Appalachian Trail: O diário da travessia feita por um section hiker (Parte 4)

O nível fácil da Appalachian Trail (Caminho dos Apalaches) seria algo em torno de 273 milhas (440 km).

Mas por que escrever sobre uma seção da Appalachian Trail se milhares de pessoas, incluindo brasileiros, já a fizeram toda?

Um thru hiker, aquela pessoa que concluiu toda uma trilha longa, não é uma pessoa comum! Nem física, nem emocionalmente. São pessoas extremamente dedicadas, com recursos, muita experiência e com alta resiliência, ou seja, não é para mim!

Foto: Orlandinho Barros

Já um section hiker, concluinte de parte de uma trilha longa, pode ser uma pessoa comum, sem tantas habilidades. Por isso que escrevo esse artigo, para mostrar como um simples mortal pode fazer uma trilha longa.

Os 440 km que fiz na Appalachian Trail são factíveis para qualquer praticante de hiking, desde que haja preparação adequada.


Dia 22 – 24/10/2017

Cosby Knob Shelter | https://hikinginthesmokies.wordpress.com/

Amanheceu muito frio, certamente abaixo de zero. Foi muito difícil arrumar as coisas. Não podia demorar porque tinha 15 milhas (24,14 km) pela frente. As botas e meias ainda estavam molhadas. Estava nublado com fog mas sem vento. Os pés e mãos quase congelando, usei o Toes warmer.

O sol foi surgindo aos poucos, mas o vento fraco gelado esfriava. 9:00, o percurso iniciou plano, depois duas subidas suaves e depois uma grande descida até o Davenport Shelter. Fiz bem rápido apesar das poucas dores nos ombros. A tarde foi de sol, porém fria, mas os pés começaram a secar.

Era outono, a mata ficando toda colorida, linda.

Meu pacote de telefonia fixa da Verizon terminaria nessa noite e não consegui resolver porque a Verizon não aceita cartão de crédito estrangeiro, me conformei em ficar sem internet por 4 dias.

Parei para almoçar no Cosby Knob Shelter (milha 229.6), perigoso por causa de ursos, fechado para pernoite. Tirei as botas e meias para secar e dei uma boa carga no celular com a placa. Um hiker que tinha me acompanhado no Tri Corner Shelter e tinha visto minha sandália, atribuiu meu trail name:

BATMAN

Foto: Orlandinho Barros

Daí em diante seria uma longa descida até o Davenport Gap Shelter (milha 236.7), abrigo sem bear cable mas com grades.

Cheguei 17:15, dormi com mais 3 pessoas sendo um roncador master.


Dia 23 – 25/10/2017

Roncador fela! Botava a lanterna na cara dele e nada, até que dei umas porradas no chão aí ele parou. Quando despertei tarde, não tinha mais ninguém no abrigo, fazia muito frio, nem tirei a roupa de dormir, apenas joguei o anoraque por cima e iniciei o dia. O abrigo não tinha PRIVY!!! Tinha um toillet area e uma pá!

Parti às 10:25 sem fazer o serviço e com muita vontade. Como tinha uma Grocery a 5.5 milhas (8,85 km), comi todo o biscoito de 2 dias, a comida estava contada mas daria até sexta-feira com um pequeno resupply.

Dia muito nublado e frio. Uma boa e rápida descida até o labirinto de rodovias da I-40. Depois de cruzá-la, ainda tem uma subidona até a Grocery e eu com muita vontade de ir no sanitário.

Bear Farm Hiker Hostel | Foto: https://hikinginthesmokies.wordpress.com

Na Green Corner road (milha 240), subindo um pouco a estrada tem uma mistura de hostel ecológico com uma vendinha que tinha de TUDO, até pão integral, é o Bear Farm Hiker Hostel.

Fui no sanitário, carreguei o celular, conectei via wifi (pois já estava sem sinal da Verizon) e fiz uma boa feira.

Na sequência uma muito longa subida de mais de 700 metros de desnível. Parei em um córrego para almoçar rapidamente. Passei pela torre da FAA e segui descendo até o Groundhog Creek Shelter (milha 247.2), onde cheguei às 17:45.

Lá encontrei o Richard e o Jam hikers que seguiam para o norte também e me ofereceram carona de Hot Springs até Asheville.

Me chapei de pão (finalmente), fiz o tradicional mingau de aveia (oatmeal) na fogueira acesa por Richard pois o gás estava acabando e ainda faltavam 2 dias.

