Tipos de parada e manobras na escalada em rocha

Aviso importante: Vamos começar lembrando que este é um artigo produzido para difundir alguns conhecimentos e não ensinar ninguém a escalar. Trata-se de um artigo técnico pensado para pessoas que já praticam o alpinismo. Se você deseja aprender estes procedimentos procure sempre ajuda de um profissional e não tente fazer sozinho, pois estará correndo risco de vida.

Neste artigo falaremos dos tipos de paradas e algumas manobras realizadas nela.

É nos locais de escalada que mais acontecem erros. Muitos custam muito caro, custando a vida da pessoa e a imagem do esporte. É comum encontrar escaladores sem nenhum conhecimento de procedimentos seguros ou os que teimam em fazer o errado ou nunca aprenderam o certo no que diz respeito as paradas.

Uma pequena introdução

As ditas paradas são os finais de uma enviada na escalada, pensadas para receber cargas estáticas e não dinâmicas e muito menos de impacto. Ou seja, o escalador deve ficar totalmente apoiado nela.

Uma parada não foi pensada para alguém ficar somente amarrado para cair e ela segurar quem o fizer. Isso seria carga dinâmica e, ao contrário do que muitos pensam, não foi para isso que foi instalada.

  • Auto seguro: Material preso a cadeirinha que serve para vários procedimentos, pode ser construído com cintas abertas, cintas fechadas, “Daisy chain”, “mult chain”, cordeletes fabricados propriamente para isso. Improvisar este equipamento com outros materiais que não este, já demonstra falta de inteligência.

Como deve ser o nó para unir o auto-seguro com a cadeirinha?

É muito comum ver pessoas usando o nó “boca de lobo” para isso. Este nó não é muito indicado, pois estrangula muito a cadeirinha. No caso de uma queda, pode acontecer de romper a cinta devido ao atrito dela com os elos da cadeirinha.

Portanto, recomendo que seja usado este ao lado que a amarração da figura acima, pois fica bem mais livre e confiável

Principais erros

Um dos principais erros é utilizar somente um ponto de ancoragem da parada. O que deve ser feito para utilizar os dois, é passar um mosquetão em um dos pontos e se prender utilizando a corda e um nó volta do fiel.

Prender seu auto-seguro no outro ponto. A ordem deste procedimento pode ser invertida. Pronto! Você estará em dois pontos agora e poderá avaliar as condições dos pontos e se tudo tiver certo e seguir com a montagem da parada. (observe o procedimento na figura acima)

Obs. Eu particularmente utilizo sempre um auto-seguro chamado “CowsTail” que utilizamos no alpinismo industrial (acesso por corda, anexo 1 NR35) . Com ele você sempre tem os dois auto-seguros bem fáceis de serem instalados. Porém deve ser feito o nó fiel na corda, pois muitas manobras de paradas requerem que desconecte a ponta da corda de sua cadeirinha. Se neste momento ela não estiver amarrada, pode cair. Você ficará preso na parada. Parece improvável, mas já vi isso acontecer algumas vezes.

 

O segundo na verdade é um “quase erro”. Ao montar uma parada é comum ver um mosquetão equalizado e duas ou mais pessoas ligadas neste mosquetão. Aí lembramos da primeira recomendação, que é ficar totalmente apoiado na parada a fim de não produzir esforços dinâmicos nem de impacto.

Sendo assim, neste procedimento de todos presos em um mosquetão, pode produzir grandes esforços se todos caírem ao mesmo tempo e cada um puxar o mosquetão para um lado. Nesta hipótese, seria possível que o mosquetão se quebre pois a resistência na transversal do mosquetão é bem menor.

Para contornar esta situação, colocamos abaixo alguns tipos de paradas que podem ser utilizadas por mais de uma pessoa com segurança.

O terceiro erro mais comum é abandonar a via no meio de maneira errada, ficando em apenas um ponto de ancoragem. Desta maneira os escaladores correm sério risco de acidente, colocando não somente a sua, mas a de quem estivar abaixo deles em risco.

Se neste momento acontece algo com este único ponto, é queda na certa como já aconteceu várias vezes em vários relatos de acidentes.

Os tipos de parada

Elas podem ser em série ou em paralelo.

Em série a parada fica totalmente apoiada em um dos pontos e o outro serve como “backup”. Deve-se tomar cuidado ao montar neste sistema, pois devemos ter total conhecimento sobre os esforços que resistem os pontos de ancoragem e se foram bem instalados.

O mais recomendado é que se trabalhe em paralelo, dividindo os esforços nos dois pontos e dependendo do ângulo entre eles mitigando estas forças, trataremos disso mais adiante.

Parada fixa: É a parada mais utilizada e mais segura.

Com ela se distribui corretamente as forças e esta seguro caso um dos pontos se rompa.

Semimóvel: Este tipo de parada permite que a pessoa que está ancorado ou escalando se mova um pouco para os lados a fim de evitar quedas em pêndulo, porém se um dos pontos romper ainda assim é segura.

