murinho de boulder. Foi apenas uma brincadeirinha de fim de semana. Consegui resolver um ‘problema’ que uma amiga já havia tentado muitas vezes, sem êxito.

Foi uma felicidade sem tamanho. Naquele momento, vi que as chances de voltar para a pedra eram de 100%.

Então, na véspera do dia das crianças de 2012, parti pra Algodão de Jandaíra, e no dia 12/10/2012 o meu presente foi a cadena de um 5 sup à vista.

Detalhe, escalando um mês antes de receber alta.
Enfim, fui voltando a escalar aos poucos.

Hoje ainda sinto dores, evito “dropar” na perna direita, uso até uma joelheira de contensão, quando lembro. Tento me cuidar o máximo possível, evitando ficar longe do esporte novamente.

Hoje no Brasil não há um volume de vias fáceis abertas (de 3º a 5º). Na sua opinião isso atrapalha no crescimento do esporte?

JanineFalcão-Dennis-Renner

Foto: Acervo pessoal Janine Falcão

Luciano, não sei por esse Brasil afora, mas os picos de escalada da Paraíba e os demais por onde passei, aqui no Nordeste, possuem inúmeras vias de 3º a 5º grau, favorecendo à galera que está embarcando agora no mundo da escalada.

Há vias fáceis na Pedra da Boca (Araruna – PB), quais faço questão de repetir sempre que vou lá. Inclusive, a via mais longa do parque segue a graduação de 3º V, com mais de 200m.

É super bacana e garante um visual sensacional do parque. O que eu acho é que o grau das vias equipadas depende bem mais da rocha do que do escalador/equipador.

As pedras no Parque Estadual da Pedra da Boca, por exemplo, são em sua maioria positivas, ou seja, a inclinação/qualidade da rocha, nesse caso em específico, limitou a graduação das vias.

No entanto, todos os picos por onde passei, inclusive a Boca, possuem setores com vias fáceis e setores com vias difíceis.

Presenciei inúmeros projetos de vias sendo iniciados e concluídos e, no final das contas, a combinação entre inclinação, tamanho das agarras e disposição das mesmas depende mesmo é da rocha.

No mais, a escalada não é um esporte “popular”, mas aos poucos vamos ganhando espaço.

Você ajudou a organizar dois EENe (Encontro dos Escaladores do Nordeste). Como é organizar um encontro de escalada hoje no Brasil?

Foto: Acervo pessoal Janine Falcão

Acredito que organizar qualquer evento no Brasil da um trabalhão.

Seja de escalada ou não. Mas, como citei acima, por a escalada não ser um esporte “popular”, encontramos mais obstáculos ainda.

Quando a Organização do EENe na Paraíba se reuniu pela primeira vez, várias comissões foram criadas pra facilitar o desenlace do evento em si, então, terminei abraçando a responsabilidade da Comunicação, mas presenciei a busca incessante de patrocinadores e apoios.

Acredito que todas as empresas que apoiam a escalada, e as marcas nacionais fabricantes de equipamento, foram procuradas. Tivemos patrocinadores, apoiadores e portas fechadas.

A lista de possíveis patrocinadores era enorme, mas como o nosso esporte raramente é enfatizado na mídia, terminamos não gerando visibilidade que essas marcas prospectadas pudessem nos apoiar.

Isso com certeza influiu na dificuldade das empresas em liberar grana.

Muita gente ralou e no fim deu tudo certo.

Somos ainda um “país do futebol”, e como uma Copa do Mundo acabou de acontecer debaixo dos nossos narizes o futebol com certeza é o assunto mais abordado, atropelando até mesmo a política, a economia e a educação.

(In)felizmente, mídia e esporte possuem hoje uma relação de interdependência muito forte. E, a escalada para ganhar visibilidade precisa bem mais do que cadenas extraordinárias.

Foto: Gabriel Beltrão

Foto: Gabriel Beltrão

Sobre a minha participação na organização do EENe deste ano eu só tenho a agradecer.

A priori, estava apenas ajudando a Organização da Bahia, com informações diretas sobre a edição daqui, mas a galera depositou uma confiança sem igual em minha pessoa, me convidando para continuar a escrever no site do EENe, ajudando assim na divulgação do encontro.

Mais uma vez, digo que o encontro foi um sucesso, foi um enoooorme prazer, mas, o mérito é todo da organização da Bahia.

No ano de 2013 não houve campeonatos de escalada. Na sua opinião, qual seriam os motivos que levaram as competições a definharem?

Foto: Maíra Beltrão

Foto: Maíra Beltrão

Apesar de nunca ter sido uma atleta de competição, venho acompanhado de perto as discussões sobre os campeonatos desde que foi anunciada a não realização do brasileiro no ano passado.

É um pouco difícil elencar aqui os motivos que levaram as competições a definharem.

Como atleta de fora, a primeira coisa que eu questionei foi o porquê de a competição não ser realizada.

Na época do anúncio, li vários relatos.

Alguns citavam a quantia empregada para a realização do brasileiro de 2012 (que foi um puta evento) e o descaso da CBME para com as competições, outros falavam da falta de interesse das federações, a falta de interesse das academias em assumir a responsabilidade de uma etapa do brasileiro, enfim, tudo levou a crer o problema não era apenas falta de grana.

É lógico que todo escalador que acompanha o cenário das competições no Brasil ficou se questionando sobre o que é necessário pra realizar um campeonato deste porte.

Em meio a tudo isso, ouvi Yan Ouriques falando que o mercado das competições está praticamente parado, com ações isoladas, e fiquei pensando sobre qual a real importância das competições de escalada.

