O que é o Piolet d’Or – Considerado o prêmio máximo do montanhismo mundial

Na série de televisão americana “Parks and Recreation”, o personagem Ron Swanson, quando foi convidado a participar de uma premiação proferiu as seguintes palavras: “todas as premiações são idiotas, mas quando elas premiam quem merece, se tornam menos idiotas”.

Esta frase resume bem o sentimento que muitas pessoas possuem diante de premiações de todos os tipos. Mas ser do contra é sempre ser a voz mais fácil.

É sabido por muitos que as premiações recebem influência pesada de política interna e corporativismo. Todas elas. Algumas em maior, outras em menor grau. Muitas são consideradas injustas pelo público que as aprecia e, invariavelmente, acabam sendo alvo de polêmicas e críticas. Muitos acreditam que apenas por pegar algum objeto, banhar em tinta dourada e cercar de pompa e circunstância, aquele prêmio ganha relevância.

O mais importante para que uma premiação não soe como politicagem e premiação das mesmas pessoas de sempre, depende de quem organiza. O desafio dos grandes eventos é manter a barra alta para não se tornarem anacrônicos e obsoletos.

Política e premiações

Apesar de ser o que manda a cartilha da ética (que prega a meritocracia e imparcialidade), a influência polícia e premiações estão sempre de mãos dadas. O que acontece com os organizadores de premiações é algo muito parecido com o teste do marshmallow realizado pelo psicólogo Walter Mischel, da Universidade Columbia para observar a capacidade das pessoas em administrar a gratificação imediata.

Em sua pesquisa, selecionou 500 crianças com diversas idades na escolinha das filhas e as colocou num quarto, sentadas de frente para uma mesa com um prato que tinha um marshmallow. Falou para cada uma delas que poderiam comer o marshmallow no momento que quisessem. Porém se esperassem um pouco, teriam dois marshmallows. Ou seja, se tivessem força de vontade, poderiam comer não somente um, mas dois.

Durante os testes algumas comiam e outras conseguiam esperar. Durante o processo de espera, muitas mostravam comportamentos agonizantes, como se estivessem sofrendo de uma tortura mental. A variação de tempo que essas crianças conseguiam se controlar foi grande, umas seguravam por 1 a 2 minutos, outros até 10 minutos. A média foi de 7 a 8 minutos.

Muitas premiações existentes, parecem acontecer algo parecido nas tentações de escolher por meio da política e corporativismo, não somente pelo mérito. Basta substituir o marshmallow pelo desejo de agradar um amigo, sem se importar com a existência do mérito. Nestas premiações, muitos sequer escondem a parcialidade e pouco se importam com o constrangimento causado pela premiação. Grande parte destas premiações ainda obedecem a regra de que “para os amigos tudo, para os inimigos a lei”.

O Piolet d’Or

No montanhismo não poderia ser diferente. O desejo de premiar pessoas que fazem algo de notável motivou a criação de um prêmio que reconhecesse montanhistas que se diferenciaram dos demais. Assim nasceu o O Piolet d’Or, um prêmio anual de montanhismo concedido pela revista francesa Montagnes e The Groupe de Haute Montagne (Grupo de alta montanha que reúne a elite dos alpinistas franceses e internacionais) e Guy Chaumereuil (o editor-chefe de Montagne quando o prêmio foi inaugurado) desde 1991.

As duas entidades são as responsáveis por indicar os candidatos. A partir da indicação, um júri composto pelo o atual presidente da GHM, o atual editor de Montagnes , os vencedores do ano anterior, além de três membros convidados pela GHM. Não há, neste conselho, muita penetração de meios de comunicação de outros países. Há, ao longo da história, várias colaborações mas de modo geral é restrito.

Os critérios para o prêmio são previamente indicados, para que dar a sensação de que a politicagem não interferiu no resultado. Votações que podem sofrer alterações e potencialmente tirar a credibilidade do prêmio, como votações por internet e escolhas do público, não são realizadas. Escolhas como esta, que blinda os jurados e candidatos de pressões, são importantes a prêmios que ambicionam possuir relevância e credibilidade. Esta blindagem, além de forte marketing exercido pelas entidades, é que fizeram o prêmio ganhar notoriedade e relevância.

Entre os fatores que são levados em conta são alto nível técnico e compromisso, os quais são considerados os principais critérios, mas não são os únicos. A originalidade na escolha do objetivo e a natureza inovadora da maneira de conduzir a ascensão, também são elementos igualmente importantes na avaliação do mérito.

Mas mesmo assim, há várias polêmicas que montanhistas e até mesmos jurados criam no próprio palco. O motivo desta controvérsia é a influência política que acaba, infelizmente, premiando quem não possui de fato mérito.

Polêmicas do Piolet d’Or

O prêmio Piolet d’Or, apesar de toda credibilidade e um certo ar de imparcialidade, também é cercado de polêmicas de reclamações. Por possuir um júri mito restrito e, até certo ponto, conservador, algumas escolhas parecem ter feitas muito mais pela emoção do que pela razão. Uma polêmica é a prática de provocar disputas e causar controvérsias em diversos campos discursivos, portanto no montanhismo não poderia ser diferente.

Uma questão polêmica gera confronto entre diferentes pontos de vista sobre um mesmo tema. No Piolet d’Or a polêmica sempre cercou o prêmio, devido à natureza não quantificável das realizações de escalada, e as interpretações variadas de “alpinismo” e “respeito pelas montanhas”. Em linguagem formal significa dizer que: o que é “alpinismo” para uns, não é para outros, da mesma maneira que “respeito às montanhas” significa algo completamente diferente para outros.

Por conta disso, Jean-Claude Marmier (presidente do GHM quando o prêmio foi inaugurado) deixou o júri em 1998 (quando premiaram a equipe russa de Ekaterinburg liderada por Sergey Efimov para a primeira subida da face oeste de Makalu), explicando que “a decisão do júri foi um verdadeiro desastre”.

Apenas para se ter uma ideia, todos concordamos que falar de aborto é um tema polêmico e gera muitas discussões (seja contra ou a favor). O equivalente ao “aborto” na sociedade moderna, é a escalada da via Cerro Torre para o montanhismo. No ano de 2005, Ian Parnell retirou sua nomeação, assim como Alessandro Beltrami, Rolando Garibotti e Ermanno Salvaterra em 2006, para o que poderia ser a primeira subida da face norte do Cerro Torre.

Marko Prezelj rejeitou o prêmio em 2007 no palco para expressar sua oposição à competição no alpinismo.

Já no ano 2008, durante o processo de seleção, Garibotti pediu ao júri que não levasse em consideração a primeira subida de Torre Traverse que completou com Colin Haley. Lembrando que o escalador americano de maneira covarde e pusilânime arrancou as proteções da via que ele, Haley, julgava “ofensivas”. Haley e seu colega de escalada foram expulsos de Chaltén por todos os escaladores locais e quase foram linchados. Somente a indicação do prêmio a uma atitude que afronta a ética do montanhismo demonstrou, à época, como preferências pessoais e amizades afetam premiações. Este seria o equivalente a premiar um jogador de futebol por socar um juiz por um pênalti cancelado.

Desta maneira em 2008, o Piolet D’Or foi cancelado. Os co-fundadores do prêmio decidiram iniciar um novo processo para selecionar os indicados e o vencedor, por isso o processo não pôde ser concluído em tempo hábil para 2008.

Argentina de nascimento e brasileira de coração, é apaixonada pela Patagônia e Serra da Mantiqueira.
Entusiasta de escalada, trekking e camping.
Tem como formação e profissão designer de produto e desenvolve produtos para esportes de natureza.

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