Como escolher óculos para montanhismo – Guia completo para proteger os olhos na montanha

Praticar qualquer atividade de montanha, não importando qual modalidade, é uma experiência sensorial. Por isso é tão avassaladora a sensação para quem a experimenta. Todos os sentidos do indivíduo são estimulados à sua máxima potência.

Estes estímulos são os gatilhos de cada resposta fisiológica envolvendo nosso sistema sensorial: frio, calor, dor, luz, cores, etc. Podemos concluir que são quatro parâmetros básicos: tipo, intensidade, localização e duração. A partir destes estímulos culturalmente reconhecemos cinco sentidos : visão, audição, paladar, olfato e tato.

Foto : Vinícius Maltauro

Todos os sentidos são importantes mas a visão é, sem dúvida nenhuma, a que domina a nossas vidas. Pesquisas científicas  concluíram que 4/5 de todas as informações recebidas pelo cérebro são feitas através dos olhos. Por isso a importância da visão é gigante para cada ser humano. Muitas vezes fechamos os olhos para nos concentrarmos em outros sentidos como, por exemplo, a audição.

Fazendo um paralelo com algum aparelho que conhecemos, podemos comparar nossos olhos a uma máquina fotográfica : a luz entra no olho através da pupila formando a imagem de cabeça para baixo na retina, da mesma maneira que a luz entra na câmera através da lente formando a imagem de cabeça para baixo no filme.

Como foi explicado em um artigo completo sobre proteção solar na montanha, os raios solares em altitudes são mais nocivos à pele e este perigo se estende aos olhos. Por isso é necessário protegê-los para que nada de mais grave aconteça.

Não é uma questão apenas de estilo que montanhistas ostentam óculos grandes e espelhados nas fotos em alta montanha, mas sim de sobrevivência. Sob determinadas condições um montanhista pode ter sua capacidade de visão reduzida para o resto de suas vidas caso não se cuide. Por isso é preciso saber escolher os óculos ideais para montanha e, apesar de parecer ser uma tarefa simples, vai muito além da aparência da armação.

História dos óculos

A palavra óculos surgiu com o termo em latim ocularium, na Antiguidade Clássica (período da história compreendido entre o século VIII a.C. ao século V d.C), para designar os orifícios das armaduras dos soldados os quais serviam para permitir enxergassem corretamente.

As primeiras lentes corretivas foram feitas no século I d.C (ou seja, há mais de 2.000 anos) e eram confeccionadas com pedras semi preciosas cortadas em tiras finas. Esta técnica permitia às pessoas enxergar melhor e seria o equivalente aos óculos de grau para perto que temos atualmente. Mas os óculos, à época, eram baseados em experiências empíricas e não científicas.

Foto : https://eyeinform.wordpress.com

Somente 1.000 anos depois que matemático árabe Alhazen, quando formulou a teoria sobre a incidência de luz em espelhos esféricos e como isso reagia no olho humano, é que houve embasamento científico para a produção de lentes de vidro. Por volta do ano 1270, na Alemanha, foram criados os primeiros óculos com aros de ferro e unidos por rebites semelhantes a um compasso e hastes.

Mais tarde as experiências em ótica de Robert Grosseteste e seu discípulo Roger Bacon que levaram à invenção dos óculos modernos e durante o século XIV a fabricação popularizou-se por toda a Europa.

Óculos escuros

A primeira lente escura conhecida foi uma lâmina verde usada pelo imperador Nero, no século I. O motivo de Nero utilizar este recurso para bloquear os raios solares é desconhecido. O imperador é historicamente conhecido por uma série de execuções sistemáticas, incluindo a da sua própria mãe, e o grande incêndio de Roma no ano de 64 d.C.. Segundo Miguel Giannini, do Museu dos Óculos Gioconda Giannini (museu particular fundado em 1996 em São Paulo), a lente de Nero era provavelmente de vidro.

Foto : http://www.opticalheritagemuseum.org

O primeiro par de óculos com lentes escuras, e armação, surgiu na Alemanha no século XIII e, segundo fontes históricas, era pesado e desconfortável. Somente no século seguinte que franceses introduziram um novo design com nome de pince-nez (pinça de nariz) no qual o preso do óculos ficava na ponta do nariz.

Os modelos atuais, com duas hastes laterais, surgiram apenas no século XVII e, até o século XX, eram feito a sempre com lentes verdes. Na década de 1960 a lente de cristal, considerada pesada, foi substituída por acrílico e policarbonato. Dez anos mais tarde as lentes coloridas tornaram-se moda.

Atualmente as mais usadas são verdes, marrons, cinzas e pretas as quais absorvem mais de 80% da luz solar. Óculos escuros, ou óculos de sol, de qualidade são aqueles que bloqueiam os raios UVA, UVB e UVC.

Estes raios solares quando atingem os olhos provocam lesões oculares como catarata (opacificação do cristalino do olho), pterígio (massa vermelha fibrovascular que se estende à córnea), fotoconjuntivite (inflamação da membrana mucosa que reveste a parte interna da pálpebra), fotoqueratite (inflamação da córnea), alguns tipos de carcinoma, que podem ser irreversíveis ou exigir uma intervenção cirúrgica.

Óculos de má qualidade

Um óculos escuro de má qualidade pode causar o efeito inverso do que se espera de proteção. Abrindo esta “brecha de segurança”, não protegendo contra os raios ultravioleta e ainda dilatando as pupilas, a exposição aos raios solares pode ser ainda maior e, infelizmente, fatal para a sua visão.