O abrigo tinha bear cable e tinha apenas 1 nível, mas éramos apenas 3.

FALTAVAM SOMENTE 2 DIAS – 26 MILHAS (41,84 km)!!!!


Dia 24 – 26/10/2017

Roaring Fork Shelter | Foto: http://wikitrail.org

Jam roncou muito, meu sono foi picado, mas estava descansado. Muito frio pela manhã, difícil sair do saco de dormir, o fiz bem lentamente. Estava perfeitamente dentro do meu planejamento dos 8 dias!

Mudei a estratégia de wake up por causa do frio: dormi com duas camisas e o fleece, pela manhã vestia o anoraque por cima e andava até sentir calor e desfazer as camadas.

Saí às 9:35. Subidas e descidas passando por locais bem bonitos, volta e meia cruzava com Richard e Jam que partiram na minha frente. No final do dia, terras altas e sem árvores com muitas pessoas passeando – região das Walnut Mountains.

Almocei no Roaring Fork Shelter (milha 255.5) que tinha água longe em um riacho. A tarde foi inesperadamente quente e agradável.

Já próximo ao abrigo Walnut Mountain, encontrei uma macieira carregada, comi 4 maçãs verdes. Cheguei no abrigo Walnut (milha 260.3) às 17:15, que apesar de alto 1278 m, estava razoavelmente quente.

Abrigo pequeno com teto baixo e cheio de ratos. Dormi sozinho no abrigo, várias pessoas dormiram em barracas inclusive Richard e Jam. 20h já estava dormindo.

ÚLTIMA NOITE!!!


Dia 25 – 27/10/2017

Foto: Orlandinho Barros

Noite maravilhosa apesar dos ratos, não fez frio, sozinho e no silêncio das terras altas da Appalachian Trail.

Decidi sair bem cedo sem comer para pegar o correio aberto até as 16:00 em Hot Springs. O plano era socar tudo na mochila e enfrentar o frio, mas nem precisou porque NÃO FAZIA FRIO!

Saí às 6:50 ainda escuro em jejum… muita emoção andar à noite na Appalachian Trail!

Após o nascer do sol, esquentou e troquei de roupas. No meio da manhã parei para comer já na descida, foram 2 milhas (3,21 km) subindo e 11 (17,70 km) descendo até Hot Springs.

Nem almocei, deixei para comer na cidade. Finalizei às 14:30, dia muito ensolarado e temperatura agradável. Comprei o Verizon Card mas não havia sinal na cidade, tive que ligar #611 para carregar. Meu pacote não tinha chegado nos correios.

Hot Springs é uma pequena cidade do Estado da Carolina do Norte, possui alguns restaurantes, correios, pubs e alguns mercados. Não há transporte para sair da cidade, ou pega carona ou contrata.

Contatei Richard para confirmar a carona. Nem terminei o almoço direito, tive que levá-lo porque Jam estava com pressa.

Cheguei em Asheville às 17:00, me hospedei no Town House motel.

FIM

Faria até mais, trilha fácil, basta ter estratégias e estar atento.


Comentários

Os abrigos da Appalachian Trail são bem distribuídos ao longo do percurso permitindo uma boa flexibilidade de estratégia de avanço, eu sempre dormia em abrigo e geralmente parava para almoçar em abrigo também. Havia sanitário compostável geralmente com papel higiênico em abundância em todos os abrigos que pernoitei.

Na maioria, havia bear cable, um sistema de cabos de aço para pendurar comidas e qualquer coisa que possua odor. Também existia fontes de água potável, variando de riachos a nascentes gotejantes. Quase todos os hikers usavam filtro portátil para utilização da água, mas eu bebi água de quase todas as fontes nesses 440 km iniciais e não tive nenhum problema.

Estratégia de avanço: Uma vez definido o objetivo – 300 KM EM 20 DIAS – fiz o planejamento prévio quando defini o que levar, quantidade de resupplys, pontos de dormida, sistema de navegação, base de dados, comunicação, quilometragem total, modelo de registro e sistematização, mitigação de riscos, escape, approach, saída, equipamentos, segurança, repouso, fotografia e lazer depois de tudo isso definido, tracei uma estratégia macro.

