O estilo escalador

Foto : Juliana Falchetti

Foto : Juliana Falchetti

  • Por que você está chorando – perguntou o escalador que passava ao meu lado a cerca de 60 metros de altura na via Tardes de Outono, na Barra da Lagoa em Florianópolis/SC.
  • Porque eu estou com medo – respondi meio que aos soluços, enquanto intercalava a atenção para o Du que continuava guiando a via e para a parada.

Conferi pela décima vez se estava tudo certo, verifiquei se o mosquetão estava travado, se a corda estava dentro do mosquetão e se haveria qualquer chance, por menor que fosse, de eu despencar lá de cima e virar paçoca.

Este era um dos meus primeiros encontros com a escalada e a sensação que estava sentindo era uma mistura entre o desejo de mudar meu estilo de vida e o medo de altura.

Foto : Juliana Falchetti

Foto : Juliana Falchetti

Fui criada para ser princesa, meu namorado anterior exigia que eu fosse princesa.

Só faltava dar o famoso “tchauzinho” da Lady Di. Lembro uma vez quando ele olhou para minhas unhas e questionou por que não estavam feitas e por qual motivo eu não estava de anel e outros penduricalhos.

Em 2002 fiquei o ano inteiro com uma barraca no canto da sala sonhando em acampar, mas princesa não podia, não devia. Meu primeiro acampamento foi em 2003 com o Du, meu então namorado, e foi amor à primeira experiência.

Hoje em dia se fico muito tempo sem acampar já dou aquele suspiro de saudade quando olho para meus colchonetes infláveis, minha barraca, e meu micro fogareiro.

O escalador que passava por mim na Tardes de Outono disse para eu me acalmar, que escalada era algo bom que inspirava paz interior e outras coisas positivas, mas eu nem compreendia direito o que ele dizia.

Foto : Juliana Falchetti

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Estava toda dura, tremendo e acreditava piamente que os urubus que voavam logo abaixo só estavam esperando que eu despencasse para fazer a festa.

Só que eu não ia desistir. Podia até ter sido “moldada” para acreditar que uma vida ao ar livre e de aventuras não combinava comigo, que o belo era a mulher estar sempre impecável, ser delicada, meiga, sair para passear na praia e fazer compras no shopping. Mas quem disse que a beleza tinha um padrão?

Quem disse que eu precisava ser como a maioria para me sentir feminina? Depois de experimentar os dois extremos (de princesa a ogra) descobri que é possível viver um meio termo e ser bela do meu jeito, criando um estilo só meu.
As calças-bermuda técnicas são um exemplo.

Você pode combiná-las com uma regata de algodão rendada, um Converse All Star e sair tranquilamente para dar um passeio sem medo de errar.

Em nosso meio fica sempre aquela dúvida: o que define o estilo escalador? Acredito que é essa mistura, essa liberdade de não seguir regras com a possibilidade de mesclar o estilo dos dois mundos.

Existe uma moda por trás da vida outdoor só que ela não gira tanto quanto a moda tradicional, por isso o nosso desejo de criar novas composições e dar mais charme para as produções. Isso vale para as trips de escalada também.

Como eu já falei antes, nós mulheres não suportamos monotonia, mudanças são fundamentais para manter nosso humor em dia (nossos cabelos que o digam né?).

Foto : Juliana Falchetti

Foto : Juliana Falchetti

Finalizei aquela via com os olhos vermelhos de tanto chorar, mas com a satisfação de não ter desistido. Depois desse dia confesso que tive outros episódios de choradeira e acabei descobrindo que a vontade de superar meus limites vai até certo ponto.

Não faço vias muito longas, não porque eu não goste, mas porque o medo deve ser respeitado e viver em constante tensão não vale a pena. Fico nas vias esportivas, boulders e deixo o prazer maravilhoso (que deve ser) das escaladas tradicionais para os mais destemidos.

A escalada mudou meu estilo de ser e de me vestir, mas principalmente mudou minha relação com o mundo e comigo mesma. Hoje me sinto mais forte, mais envolvida com a natureza e determinada a criar uma forma mais equilibrada de viver e me relacionar com as pessoas.

