Vigorexia: O que é este transtorno cada vez mais comum em escaladores

Não é segredo para ninguém que de cada 10 escaladores, 8 são preocupados com o peso. Entretanto, em um número talvez até maior, existe um volume de praticantes de escalada que estão com uma constante insatisfação com o corpo. Para “resolver” este “problema”, dedicam-se a fazer exercícios à exaustão sem qualquer orientação ou embasamento científico. Este tipo de doença psicológica possui um termo bem desconhecido: Vigorexia (também conhecida como Bigorexia). A Vigorexia é um tipo de transtorno psicológico, que é muito similar à anorexia pois esta associado a uma intensa distorção da autoimagem.

Pessoas que abdicam de ir a uma nutricionista e optam por “dietas malucas “, aliadas a treinamentos espartanos (muitas vezes sequer orientados por profissionais de educação física), infelizmente, fazem parte de grande parte dos hábitos dos praticantes de escalada.

A vigorexia foi classificada inicialmente como transtorno obsessivo compulsivo por Harrison Graham Pope Jr, o qual intitulou Síndrome de Adônis. O professor de Harvard também utilizou o termo vigorexia, para remeter-se aos mesmos sintomas da anorexia. O vínculo com a anorexia, deve-se às similaridades de sintomas apresentados pelos pacientes de atividades físicas com anorexia nervosa. Umas das poucas diferenças acentuadas em relação aos pacientes de anorexia, é que os vigoréxicos buscam incessante do vigor físico a qualquer custo.

O objetivo já não é o desempenho, pois o problema está na autoimagem do atleta. São alguns dos sintomas de vigorexia:

  • Uso de anabolizantes
  • Treinamento excessivo (overtraining e overuse)
  • Insatisfação persistente com a aparência

A doença é reconhecida desde setembro de 2011 pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e afeta muitos atletas, profissionais ou amadores. De acordo com alguns estudos publicados recentemente, a escalada possui vários casos deste distúrbio. No congresso internacional de psicologia do esporte, realizado na França em 2005, foram reportados vários casos entre escaladores do país co acentuada vigorexia.

Há casos relatados de atletas que tomam medicamentos veterinários para recuperação de lesões (como o famoso “joint repair”), aceleração de tratamento de fraturas com anabolizantes e outros tipos de automedicações que põe em risco a vida da pessoa. Não raramente é possível ver em listas de whatsapp tanto pessoas procurando soluções mágicas, como os “especialistas” receitando livremente remédios com vários efeitos colaterais.

Vício inocente?

Por definição, esse vício é caracterizado pela “necessidade compulsiva de praticar regularmente e intensivamente uma a várias atividades físicas para obter recompensas imediatas. A qualquer custo, mesmo que existam consequências negativas a longo prazo na saúde física, psicológica e social “. Geralmente, o esportista vigorexo busca as sensações de bem-estar causadas pela liberação de endorfinas.

Muitas vezes este tipo de distúrbio é atribuído a atletas de musculação ou Crossfit, que buscam um vigor físico diferenciado dos demais. Mas o contrário da crença popular, a vigorexia não afeta apenas estes praticantes, mas também os escaladores (profissionais ou não). Qualquer pessoa conhece ao menos um montanhista ou escalador, que treinam mais do que recomenda a razão. Sua dedicação está além da disciplina de um atleta, pois visivelmente está explícito a necessidade visceral de treinar. Quem sofre deste transtorno sente-se culpado a todo tempo, de não puder ir ao ginásio e não fazer uma sessão de treino de alta intensidade.

A fronteira entre motivação e vigorexia é muito pequena e quase imperceptível. Um dos primeiros sintomas é o overtraining. Isso porque a pessoa com este distúrbio, possui uma exacerbada obsessão e, sem qualquer moderação, quer pular etapas de sua evolução como atleta. Uma pessoa com vigorexia possui lesões recorrentes que geram mais consequências psicológicas a médio e longo prazo.

Como identificar?

Da mesma maneira que uma pessoa com anorexia necessita de ajuda, especialmente dos amigos e pessoas que a cerca, alguém com vigorexia também necessita. Por isso que até mesmo proprietários de locais para treinamento de escalada devem estar atentos a este tipo de desvio de conduta.

Para identificar alguém que está no limiar da dedicação e vigorexia:

  • Insatisfação: O escalador vigoréxico está convencido de que não está forte o suficiente e sempre está com a sensação latente de que não treinou o suficiente. Por isso, o vigoréxico sempre tentará fazer algo mais, mesmo que seu treino tenha acabado.
  • Negação: O escalador mesmo com evidentes sinais de fadiga, apresenta irritabilidade, isolamento e uma constante negação da realidade. Geralmente os métodos científicos que não provoquem exaustão ou o leve ao limite são rechaçados. Em geral uma pessoa assim também acredita que é sabe mais sobre treinamento que as outras, além de insistir em teorias absurdas e irreais a respeito de seu corpo e treinamentos.
  • Isolamento social: A vida social e familiar de uma pessoa vigoréxica é colocada de lado deliberadamente. Gradualmente a sua atividade física tomará maior importância em sua vida. A necessidade de treinar toma o lugar desproporcional de outras partes de sua vida.
  • Tristeza: A cada parada obrigatória, por lesão ou qualquer outro motivo, o escalador começa a alterar humores. Apresenta em curto espaço de tempo euforia e depressão.

O que fazer?

Fisiculturista Eleonora Dobrinina | Foto: Instagram / @ellaifbbpronewphysiquelook

A pessoa que possui vigorexia deve ser encarada da mesma maneira que um dependente químico de álcool, cigarro, remédios, drogas, etc. Os tratamentos em geral são feitos por psiquiatras e psicólogos. O objetivo é conscientizar a pessoa do real lugar que a atividade possui em sua vida.

Portanto, da mesma maneira que outros distúrbios psicológicos existentes, a melhor coisa é encaminhar a pessoa a alguém especializado no acompanhamento deste tipo de doença.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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