Consciência de mão dupla: Como focar em lugar nenhum para focar em todos os lugares

Yagyu Munenori, o professor samurai do século XVII, pensava que ensinar treinamento mental era essencial para ensinar a lutar com a espada. Ele sabia que se a mente não estivesse treinada para lidar com situações estressantes, os alunos não seriam capazes de aplicar suas habilidades com a espada.

Munenori usava o que ele havia aprendido do Budismo e do mestre Zen Takuan Soho para ensinar treinamento mental. Sua meta era ajudar os alunos a desenvolverem o que Takuan chamava de “uma mente livre”. Muitas frases usadas por Munenori tinham a qualidade da contradição, que é famosa no Zen. Uma das minhas favoritas que Takuan lhe ensinou é: “colocada em lugar nenhum, a mente estará em todos lugares”.

Foto: https://www.gramicci.com/ – Cheyne Lempe

O treinamento mental tem muito a ver com a mente, mas nos aprofundando mais no tema, percebemos que “a mente” é um conceito muito vago. Precisamos entender o que a mente pode fazer, para poder desenvolver práticas que nos ajudem a treina-la. A principal tarefa da mente é focar a atenção. Nossa habilidade de ter uma mente que consiga focar nossa atenção com eficiência desenvolve uma mente livre, o que Munenori buscou ensinar. É do meu entendimento que o que Takuan e Munenori queriam dizer ao usar a palavra “mente” é atenção. Saber como direcionar nossa atenção para a tarefa, e mantê-la lá, é o necessário para ter uma mente livre. Há vários passos para fazer isso.

Primeiro, nos tornamos conscientes de onde a nossa atenção habita. Sem consciência, a atenção tende a habitar na mente, focada em todas as suas tendências limitantes. Vemos uma escalada difícil e a mente pensa sobre o quão estressante vai ser e como o esforço será grande. A atenção flui desde a escalada na rocha, passa através dos nossos olhos, pela mente, onde se mistura com todas as nossas memórias passadas de escaladas difíceis, e lá permanece.

Em segundo lugar, nós direcionamos o fluxo de nossa atenção intencionalmente. Saber que nossa atenção tenderá a fluir para a mente e habitar lá nos permite reverter esse fluxo. Direcionamos o fluxo de nossa atenção desde a mente para a escalada. Nos certificamos de manter essa direção de fluxo envolvendo nossos sentidos de visão e toque. Ao concentrar a nossa atenção em procurar sutilezas na escalada e sentir as agarras, mantemos o fluxo de nossa atenção indo da mente para a escalada.

Foto ; http://www.wildcountry.com

Em terceiro lugar, procuramos concentrar nossa atenção na situação como um todo (nós e a escalada), como Munenori sugeriu: focando-a em lugar nenhum, para que ela esteja em todos os lugares. Como podemos focar nossa atenção em “lugar nenhum” e fazer com que ela esteja “em todos lugares?” Parece uma contradição, mas não é. A atenção é focada em lugar nenhum porque não está focada em nenhuma parte específica de uma situação. Isso permite que a atenção seja expandida para todos os lugares dentro da situação como um todo.

Um desempenho efetivo requer uma fusão de partes no todo. Por exemplo, Munenori disse a seus alunos que se eles colocassem a mente na espada do adversário, eles seriam cortados; se eles colocassem a mente na espada deles, eles seriam cortados. Focar a atenção em uma parte (espada do oponente, sua própria espada) evita que ela esteja focada no todo e faz com que eles falhem.

O mesmo conselho é relevante para a escalada. Se colocarmos nossa atenção na mão, falharemos. Se colocarmos nossa atenção no pé, falharemos. Precisamos estar cientes de quanto pressionar com o pé, enquanto deslocamos nosso corpo conforme o necessário e seguramos um pequeno reglete. Precisamos de consciência em todas as partes, de modo que o conjunto possa funcionar como um corpo/mente unidos.

Então, como fazemos isso?

Foto ; Chad Hussey – https://wendyong.org

Takuan ensinou a Munenori que, se não colocarmos a mente [atenção] em lugar nenhum, ela irá para todas as partes do corpo e se estenderá por toda a sua totalidade. Nós espalhamos nossa atenção para o todo, por isso ela não está em nenhuma parte específica dentro desse todo. Nossa atenção precisa estar espalhada para incluir o corpo e a escalada, sem ficar parada em nenhum lugar. Isso aumenta nossa consciência de propriocepção corporal, nosso posicionamento no espaço e como o corpo se integra com a escalada na rocha. Este, porém, é um conceito geral. Há muitos casos em que precisaremos um pouco mais de consciência, como um posicionamento de pé delicado, por exemplo. Mas, se nos concentramos demais nesse pé delicado – uma parte – cometeremos erros em outro lugar – o todo.

Para lutar bem é necessário envolver-se na luta com um corpo/mente unidos, e não partes separadas. O braço, a perna e a mente não estão fazendo coisas separadas; elas estão unidas em uma experiência de luta, cada parte fazendo sua responsabilidade para manter a integridade do todo. Nossa atenção está espalhada pelo todo, entendendo como todas as partes estão se integrando. Estamos concentrados em lugar nenhum, para poder concentrar-nos em todos os lugares.

Dica pratica: Consciência de mão dupla

Escalar de forma eficiente e eficaz exige uma fusão entre escalador e a rocha. Não lute contra a rocha; encontre uma maneira de se misturar a ela. Direcione sua atenção para o todo: para dentro, no seu corpo e para fora, na rocha, para se certificar de que você está se misturando bem
Você está mesclando seu esforço para escalar para cima com a atração descendente da gravidade. Mantenha uma consciência de mão dupla: uma consciência simultânea da situação interna do corpo, à medida que se mistura com a situação externa da rocha. Faça isso estando ciente dos elementos RORP: (Veja o livro Treinamento Expresso para detalhes desse exercício).
R: Respire mantendo uma respiração contínua. Isto processa o estresse.
O: Os olhos deverão estar focados com uma visão suave para criar uma noção periférica. Isto expande o foco para incluir toda a rocha na qual você está subindo.
R:  Relaxe para se alinhar com a gravidade e economizar energia.
P: A postura deve ser apropriada (os ombros levemente para trás e para baixo) para conseguir usar seu corpo de maneira eficiente.

1-WarriorsWaylogo_

O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em: http://www.companhiadaescalada.com.br/

Tradução do original em inglês: Gabriel Veloso

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

Comente agora direto conosco

Comment moderation is enabled. Your comment may take some time to appear.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.