O poder do agora

Por Tracy Martin

City of Rocks (Cidade das pedras) é um belo local para se escalar no granito em Idaho. Sete anos atrás eu tive uma experiência horrível que me assombra desde então. Eu decidi escalar a via Brown Flake, uma escalada tradicional feita pela primeira vez por Greg Lowe em 1965.

Brown Flake está graduada em VI Sup (Br), mas muitos escaladores acham que é bem mais difícil. Aliás, alguns acham que ela é mais difícil do que outra clássica da “cidade” também feita por Greg Lowe: Crack-Of-Doom, graduada em VIIc (Br).

Brown Flake é um diedro que você escala deitando com as costas nele, tornando-a ‘bombante’ e difícil de colocar proteção.

Eu não era tão experiente com as técnicas tradicionais como eu sou hoje. Toda a escalada me pareceu dura e então eu cheguei no crux. Coloquei um Camalot #3, sacudi os braços da melhor forma que eu pude, e escalei o diedro.

Estava completamente bombada, não conseguia escalar para cima ou para baixo, e caí. De alguma forma eu acabei virando de cabeça para baixo. Desci até o chão e fui embora. Eu tinha medo de voltar para a via de novo. Essa queda criou uma memória negativa forte que continuou ame afetar.

Eu não gostava do fato de que eu tinha medo de entrar na Brown Flake de novo. Eu acho que ninguém gosta do sentimento de ser derrotado por uma via; que uma escalada tem o poder de nos deixar com medo.

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Foto : http://warriorsway.com

Eu tinha que voltar e encarar o meu medo. Precisava retomar meu poder dessa experiência negativa.

O treinamento mental é sobre desenvolver nossa habilidade de encarar nossos medos. Mas, como conseguimos fazer isso? Nós simplesmente voltamos para a via e tentamos de novo? Ou precisamos mudar nossa estratégia?

Há muita estratégia quando fazemos um treinamento físico. Podemos seguir um programa específico que nos dá poder ao longo do tempo. O treinamento mental também precisa de estratégia.

Nossa estratégia de treinamento mental precisa incluir a atenção e como escolhemos focá-la. Voltar a uma escalada traumatizante pode fazer com que nossa atenção esteja focada na memória negativa do passado, distraindo-a da situação atual.

Nossa estratégia de treinamento mental precisa incluir como lidaremos com essa distração.

A estratégia do treinamento mental do Caminho do Guerreiro enfatiza duas formas de focar nossa atenção. Focamos nossa atenção em pensar com a mente quando paramos e mover o corpo quando escalamos.

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Foto : http://straightchuter.com/

Focamos em pensar, para criar nosso plano de escalada, quando estamos parados; focamos em colocar esse plano em ação quando escalamos. Em outras palavras, colocamos nossa total atenção em um ou outro.

A maioria dos escaladores perde a eficiência de sua atenção porque eles misturam ambos.

Nossa estratégia para pensar inclui criar um plano para a situação atual. Identificamos o próximo local de colocar proteção, avaliamos as consequências da queda, e nosso plano para a escalada… baseado na situação de agora, não do passado.

Nossa estratégia para a escalada inclui focar nas atividades somáticas que ocorrem no corpo, tais como respiração, relaxamento e a movimentação… baseada na situação de agora, nosso nível atual de habilidade física.

Nenhum dos dois inclui pensar sobre a memória negativa do passado. Podemos lembrar da experiência passada, mas somente de maneiras que nos ajudem a agir melhor, no agora. Nós entramos na via como um novo desafio, olhando para ele como ele é agora, não da forma negativa que foi a experiência do passado.

Eu fui até a via Brown Flake. Havia uma dúzia de pessoas escalando, mas nenhuma delas estava na “minha via”. Podia sentir o que eles estavam pensando: “Uau, ninguém escala essa via.”

Também não falei uma palavra. Memórias passadas começaram a voltar enquanto eu estava me preparando.

Eu comecei a escalar. Cada movimento era claro como água. Eu me sentia sólida e controlada, porém, a falação mental estava começando. “Eu me lembro que havia algo difícil por aqui.” Eu pensava “com certeza a parte difícil está chegando,” mas então eu escalei facilmente por essa parte.

