Por que a força e resistência se perdem tão rápido na escalada?

Seja por qualquer razão, a vida o obriga a parar de escalar por um tempo. São alguns dias, talvez semanas, mas que podem chegar a meses. A primeira coisa que passa na cabeça de um escalador é que todo o trabalho de resistência para vias que estava treinando vai evaporar. Tudo o que conquistou nos meses de duro treinamento, vai desintegrar-se com o vento e, como todos pensam, imaginará que te custará o mesmo tempo para recuperar tudo novamente. Pois saiba que a realidade não é tão assim como se pintam os “entendidos”. (mas que não possuem formação em nada).

Em outros artigos que escrevi neste espaço, mencionei que a força dos músculos depende de fibras musculares diferentes. A hipertrofia de cada uma deles, fará com que o escalador (a) melhore. As fibras de contração lenta são as mais usadas no dia a dia e, por isso mesmo, sua atrofia será mais lenta. As fibras rápidas são usadas para grandes cargas, por isso no dia a dia, são pouco usadas e se atrofiam rapidamente ao deixar de treinar e escalar.

Quanto está escalando e/ou treinando, necessita adquirir força de pressão. Uma carga adequada de treinamento, gera hipertrofia e mantém ativas as fibras rápidas, que são as que te darão força necessária para o crux. A hipertrofia destas fibras também produz uma melhor qualidade metabólica de contração. Uma das coisas que se perdem amis rápido é a qualidade metabólica adquirida nas fibras rápidas. As quedas de fosfocreatina também conhecida como creatina fosfato ou PCr), por exemplo, somente aparecem de 6 10 dias do início do repouso. Ou seja, sua fibra muscular seguirá com uma boa qualidade de hipertrofia, mas não terá uma boa qualidade energética para manter a contração.

Por isso que na semana parado, antes de experimentar algum projeto, já sente que está no seu limite físico, pois sua força é perdida ao escalar. Mas é necessário saber que não foi literalmente perdida, mas que seu músculo a mantém, mas não consegue administrar bem a parte energética. Basta voltar a treinar uma semana, que voltará a estar como antes.

Mas o que acontece com a força e resistência se o tempo é maior? O corpo humano está especializado em economizar e tratar de ser o mais minimalista possível. As fibras musculares rápidas que as alimentou de maneira intensa escalando, no repouso prolongado não servem de nada se não são usadas. Por isso rapidamente atrofiam. Estas fibras musculares rápidas possuem uma alta mudança estrutural, ou seja, seu corpo faz rapidamente uso de proteínas que já não são usadas e “encolhe” o músculo na mínima expressão genética que tenha (lembrando que isso não é para todos).

Foto: Three Peak Films / The Circuit Climbing | http://threepeakfilms.com/

Em apenas 2 ou 3 semanas, seu músculo começará uma acelerada atrofia das fibras musculares rápidas. Não é o mesmo para as fibras lentas, pois estas podem estar um tempo prolongado com taxas altas de metabolismo energético e hipertrofia de boa qualidade, inclusive depois de um mês. Mas são as fibras rápidas que fazem a diferença em vias no limite da pessoa ou, em um exemplo mais cristalino, no crux. Depois de um mês, e você resolve entrar em uma via alta, mas de grau fácil ou de continuidade, a perda não deveria ser muito significativa, mesmo que acredita no contrário. Mas se entrar em uma via com algum crux na metade da via, ali verá como sua força realmente foi embora.

Uma outra coisa que pode acontecer, é que a primeira via do dia sairá muito bem (incluindo aquelas que eram no seu limite), mas na segunda, ou terceira, irá sentir que as mãos começam a abrir. Isso acontece por causa da perda metabólica que foi mencionada.

Foto: Will Saunders | http://blackdiamondequipment.com

Por último, não somente o músculo que involui, mas seus tendões e ligamentos também. Depois de 5 ou 6 semanas, há uma perda de colágeno por falta de carga e, consequentemente, irá lesionar-se se começar com as mesmas cargas que utilizava quando parou de treinar. Neste ponto é o pior que pode acontecer, porque o ganho de força tendinosa recentemente é recuperado no segundo mês de reinício de treinamento. Neste aspecto, tenha cuidado, porque o aparecimento de lesões está muito relacionado com o retorno aos treinos de maneira brusca.

Muitas vezes acontece pela falsa sensação de que seu corpo “está descansado”. Além de descansado, ele também está atrofiado.

Tradução autorizada: http://rocanbolt.com

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Gonzo Rocanbolt é chileno, médico, escalador e indiscutivelmente uns dos mais completos autores de artigos sobre treinamento de escaladores existentes no mundo. Respeitado em todo o mundo é o organizador do Simpósio de Medicina de Montanha no Chile e palestrante de eventos de escalada no Chile, Argentina e Espanha

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