Foto : http://www.alamy.com

Portanto no momento de escolher um óculos escuro, sobretudo para alguma atividade de montanha, tenha a preocupação com a qualidade das lentes.

Aqueles certificados que alguns modelos possuem, os quais atestam a eficiência na filtragem dos raios solares, não é apenas para deixar o modelo mais caro mas para informar que aquele produto possui uma qualidade minima desejada.

Lentes Polarizadas

Para óculos que serão usados em montanha é necessário que tenham lentes polarizadas. Mas que tipo de propriedade é esta ?

O objetivo principal destas lentes é diminuir o impacto da luz e reflexo nos olhos. Lentes polarizadas deixam mais protegidos os olhos dos reflexos e luzes de grande intensidade. Esta proteção é feita pelo filtro da lente que minimiza este efeito e promove proteção otimizada contra Raios Ultravioletas (Raios UV).

Lentes polarizadas agem como “cortinas”, pois controlam a quantidade de luz que chega aos olhos devido a uma película extra de proteção (o que as lentes comuns não possuem) e, caso sejam de qualidade, oferecem  100% de proteção contra raios UVB e UVA. A incidência destes raios na montanha são muito maiores que nas cidades em altitude média.

A intensidade da luz ultra-violeta aumenta cerca de 18% a cada 1.000 metros adicionados na altitude. Por exemplo, caso esteja No Rio de Janeiro (nível do mar) e viagem até Brasília (aproximadamente 1.000 metros de altitude) a incidência será de 18%. Mas se esta pessoa viajar até La Paz (3.640 metros  de altitude) a incidência de raios ultra-violeta (UVA e UVB) será 65,52% maior.

Portanto, seguindo o mesmo raciocínio, a incidência em alta montanha, comparado com o Rio de Janeiro, ou outra cidade que está ao nível do mar :

  • Pico dos Marins :  2.420 m – 43,56 %
  • Pico da Bandeira : 2.892 m – 52,05 %
  • Machu Picchu – 2.438 m – 43,88 %
  • Aconcágua : 6.962 m – 125,32 %
  • Ojos del Salado : 6.893 m – 124,00%
  • Mont Blanc : 4.810 m – 86,58 %
  • Elbrus : 5 642 m – 101,56 %
  • Denali : 6.190 m – 111,42 %
  • K2 : 8.611 m – 155 %

Óculos na montanha

Na montanha, especialmente em grandes altitudes, a incidência a raios ultra violeta é maior pois a atmosfera nestes ambientes é menos densa e, conseqüentemente, a camada atmosférica é mais fina.

Além desta característica, há alta incidência de gelo e neve que, por serem brancos, refletem os raios solares. Portanto há incidência de raios solares  vindo tanto do alto como de baixo, dos lados e de todas as direções.

Foto : Jimmy Chin

Portanto os olhos devem estar protegidos por inteiro, quase que isolados de qualquer contato com o ar, da mesma maneira que uma máscara de mergulho. Por isso, os modelos mais indicados para montanha protegem não somente a parte dianteira como as laterais dos olhos.

No mercado há modelos com acessórios laterais (alguns removíveis outros fixos). Portanto há uma diferença considerável entre um óculos para uso em lugares ensolarados como praia e atividades urbanas de lazer e os modelos indicados para a montanha.

Há muitos exemplos de casos de montanhistas que tiveram cegueira temporária em alta montanha.

A cegueira temporária, também conhecida como cegueira da neve ou branca, é causada pelo excesso de incidência de radiação UV na córnea, sobretudo dos raios UV-B. Dependendo da gravidade da lesão, além do tratamento recebido, o montanhista pode recuperar a visão em aproximadamente 18 horas.

Importante lembrar que a superfície corneana leva, em média, 24 a 48 horas para se regenerar. Dependendo da gravidade da queimadura, que levou à cegueira temporária, o dano é irreversível.

Após a volta da visão, caso aconteça, é importante respeitar a recomendação de que a recuperação total fica em torno de 4 dias.

Os modelos de óculos escuro para montanhismo são fabricados de diversos materiais, mas os mais indicados são as lentes e policarbonato e hastes flexíveis.

Viseiras de esqui x Óculos de Montanha

Existe no montanhismo uma certa discussão a respeito do uso ou não das viseiras de esqui (que se assemelham a máscaras de mergulho) para o uso em alta montanha. As viseiras de esqui possuem polarização e resistência a choques mecânicos além de, obviamente, proteger os olhos da incidência de raios solares em todas as direções.

Por serem muito leves são utilizadas por escaladores em gelo. Para ascensões em montanhas com baixa temperatura são consideradas muito práticas pela sua leveza e por isolarem bem os olhos, tanto de claridade quanto do frio, dando mais conforto a montanhista.

Mas esta praticidade tem um preço : viseiras de esqui são mais caras que óculos escuros para montanha. Óculos de montanha são mais práticos, pois podem ser usados em ambientes de lazer ensolarados e não somente na montanha. O que, neste caso, as viseiras de esqui não fazem sentido serem usadas além de esquentarem muito em ambiente fora da montanha.

A questão do uso ou não de viseiras de esqui, ou óculos de montanha, fica por conta da quantidade de recursos financeiros do praticante. Montanhistas mais experientes recomendam a compra de óculos de montanha muito por conta da praticidade e longevidade.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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