Senso comum e boas práticas de segurança no montanhismo : Um ensaio sobre uma ascensão nos Alpes suíços

Senso comum e boas práticas de segurança no montanhismo existem por um motivo: para te manter vivo. Por mais excitante que seja realizar atos imprudentes, colocar sua vida em risco ou dos que estão a sua volta nunca será bem visto.

Eu sempre me considerei uma pessoa um pouco paranoica sobre segurança. Verifico tudo mais de duas vezes, na parada faço o máximo possível de redundância, sempre tenho um backup e no rapel paro as vezes só para verificar se todos os mosquetões estão travados ou se não afrouxaram.

Foto : Marcos Ramos

Talvez o fato de ter medo de altura, que demorou precisamente um ano para conseguir controla-lo, me faz ser assim. Pois se não me sinto seguro, não faço. Mas tenho que admitir que, foram nas dificuldades que pude aprender mais. E que também, para estar preparado para tais momentos, precisamos treinar.

Lembro-me que no início, eu praticava muito rapel na ponte Sumaré, em São Paulo. Criávamos um ambiente, seguro, que simulava uma situação de emergência, como resgatar um colega inconsciente, pular um nó na corda, entre outros.

Poder criar ambientes assim para melhorar suas habilidades não é apenas uma boa pratica, mas acredito ser necessário. E no montanhismo e escalada não é diferente. Muitas pessoas dão seus primeiros passos em parques, pois além de ter uma estrutura, eles sabem que você está lá. E na pior das hipóteses, se você desaparecer, eles irão procurar por você ou acionar as autoridades responsáveis.

A oportunidade faz o ladrão

Estava a trabalho na Alemanha e aproveitando os finais de semana para conhecer a Europa. Meu próximo destino era Zurique, na Suíça. Meu plano era conhecer a cidade, os chocolates e o famoso fondue.

A cidade era incrível, porém pequena. No final da tarde de sábado, já havia visto tudo que queria e fui até a academia de escalada para treinar. Quase no final do treino, ouvi duas escaladoras combinando de ir conhecer uma montanha do Alpes que era perto da cidade e aquilo ficou em minha cabeça.

Foto : Marcos Ramos

Embora conhecer os Alpes suíços era um sonho, não estava no meu planejamento. Era apenas um final de semana e não dava para incluir. Mas mesmo assim resolvi pesquisar.

Monte Titlis (3.238 m) era seu nome. Localizado no vilarejo de Engelberg à 1 hora e 20 minutos de trem. Suas fotos eram majestosas. É utilizada como estação de esqui com uma excelente estrutura. Para subir, você pode usar uma gondola giratória com visão 360. Só existem duas destas no mundo.

Não demorou muito para eu começar a pesquisar se era possível escalar o Monte Titlis até o cume. Mas eu encontrava muitas informações divergentes. Alguns falavam que era fácil no verão (era primavera), outros que a montanha não era mais frequentada para este motivo.

Até encontrei uma via de escalada esportiva, a “last exit titlis” : 500 metros em 13 cordadas com crux em 8b.

Foto : Marcos Ramos

Foi então que percebi que nunca havia escalado uma montanha sem uma rota definida ou planejada antes. E se algum dia precisasse usar minhas habilidades de navegação e de encontrar rotas em montanha? Chegar ao topo apenas com uma bússola e um destino naquele ambiente que era “controlado” poderia ser um ótimo treino.

Mas eu não estava preparado. Não tinha crampons, piqueta e muito menos roupa apropriada. Seria muita irresponsabilidade e imprudente. Mas eu tinha que fazer isto.

Próximo destino: Monte Titlis

Acordei de madrugada para ir à estação central e pegar o trem. Primeiro para Lucerna, depois para Engelberg. O caminho para Engelberg é indescritível. Campos, montanhas e cidades lindas. Parecia cenário de filme.

Ao chegar em Engelberg, me dirigi diretamente à base da montanha. Tentei fazer uma análise visual para ver se tinha como enxergar um caminho ou se pudesse localizar possíveis perigos. Era muito grande, e meus olhos não puderam me ajudar naquele momento.

E comecei a subir.

Foto : Marcos Ramos

No começo foi bem tranquilo, havia quase um caminho em ziguezague em direção a estação após a entrada. Não demorou muito para eu chegar na neve. E foi aí que a aventura começou.

Nos primeiros passos comecei a perceber o quanto era escorregadio usar um tênis normal. Cheguei a quase cair algumas vezes. Então comecei a andar com mais precaução, pois não queria descer rolando. E depois de uns 20 minutos, foi quando a dificuldade aumentou.

Era uma neve nova, de início de manhã, portanto fofa e meus pés afundavam. E afundavam muito. Como estava apenas de calça jeans, isto atrapalhou um pouco. Mas como a neve é seca, era só dar umas batidas nela que saia tudo.

Não demorou para eu começar a pensar: “Por que fui ter esta ideia”. Mas acho é que normal. Sempre me pergunto quando faço algo desafiador.

Foto : Marcos Ramos

Chegando perto do cume, veio o verdadeiro desafio. Era bem íngreme e técnico. O fato de não ter uma piqueta abalou um pouco o psicológico. Mas fui com calma. Confesso que alguns momentos cheguei até a “engatinhar”, pois estava usando as mãos como um improviso. A neve estava quase nos meus joelhos, dificultando a progressão.

Após um pequeno trecho de pouca visibilidade e rochas pontudas que me pareciam um labirinto, encontrei uma neve batida e dura, era a pista de esqui.  Estava bem mais fácil subir e já dava para ver o cume do Monte Titlis e o cume da montanha menor ao lado, que ficava a estação de esqui.

Vi um homem sair da estação em um trator enorme, provavelmente para preparar as pistas. Quando ele me viu veio falar comigo:

– Como você chegou aqui. A estação ainda está fechada.

– Vim subindo desde de baixo. Estou indo para o cume.

– Você é louco? Não é por este lado que as pessoas sobem. Se tivesse alguém esquiando você poderia ter causado um acidente.

– Desculpe, não era minha intenção passar pista.

O trecho da pista era pequeno. Mas foi bom para poder descansar. E em apenas 15 minutos eu já chegava ao cume. Era minha primeira ascensão nos alpes e primeira sem conhecimento prévio do caminho. Após alguns minutos contemplando o topo da região, vi as pessoas começando a entrar nas pistas olhando para cima e perguntando o que eu estava fazendo no topo.

E valeu a pena…

Após tirar algumas fotos, desci para o cume da montanha menor para a estação de esqui. Tirei um tempo para almoçar no restaurante, admirar um pouco mais a paisagem para depois descer a montanha na famosa gondola.

Foi arriscado o que eu fiz. E geralmente não tomo atitudes assim. Mas as vezes precisamos nos arriscar para poder viver aventuras. Embora não estivesse com equipamentos, pelo menos estava com o meu SPOT, única razão para eu fazer aventuras assim. E posso dizer que aprendi muito, principalmente a não escalar sem estar preparado. E este era o intuito. Nunca sabemos quando entraremos em situações de risco. E a única forma de nos preparar, é treinando.

Sobre o Autor

Marcos Ramos

Marcos Ramos

Engenheiro Líder de software e mochileiro de alma. Aproveita suas viagens a trabalho para curtir as montanhas. Já escalou na Argentina, Perú, Mexico, USA, Alemanha, Suiça e Tailândia. Mochilou em 18 países por 236 cidades. E ainda contando…

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