A história da amarração de nós

Você conhece a história dos nós? O ato de fazer um nó é um costume humano dos mais antigos. É curioso como algo que foi inventado há mais de 15 mil anos ainda pode fornecer soluções práticas, além de prazer, para um mundo tecnológico. Mas o que é um nó?

Um nó é uma fixação feita amarrando um pedaço de corda, cordão ou barbante. Essa vinculação pode ser feita de um número infinito de maneiras diferentes e cada maneira pode ter um propósito e força diferentes. Cada propósito permitiu que as pessoas desenvolvessem mais invenções e técnicas para avançar na maneira como fazemos as coisas.

Com o tempo, centenas de nós foram inventados, desde nós simples que levam menos de um segundo para serem feitos, até nós mais complexos e exigem instruções passo a passo. O nó mais simples e mais usado é o nó overhand (conhecido também como nó de mão). Já o nó mais complicado é difícil apontar apenas um.

Onde aprender sobre nós

A história dos nós

Clifford Warren Ashley

Antigamente a tecnologia de nós era passada pelos mestres aos aprendizes. Não havia um catálogo, muito menos um nome amplamente conhecido. Por exemplo, o nó de amarrar sapatos é também conhecido como nó do arco.

Foi somente no século XX, mais precisamente em 1944 pelo norte-americano Clifford Warren Ashley, que houve uma fonte de informação amplamente divulgada. Quando jovem, Ashley tinha muito interesse em arte e ainda no ensino médio foi estudar em uma escola de artes em Boston, EUA.

A partir daí começou a seguir o ofício de ilustrador, trabalhando com ilustrações de livros e revistas do início do século XX. Mas Ashley tinha conhecimento e interesse na caça de baleias cachalotes.

No ano de 1904, foi contratado por uma revista para escrever e ilustrar um artigo de duas partes sobre a caça às baleias. Este projeto exigiu que ele se familiarizasse ainda mais com o tema, chegando a embarcar nas atividades de caça.

Ao longo da vida foi tornando-se um ilustrador renomado, assim como seus artigos em revistas da época. Mas decidiu realizar em 1933 algo que tornou-se sua obra prima e que o imortalizou: The Ashley Book of Knots.

A incursão inicial de Ashley como autor de livro sobre nós começou com a publicação em 1925 de The Sailor and His Knots, na Sea Stories Magazine. Os artigos já tinham elementos estilísticos que Ashley usaria mais tarde na sua obra-prima.

Esses elementos incluíam símbolos adjacentes a algumas ilustrações para indicar as características ou deficiências de nós específicos. Em 1935, Cyrus Day, também autor de nós e correspondente de Ashley, citou a série de seis artigos em seu próprio trabalho como “… a melhor discussão sobre nós disponível em inglês, mas esgotada e difícil de obter”.

A história dos nós

Ashley também escreveu The Yankee Whaler (1926) e The Whaleships of New Bedford (1929), que são estudos sobre a caça de cachalotes em New England no final do século XVIII e início do século XIX.

Clifford completou 11 anos de trabalho em 1944 e publicou seu livro, o qual é considerado a obra definitiva sobre o assunto e cataloga nada menos que 3.800 nós. Além disso elaborou também um sistema de numeração para identificar cada um.

Ele foi o primeiro autor a publicar sobre assunto e a também criar vários nós, incluindo o que hoje é chamado de Ashley’s stopper knot (conhecido como ‘nó Ashley’ e catalogado como #526) desenvolvido por volta de 1910 e Ashley’s bend (catalogado como #1452) por volta de 1930.

Pela sua qualidade indiscutível, o livro nunca saiu de linha.

Hoje quando novos nós são inventados eles são examinados pela International Guild of Knot Tyers (IGKT), uma associação mundial para pessoas interessadas em nós e atar nós, criada em 1982. Se a IGKT der a aprovação, o novo nó é adicionado à obra de Clifford Warren Ashley.

A história dos nós

A história dos nós

Estima-se que os fósseis mais antigos de cordas e nós tenham entre 15.000 e 17.000 anos. Acredita-se que os nós sejam ainda mais antigos, pois é possível que tenham sido usados ​​ao lado de algumas das primeiras ferramentas de pedra.

Mas se formos pensar filosoficamente, as cordas são essencialmente inúteis se não pensarmos em fazer nós. Elas precisam estar amarrados a algo (seja um objeto, outra corda ou a si mesmas) e, portanto, precisam de nós para ‘funcionar’.

Uma comparação simples seria que se as cordas fossem consideradas o hardware, os nós seriam o software.

Os primeiros fragmentos fossilizados de cordas e nós datam de 15.000 a 17.000 anos, o que torna a evidência dos nós muito mais antiga que a do machado (6.000 a.C.) ou da roda (5.000 a.C.). No entanto, com base em evidências como objetos perfurados, marcas de uso em artefatos, agulhas de ossos e representações em arte, arqueólogos acreditam que o uso de cordas e nós data entre 250.000 e 2.500.000 anos.

Portanto, o uso de nós pode até ser anterior ao uso do fogo (400.000 a.C.) e coincidir com as primeiras ferramentas da idade da pedra lascada. É interessante notar que os macacos modernos têm algumas habilidades muito elementares em amarrar e trançar cordas, o que sugere intuitivamente que o início da amarração de nós pode ter precedido o Homo habilis (primeira forma humana que existiu há 2,2 a 1,6 milhões de anos).