Por ser vegetariano, resolvi levar comida suficiente para 16 dias pois não poderia confiar plenamente nos pontos de ressuprimento. Para os demais 4 dias, compraria qualquer coisa comestível, se não encontrasse o que comer, sairia da trilha no 16º dia. Sempre me sentia disposto e com energia, fazia ingestão de alimentos com regularidade, mesmo assim perdi 8 kg por causa do esforço físico.

Refeições:

  • Manhã: fruta in natura ou seca, café orgânico com açúcar mascavo, biscoito com pasta de amendoim e/ou queijo ou pão integral
  • Lanche: barra de cereal (2 por dia)
  • Almoço: meio pacote de refeição desidratada acompanhado de mix de frutas concentradas misturada com água e mel, e chocolate de sobremesa
  • Jantar: mingau de aveia com açúcar mascavo ou mel

Ritmo: iniciaria bem lento por causa do peso inicial da mochila, algo em torno de 8 milhas/dia (12,87 km/dia), progredindo gradualmente;

TODA NOITE deveria avaliar o dia passado, a condição física, o peso da mochila, o dia seguinte (pontos de interesse, distâncias, altimetria, dia da semana, clima) e definir as ações subsequentes RESTRITAS AO PRÓXIMO DIA;

  • As paradas seriam práticas, conjugando hidratação, descanso, fotografia e alimentação se possível;
  • Deveria sempre consultar o guia da ALDHA, minha referência para avanço;
  • Dormir cedo e não caminhar no escuro;
  • Usar o mínimo possível de lanterna;
  • Tomar banho sempre que possível ou utilizar lenços umedecidos;
  • Usar a mesma calça e duas bermudas em revezamento por baixo.
  • Revezar duas camisas.
  • Lavar roupa sempre que possível principalmente onde houvesse infra estrutura

TODAS AS AÇÕES deveriam considerar folga razoável de prazos e métricas

Foto: Orlandinho Barros

Quase todos os abrigos são bem construídos com madeira, possuem 3 paredes com a frente aberta e varanda. Alguns possuem 2 níveis acomodando maior quantidade de pessoas.

Na varanda à frente, uma mesa com bancos rústicos. Sempre havia uma vassoura, uma caixa com livro de registro e canetas. Alguns tinham cordinhas penduradas com dispositivo anti-ratos.

Os abrigos são limpos sem lixo. Os hikers deixam objetos e comida para os demais. Eu sempre catava o pouco de lixo deixado por outros para colocar em lixeiras nos gaps.

Encontrei também vários objetos esquecidos como óculos escuros, bonés, roupas, mosquetões, garrafas de água, etc.

Trilha sempre muito movimentada tanto por section hiker, como day hiker – moradores locais que passeiam na trilha. Encontrei uns 20 thru hiker, a maioria northbounder (iniciando no norte – Maine), fazendo a trilha por períodos distintos, 4, 5 meses, 1 ano até.

Em toda a parte alta da trilha há sinal 4G da Verizon, ou seja, boa parte da trilha. Como os abrigos estão localizados próximo a fontes de água, em locais mais baixos, geralmente não há sinal neles. Verizon é a operadora que tem o melhor sinal na Appalachian Trail.

Todos os hikers que conversei foram muito solícitos e dispostos a ajudar e/ou aprender. O senso de colaboração é marcante e sempre presente. A troca de informação é outro ponto sempre presente, hikers bem equipados, alguns com soluções caseiras e todo tipo de soluções ultralights, minimalistas, tecnológicas.

Os day hikers se mostravam sempre curiosos e admirados com os section hikers, perguntavam quanto tempo, onde comecei, para onde estava indo, qual o peso da mochila, etc. Alguns até ofereciam comida.

Enfim, um universo totalmente encantador e diferente do que encontramos na América Latina. Muita colaboração, respeito e amizade criavam uma sensação de tranquilidade e paz que favorecia o avanço e enriquecia a experiência.

UMA EXPERIÊNCIA INESQUECÍVEL PARA UM LONG DISTANCE HIKER!!!

Orlandinho Barros nasceu em 5/7/1965 na Bahia, é pai de duas filhas, formado em TI, morando em Salvador, atualmente dedicado ao trekking. É Explorador de trilhas desde sempre, fazendo quase todas as trilhas clássicas no Brasil em 11 estados, muitas sozinho. Fez 440 km da Appalachian Trail em 2017 em 25 dias. Abriu 305 km da Trilha inédita Brasil Central conectando Brasília a Alto Paraíso em 2016.

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