Depois aconteceu de novo. Agora, posicionada sob o crux deitado, meu coração afundou. “Aqui está a parte difícil” eu pensei. Eu coloquei o Camalot #3, a mesma peça que me segurou sete anos atrás.

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Eu podia ouvir todas as pessoas falando lá embaixo. Eu conseguia senti-los olhando para mim. Eu me senti estressada pensando em levar aquela queda de cabeça para baixo de novo. Eu respirei fundo pela barriga, olhei para baixo e fiz contato visual com meu segurança.

Eu olhei para meus pés. Eu chequei minhas mãos e meus braços e não me sentia bombada. Eu fiz mais um movimento para instalar a próxima proteção. Eu percebi uma agarra de pé um pouco mais alta, e eu conseguia ver a próxima agarra de mão. Eu exalei e me posicionei na técnica deitada.

Eu instalei um pequeno camalot , um que não havia colocado da última vez, e sem hesitar alcancei as pequenas agarras de ponta de dedos do crux. Eu senti um grande sorriso surgir na minha face.

Lá estava eu, no meio do crux, me sentindo relaxada. Cada movimento estava claro. Eu não queria que aquilo terminasse. Eu queria ficar lá por outro segundo antes de chegar na agarra final.

Podemos ver dessa experiência como minha mente estava distraindo minha atenção para a memória passada. Minha mente ficava pensando “é aqui que deveria ser difícil” baseado na minha experiência passada.

No entanto, como que eu estava sentindo a escalada agora? Eu redirecionei minha atenção para a situação presente cada vez que ela era distraída para o passado.

Quando eu parei, eu foquei em pensar sobre como eu poderia instalar a proteção e meu plano para a escalada.

Quando escalei, eu foquei minha atenção em meu corpo, nos processos como a respiração. Eu conectei minha atenção com a forma que meu corpo estava se sentindo: quão bombada estava?

A respiração, contato visual com meu segurança, onde colocar a proteção, onde estavam as agarras de pé e mão, tudo isso aponta para o uso da minha atenção agora, sem permitir que ela se distraia na memória passada.

Fazer isto me permitiu perceber novos aspectos da escalada, como uma agarra de pé mais alta e uma proteção extra (cam) que me protegeu no crux.

Quando focamos nossa atenção desta forma, nos a deslocamos para o momento presente e para o que está acontecendo agora. Fazer isto nos ajuda a relaxar na zona de estresse de forma completa e de fato aproveitar a experiência.

Eu queria estar lá,no meio da escalada estressante, sem me apressar para a agarra final. Consegui recuperar meu poder ao focar minha atenção no que estava acontecendo no agora.

Quão compensatória é ter essa experiência em vez de permitir que uma escalada retenha nosso poder sobre nós?

Eu diria que… muito.

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O livro “The Rock Warrior Way – Mental Training for Climbing” está à venda traduzido para a língua portuguesa no Brasil em : http://www.companhiadaescalada.com.br/

Tradução do original em inglês : Gabriel Veloso

Sobre o Autor

Arno Ilgner

Arno Ilgner

Arno Ilgner distinguiu-se como um escalador pioneiro nos anos 1970 e 80, quando as principais ascenções foram as primeiras fortes e perigosas. Essas façanhas pessoais são a base para Ilgner desenvolver o programa de treinamento físico e mental – Rock Warrior Way ®. Em 1995, após uma pesquisa aprofundada da literatura e prática de treinamento mental e as grandes tradições guerreiras, Ilgner formalizado seus métodos, fundou o Instituto Desiderata, e começou a ensinar seu programa de tempo integral. Desde então, ele tem ajudado centenas de estudantes aguçar a sua consciência, o foco de atenção, e entender seus desafios de atletismo (e de vida) dentro de uma filosofia coerente, baseada em aprendizado de tomada de risco inteligente. Ilgner considera a alegria e satisfação no esforço – a “viagem” – intimamente ligada à realização bem sucedida das metas.

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