A história dos nós

Para que se identifique na linha do tempo, o Homo erectus evoluiu há cerca de dois milhões de anos e foi a primeira espécie humana a caminhar erguida sobre os dois pés e soube dominar o fogo. “Pouco” depois foi o Homem de Neandertal ou Neandertal na Europa e no Médio Oriente até quando há 315 mil anos atrás apareceu o Homem Anatomicamente Moderno (Homo sapiens). Todos, em teoria, já saberiam a intuição de fazer nós.

Poucos percebem a importância que os nós e as cordas tiveram na história da humanidade. Repare que eles nem sequer são mencionados em livros sobre a história da tecnologia. Lembrando que é difícil encontrar qualquer tecnologia importante desenvolvida nos últimos 250.000 anos que não tenha, de alguma forma, feito uso de cordas e nós.

Isso porque, a partir dos tempos pré-históricos, os nós foram usados ​​para caçar, puxar, prender, amarrar, carregar, levantar e escalar. Alguns exemplos iniciais de suas aplicações são redes de pesca, armadilhas de caça, amarrar pedras a paus para fazer lanças e arpões, construir arcos, construir abrigos, fazer cestas, amarrar roupas, amarrar animais (e pessoas), arrear cavalos e bois a carroças e construir de jangadas.

Portanto, dentro da história da humanidade, as cordas e nós foram desenvolvidos “recentemente”, no que chamamos idade da pedra lascada (13.000 a.C). Os nós existem desde o tempo em que os humanos usaram pela primeira vez trepadeiras e fibras semelhantes a cordas para ligar cabeças de pedra à madeira em machados primitivos.

A história dos nós

Os nós também eram usados ​​na confecção de redes e armadilhas, mas a elaboração de nós se tornou verdadeiramente sofisticada apenas quando começou a ser usada nas cordas, ou cordames, que controlavam as velas das primeiras caravelas.

Com o surgimento de uma civilização mais moderna, ampliou-se o engenho na aplicação de cordas e nós, utilizados para o transporte de barcos de canal, para arrastar pedras pesadas ao longo de rampas e para a construção de grandes edificações (feitos primeiramente pelos antigos egípcios há cerca de 5 mil anos), para o desenvolvimento de guindastes, dispositivos de elevação e catapultas (iniciados pelos gregos e romanos), construção de enormes pontes de corda e pontes suspensas por cordas (que se originaram na China) e surgiram as caravelas e muito mais.

A história dos nós

Cordas e nós também eram usados ​​como dispositivos de registro, mais conhecidos na forma do quipu, ou quipo, peruano. Quipu era um instrumento utilizado para comunicação, mas também como registro contábil e como registros memotécnicos entre os Incas.

A civilização Inca (1400 – 1530) fez uso extensivo deles, que consiste em um longo cordão no qual pendem cordas mais finas, às vezes apenas algumas, às vezes muitas centenas. Esses cordões pendentes são amarrados em uma série de pequenos nós.

O quipu provavelmente foi desenvolvido em tempos pré-incas, porque dispositivos de gravação de nós menos elaborados já apareceram em sociedades primitivas na China e em outros lugares.

Cada profissão ou ofício adotava os nós mais adequados às suas necessidades, e a amarração fazia parte de seu cotidiano. No mundo europeu a confecção de nós tornou-se domínio cultural dos marinheiros, que historicamente mostraram grande habilidade e engenhosidade na elaboração de vários tipos para diferentes propósitos.

Os nós ainda são muito usados ​​no dia a dia, e são dependentes de campistas e caminhantes, montanhistas, pescadores e tecelões, entre outros, ou mesmo por uma pessoa que amarra um cadarço ou um pacote. Mas apenas escoteiros, escaladores e marinheiros procuram adquirir algum conhecimento extra dessa tecnologia outrora imperativa.

A história dos nós

Há duas razões para o fim do conhecimento mais difundido a respeito de amarração. Em primeiro lugar, muitas tecnologias que antes dependiam de cordas e nós desapareceram: são principalmente as caravelas, mas também paramos de nos locomover por barcos em canais, de usar trens de carga ou catapultas, bem como centenas de ferramentas e dispositivos mais mundanos que antes faziam uso de cordas.

Novos materiais desenvolvidos no século XX não são muito compatíveis com nós. Materiais como fios de aço, fita adesiva e cintas plásticas, mas o mesmo vale para as cordas de material sintético: a maioria tem uma “capacidade de segurar nós” limitada se comparada com os materiais usados antigamente.

Aliás é por isso que os cadarços ainda são feitos de fibras naturais, para que os nós possam ser feitos. Os nós foram assim substituídos por uma série de outras tecnologias de fixação, feitas de plástico, aço ou alumínio

O que caracteriza um bom nó?

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O principais requisito de um bom nó é que ele não escorregue quando feito e que seja amarrado e desatado sem dificuldade. Existem muitas maneiras diferentes de prender uma corda ou cordão a outro ou de prender uma corda a uma barra, anel ou outro objeto.

No sentido estrito do termo, um nó é um botão feito em uma corda, girando a corda sobre si mesma através de um laço, como em um nó overhand. O princípio governante de todos os nós é que a tensão que o puxa atraia seus constituintes e o atrito resultante permita que o nó “segure”.

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