Lembre-se não é lendo este artigo que estará apto a realizar estes procedimentos, não arrisque a vida procure um profissional para aprender.

Móvel: A mais comum no Brasil e com maior risco, pois muita coisa pode dar errado, é recomendada apenas em ambientes bem controlados e de preferência para ser utilizada com “top rope” e com cintas pequenas, vamos aos problemas dela:

1- Se um dos pontos de ancoragem se romper ela irá se esticar e sofrer esforços dinâmicos fortíssimos e pode arrebentar cinta, quebrar mosquetão etc. Uma queda de 100 kg em um metro no fator 2 produz algo em torno de 14 kN.

2- Se uma das pontas quebrar um mosquetão pode bater no outro e estourar os dois e provocar uma queda.

3- Seu movimento lateral é muito grande o que pode se tornar um problema, pois o pêndulo feito se for muito grande irá provocar uma solicitação fortíssima nas ancoragens.

Além disso o recomendado para paradas em escaladas tradicionais ou gelo é que elas sejam feitas com cordeletes de ao menos 6 mm e de “kevlar” ou “Dyneema”.

Materiais bem mais resistentes que as cintas e mais fácil de utilizar partindo do princípio que podemos fazer varias manobras com um pedaço de coordelete e nem tudo é possível com um anel de cinta fechado.

Angulo das ancoragens e seus esforços

Jamais em hipótese alguma façam o triângulo da morte, com ele os esforços nos pontos de ancoragem são enormes e em vetores (direção) errados os quais as chapeletas não foram feitas para suportar.

Manobras nas paradas

Abordaremos somente as mais comuns que consistem em:

Chegada na parada, rapel de abandono da parada e do meio da via.

  • 1 – Chegada na parada:
    • a – Se prender nos dois pontos (primeiro com a própria corda, conector mosquetão com trava ou costura e o nó volta do fiel, no outro ponto com auto seguro)
    • b – Avisar o parceiro que está conectado a parada já (gritar ou falar no rádio “to na minha”)
    • c – Analisar a integridade destes pontos
    • d – Montar a parada equalizada ou em série com “backup” se tiver somente os pontos, quando for com corrente basta utilizar os elos.
    • e – Se prender na parada montada
    • f – Avisar o parceiro de escalada que está montada
  • 2- Abandono de via com rapel da parada:
    • a – Repetir procedimento acima “chegada na parada”
    • b – Se conectar a parada já montada através do loop da cadeirinha e deixar o auto seguro em um dos pontos como backup para um possível erro
    • c – Amarrar a corda em um dos conectores (mosquetão) com o nó volta do fiel.
    • d – Desamarrar a corda da cadeirinha
    • e – Passar a corda pelos dois pontos de ancoragem da parada
    • f – Fazer nó na ponta da corda
    • g – Correr a corda até chegar o meio
    • h – Jogar as pontas para baixo avisando antes (gritar “corda”)
    • i – Conectar o descensor na corda
    • j – Instalar o backup ( nó prussik ou algum equipamento )
    • k – Descer sem deixar a corda correr na mão, é melhor ir soltando de pouco em pouco assim não provoca muitos esforços nos pontos de ancoragem.
  • 3 – Abandonar a via no meio: (procedimento que mais causa acidentes)
    • Vide acidente da ana chata
    • a – Instalar malha rápida, de no mínimo 6 mm e certificada, no ponto de ancoragem mais próximo que estiver, por baixo da costura.
    • b – Passar a corda por dentro da malha rápida.
    • c – Retirar a costura
    • d – Pedir para quem estiver fazendo a segurança descer um pouco.
    • e – Repetir as operações “a” e “b” no ponto diretamente abaixo.
    • f – Pronto você estará em dois pontos e pode ser baixado em total segurança, cada malha rápida custa R$ 10,00, portanto não arrisque sua vida por pouco dinheiro e não relute em abandonar as malhas pode sair muito caro e já existem diversos relatos de acidentes ate fatais por não fazerem o procedimento correto ou terem dó de abandonar os equipamentos.

Na segunda proteção você pode optar por instalar somente um cordelete de no mínimo 6 mm passando pela chapeleta e pela corda, deixe bem solto pois ele só será utilizado caso aconteça algo com a ancoragem acima. Feito isso o que utilizará para abandonar corretamente uma via no meio será um pedaço de cordelete e uma malha rápida

Bibliografia

  • Catalogo PETZL
  • Procedimentos Guida Alpino
  • Manuais de equipamentos de trabalho em altura
  • Vetores E Geometria Analítica: Teoria E Exercícios, Editora: Lcte Autor: Ana Célia Da Costa Loreto
  • Manual CAI-ALPINISMO_SU_GHIACCIO_E_MISTO.

Alexandre “Francês” Gazinhato é paulistano, Técnico em Segurança do Trabalho, Jornalista, Alpinista Industrial IRATA, escalador esportivo e membro do Clube Alpino Italiano e Gruppo Speleologico de Marche da Itália.

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