Por que mesmo no século XXI o montanhismo ainda adota o obscurantismo?

Desde 1º de janeiro de 2001, toda a população mundial vive no século XXI. A própria expressão de que “vivemos no século XXI, isso não pode acontecer!”, tornou-se o jargão preferido dos profissionais de comunicação, jornalistas comentaristas e de grande parte das pessoas que busca um pouco de inteligência, empatia e conhecimento das pessoas à sua volta. Se formos pesquisar na microesfera do montanhismo (mas você pode chamar de bolha social), veremos que as pessoas que adotaram o esporte como o seu “estilo de vida”, sempre adotam a postura do obscurantismo.

Para quem não está acostumado com o termo, saiba que o obscurantismo é a prática de propositalmente impedir que os fatos ou os detalhes de algum assunto se tornem conhecidos. Atitude que popularmente é conhecida como “esconder debaixo do tapete”. Esta atitude faz parte do modus operandi de vários políticos (não importa alinha ideológica) e parece ter contaminado o resto da população.

No caso de montanhismo e escalada, o exemplo mais clássico é a veiculação de notícia de acidentes e resgates, os quais parecem despertar uma vergonha tão grande, que se acaba manifestando uma fúria desesperada de esconder o que aconteceu, atacar quem o noticiou e, principalmente, preocupar-se com detalhes mínimos para tirar o foco da atenção no principal e relativizar qualquer aprendizado. Pessoas que tem o costume inútil de ficar vociferando a quem noticia um fato, de nada irá mudar a realidade de que o fato aconteceu. Elas têm vergonha da realidade, pois não estão acostumas a saber o que é responsabilidade.

Mas o obscurantismo não se manifesta somente nos acidentes na montanha ou locais de escalada, mas também por grande parte de escaladores e montanhistas possuir uma inexplicável repulsa pela ciência. Ciência esta que, gostem estas pessoas ou não, trouxe todos nós até aqui, em pleno século XXI, com as vacinas, tratamentos médicos, automóveis, internet, etc. Todas estas práticas citadas fazem parte da ciência, a qual nos permite vivenciar o cotidiano de uma maneira muito mais confortável que nossos ancestrais.

Somos um bando de indivíduos dividindo o mesmo espaço?

A busca incessante de montanhistas e escaladores, muitos dos quais travestidos de líderes de suas comunidades locais, parece seguir o obscurantismo como ideal de vida. Atualmente o obscurantismo parece muito mais de fato o estilo de vida destas pessoas, do que de fato incorporar a prática de escalada e montanhismo em suas vidas e objetivos a longo prazo.

Ainda não são conhecidos os motivos de que nos últimos 10 anos, fizeram a população de praticantes de escalada e montanhismo passar a ter repulsa pela ciência, desrespeito ao conhecimento, ojeriza a um novo conceito, desprezo à organização comunitária, revolta à difusão de notícias, apatia diante da destruição do planeta, omissão com o próprio esporte, etc. Mesmo falando a todo momento, com um certo tom romântico, embora vazio, que a prática do montanhismo e escalada seja o seu estilo de vida.

Na esfera de pessoas que praticam montanhismo e escalada, vem demonstrando que possuem apreço em ficar discutindo o passado, especialmente de fatos que já estão consolidados. Enquanto deveríamos discutir o futuro, no montanhismo e na escalada, ainda vemos movimentos anti-vacinas, negação das mudanças no clima, terraplanistas. Mesmo estando em pleno século XXI, cada vez mais pessoas confundem entre o que é opinião e o que é fato. Mas, infelizmente para quem desejava ver as práticas de escalada e montanhismo prosperar em reconhecimento e, por que não, divulgação, se deparou com algo impensável: O obscurantismo do século XXI é um fenômeno global.

Mas por que este lamento? Porque a partir do momento em que as pessoas se sentem à vontade para desconectar suas opiniões dos fatos objetivos, temos um problema grave. Estamos caminhando a passos largos para deixarmos de ser uma comunidade de montanhistas e escaladores, para sermos um bando de indivíduos dividindo o mesmo espaço. E isso é ruim! Especialmente para uma prática esportiva que tende a ser vista não como uma atividade marginal (que aliás deixou de ser, mas ainda há quem insista em repetir mil vezes para que volte a ser verdade), mas como uma atividade “menor” e “sem importância”.

Ao longo do progresso realizado pela humanidade durante o século XX, fomos nos esquecendo do que era a vida antes que a ciência entrasse de maneira onipresente no nosso cotidiano. Adotando obscurantismo esquecemos até mesmo de de como o montanhismo foi desenvolvido e a escalada consolidada.

Um outro tema adorado pela turma do “mas essa é a minha opinião”, é o total menosprezo da importância da representatividade de montanhistas e escaladores. Todos os dias é visto que quando não se concorda com algo, seja ele clube, associação, comunidade ou sociedade, não se argumenta, apenas se discute rispidamente e guarda-se rancor. Não há diálogo e, consequentemente, sem diálogo perde-se uma das qualidades raras em pleno século XXI: a capacidade de chegar a um consenso comum. Esta incapacidade de escaladores e montanhistas a chegar ao consenso comum, é o que faz com que a prática da atividade vá ficando cada vez mais perdida em sua essência, que é a evolução e a união (mesmo com ideologias contrárias) entre os praticantes.

Esta incapacidade de chegar ao consenso comum é o que faz com que pessoas se afastem do esporte, não renovar a geração de praticantes, locais acabem proibindo da presença de escaladores, agarras acabem sendo cavadas na rocha, pequenas máfias de guias sejam formadas em parques nacionais, academias de escalada acabem fechando, e assim por diante. Exemplos não faltam, infelizmente.

Parafraseando o escritor Monteiro Lobato: os montanhistas não são assim, eles estão assim. O problema é saber até quando e em como reverter o quadro com tantas pessoas com o ego e a soberba tão acima de sua mediana inteligência.

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