Passei a crer que esta pergunta deveria ser respondida não somente pelos atletas interessados em competir, como também pelas entidades (CBME, Associações e Federações) e empresas patrocinadoras ou apoiadoras.

No meu pensamento, não se trata de jogar a responsabilidade em uma das partes, e sim de tentar amenizar a dissonância atual.

Porém, tomei conhecimento do modelo de competição elaborado pela CBME, em que li ‘Órgão nacional regulamenta e órgão estadual executa’, ou seja, a responsabilidade foi jogada no colo das federações e dos órgãos executores.

Sendo assim, toda a minha atenção se voltou para a falta de dinheiro da CBME e das federações, como um passa e repassa de responsabilidades, como: “Tens dinheiro? Não! Ok, eu também não!”. E assim o esporte foi o prejudicado.

Foto: Acervo pessoal Janine Falcão

Para alguém que está planejando visitar o estado da Paraíba, quais seriam os locais para escalar que você recomendaria?

Foto: Natália Queiroz

Foto: Natália Queiroz

A Paraíba tem muito potencial em relação à escalada em rocha, fica até difícil não rasgar seda (risos).

Mas, os dois principais picos de escalada são diferentes em relação à modalidade de escalada e à qualidade da rocha.

A Pedra da Boca foi o meu campo-escola e é um lugar esplêndido, lindo MESMO.

Quem busca por um point com visual irado, pousadinha com vista pro parque, escalada tradicional, esse é o lugar mais indicado.

Quem preferir se aventurar num pico de escalada esportiva, eu recomendo Algodão de Jandaíra, sede do EENe no ano passado.

A rocha lá é um granito diferente, bem macio, com agarras aparentes, temos vias de todos os níveis e para todos os gostos.

Diferente da Pedra da Boca, Algodão de Jandaíra não é considerado ‘ponto turístico’ no nosso estado.

A quantidade de vias nos dois picos parece ser interminável, você pode passar dias escalando e ir descobrindo constantemente novas vias!

Muito se discute sobre a relação de escaladores esportivos e as Federações e Associações de escalada. Na sua opinião, você acha que as federações e associações de escalada estão alinhadas com a nova geração de escaladores?

Foto: Rômulo Araújo

Foto: Rômulo Araújo

O que eu devo entender como nova geração de escaladores?

Para mim, ao ouvir essa expressão, só me vem à cabeça a imagem de uma gurizada viciada no esporte, já mandando muitão nos boulders ou nas vias esportivas, geralmente filhos do indoor.

No geral, essa galera, quando apresentada à rocha, já chega com uma visão totalmente diferente da escalada em sua totalidade.

É até engraçado afirmar isso, mas quase todos chegam com um estilo de escalada preferido.

Já fui viciada em treinar na resina, mas, o meu desejo ali era condicionamento, para evitar apanhar das vias em que entrava. Para mim, não existia um estilo preferido.

Estava começando a guiar, queria entrar em tudo, via tradicional, esportiva e afins.

Hoje, continuo amando escalar vias tradicionais, mas, se você me perguntar que estilo eu gostaria de escalar neste fim de semana, eu certamente responderia ‘vias esportivas’, até porque tenho algumas vias com movimentos isolados, que ainda pretendo malhar até mandar, ou seja, a escalada esportiva está batendo mais forte.

Então, o que acontece é que, assim como eu, a maioria dos escaladores não é filiada a federação nenhuma.

Uns não demonstram interesse, outros se perguntam o que se ganha ao se filiar a uma federação ou associação.

Na verdade, por mais que se queira apoiar o esporte, todo mundo quer ver algum retorno do que se paga.

Não que eu queira uma prestação de contas detalhada, longe disso, mas gostaria que a mensalidade fosse empregada em competições, no mínimo. Sob essa visão, acredito que as algumas Federações e Associações de escalada trabalham ainda de maneira conservadora, ignorando a evolução do esporte.

Muitos escaladores valorizam em demasia os graus de escalada. Qual a sua opinião a respeito disso?

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Foto: Wolgrand Falcão

Xiiii.. esse assunto sempre vai gerar polêmica.

Acho que vai da motivação de cada um, ou seja, cada um sabe o que quer pra si.

Antes eu achava um saco essa hipervalorização dos graus de escalada, hoje estou mais tranquila em relação a isso.

Mas, já passei horas a fio reclamando com amigo que só queria entrar em vias fortes, e sequer consegui fazer o cara balançar diante do meu discurso.

Então, cheguei à conclusão de que também acho massa quando consigo me superar escalando.

Agora, se o “Fulano” cisma de entrar num 9c eu apenas digo: “faço a seg”. (risos).

Essa questão de grau é relativa demais.

O primeiro 7a que mandei depois da lesão foi mágico. Comemorei sozinha e não consegui mandar mais nada ‘forte’ naquele dia.

Em outra trip, quando retornei ao mesmo setor, fui tentar repetir a mesma via, e perrenguei.

É por essas e outras que eu digo que as vezes apanhar ensina mais do que conseguir a cadena.

Sempre repito vias mais fáceis só pelo prazer de escalar.

Equipo as vias fortes que consigo equipar, persisto de costura em costura, só para montar top rope pros amigos, depois fico só dando seg, vibrando quando um amigo faz um lance bonito, reclamando quando falta um equilíbrio aqui, um pezinho ali.

Enfim, volto satisfeita de toda trip de escalada que realizo.

Nunca saio de casa me preocupando com os graus das vias que pretendo entrar, e digo mais: as vias onde mais me diverti escalando com os amigos não passaram de 5º grau.

No fim, o que vale mesmo é o lema dos amigos pernambucanos, “o melhor escalador é aquele que mais se diverte”.

Foto: Acervo pessoal Janine Falcão

Foto: Acervo pessoal Janine Falcão

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