Descobri que posso ser uma plebeia com estilo e que são os pequenos detalhes que fazem toda diferença.

Legenda Editorial
Fotografia e Conceito: Juliana Falchetti
Modelo: Isabela Wagner Rogério

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Sobre o Autor

Juliana Falchetti

Juliana Falchetti

Da cozinha para o mundo. Nutricionista de formação se encantou pela fotografia e vídeo e encontrou na moda e nos esportes ao ar livre uma paixão forte e duradoura. Pós-graduada em Fotografia realizou expedições fotográficas e produções audiovisuais pelo Brasil e Argentina

There are 4 comments

  1. Natalia De Marco

    Segue o comentário do João Paulo Peres Bezerra

    Message: como não consegui postar o comentário , por favor repassem pra Juliana Falchetti.

    A multiplicidade deve ser respeitada,,,

    Apesar de acreditar que não exista um estilo de escalador (a) a ser seguido, mas sim, um espirito da montanha a ser respeitado.
    Vejo com naturalidade a mercantilização parcial de nossa paixão, o montanhismo em sua diversidade (alta montanha, big wallll, artificial, esportiva, blocos etc etc )porém tento ver o lado bom desse processo, caso ele exista…

    Acho válido o texto, aqui apreciado, pois reflete uma inserção de pessoas advindas de um universo urbano e limitado a valores de classe, eai sim o montanhismo é um elemento libertador…

    O que me preocupa é a banalização e a total mercantilização, o que ainda não vejo acontecer, mas pode vir a ser…

    Admito que muitas vezes, na montanha, olho pra uma galera chegando, e penso o que eles estão fazendo aqui,,, com suas lanternas de cabeça na lua cheia, seus fogareiros super tec’s a 1250 de altitude, sleep bags pra -35 no mundo tropical, enfim,, o mercado ja ta ai,,, Mas também é preciso admitir certo egoísmo meu… e de muitos… pois quanto menos pessoas no pico melhor né, rs….

    O que faz a evolução é a multiplicidade complexa e contraditória,,, que os novos praticantes sejam bem vindos,,, e que o estilo seja natural, forjado pela forças da necessidades advindas das intempéries do clima, pelo tamanho do desafio, e não pelas marcas e seus estilistas, cabe a cada um escolher … comprar ou viver …

    1. Juliana Falchetti

      Olá João Paulo,

      Obrigada pelo comentário sensível e embasado.
      Me preocupa um pouco a intolerância de alguns diante de um tema tão comum que é a questao do vestir. Meu objetivo não é mudar a escalada, mas trazer a tona um tema que é de interesse de muitos.
      Percebo que alguns leitores se fecham para o restante da mensagem, que é tão ou mais importante que as dicas de moda em si, mas cada pessoa se encontra em diferentes estágios de compreensão e respeito isso.
      Sobre o comprar ou não comprar e os motivos que nos levam a decisão final, precisamos levar em consideração que as marcas, além das questões técnicas, consideram tendências de estilos, cor, cortes para colocarem no mercado seus produtos. Isso acontece também com nossas botas, tênis, calças, camisetas, mochilas etc. Por sermos seres diferentes, coisas diferentes nos agradam e diferentes marcas suprem nossas necessidades técnicas e estéticas. Por isso, nessa questão, tenho opinião diversa de você, pois acredito que as marcas e estilistas conversam com nossos gostos e expectativas. Como diz Cláudio Marra, grande estudioso da imagem em seu livro Nas Sombras de um Sonho, história e linguagem da fotografia de moda – A moda vai além da marca e do estilista, ela comunica como queremos ser vistos e conhecidos. Somos assim para diversos outros aspectos, como a música por exemplo. O que ouvimos, que livro lemos definem quem nós somos. Concordo que não podemos viver um consumismo desenfreado, mas a multiplicidade, como você mesmo falou deve ser respeitada e valorizada.

      Abraços,
      Juliana

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