Entrevista com Juan Martin Miranda – Responsável pela escalada nos Jogos Olímpicos da Juventude 2018

Toda que pessoa que faz pesquisa na internet para saber mais sobre treinamento em escalada, muito provavelmente já encontrou algum artigo de Juan Martín Miranda. O escalador argentino é um dos maiores pesquisadores sobre treinamento e, sem nenhum exagero, uma das pessoas que mais entendem sobre treinamentos no planeta. Seus artigos são considerados verdadeiras teses de medicina esportiva e de educação física.

Sua presença no 2º Simpósio de Ciência de la Escalada, que aconteceu em dezembro último no Chile (o qual não contou com a presença de nenhum técnico brasileiro) teve audiência considerável. Seus conhecimentos sobre a escalada, tanto como o esporte em si quanto socialmente falando, são impressionantes. Não à toa Juan Martín Miranda é gerente do principal ginásio de escalada da Argentina, Rocódromo de La Plata e membro da Comissão de Competições da Federación Argentina de Esquí y Andinismo (FASA).

Foto: Acervo Pessoal Juan Martin Miranda

Em sua palestra sobre a importância da escalada tornar-se esporte de exibição nos Jogos Olímpicos de Verão em 2020, como está sua expetativa da realização dos Jogos Olímpicos de Verão da Juventude em Buenos Aires, um grande evento desportivo internacional que também privilegia a educação e a cultura. Esta será a primeira vez na história que os Jogos serão disputados nas Américas, no hemisfério sul.

Neste evento a escalada será sua primeira experiência da história em ser disputada no formato proposto pelo International Federation of Sport Climbing (IFSC).

Pela primeira vez na história da escalada esportiva, um veículo teve a oportunidade de entrevistar uma autoridade no assunto como Juan Martin Miranda. Foi um privilégio, além de uma honra, entrevistá-lo.

Juan Martín, você está na organização dos Jogos Olímpicos de Verão da Juventude em Buenos Aires que acontece este ano. Qual as suas expectativas da organização da escalada para o evento?

Sem dúvida chegar um evento com estas características excede tudo o que fiz até agora, em matéria de competições de escalada. A importância de um jogo Olímpico faz com que tudo esteja calculado até o mínimo detalhe. É necessário ter claro que existem muitos recursos humanos e materiais envolvidos, que devem ser coordenados com muito cuidado.

Para que tenha uma ideia, este evento está sendo trabalhado faz um ano e meio. No mês de agosto teremos a data de instalação dos três muros de escalada no Urban Park (que fica na região do bairro de Puerto Madero), que foi buscado por seis meses para ter uma localização ideal, levando em conta o lugar, as outras disciplinas do parque e, sobretudo, as condições de televisionar, que é o que vai transmitir para o mundo inteiro os jogos da juventude.

Foto: Acervo Pessoal Juan Martin Miranda

O desfio de organizar os jogos é muito grande, mas pensar em tudo como um legado, e como podemos capitalizar tudo isso, é o mais importante. Uma vez que passem os jogos, o que faremos com isso tudo?

Nos jogos teremos vários representantes da América do Sul, como Valentina Aguado (Argentina) e Alejandra Contreras (Chile). Todas as câmeras estarão colocadas para isso, Por isso a rapidez das Federações, associações, marcas, muros de escaladas privados, escaladores e todos os agentes envolvidos é fundamental para não deixar que se perda toda esta energia e, desta maneira, aproveita-la para que o esporte cresça. É uma oportunidade única.

Como você visualiza as reais chances de atletas sul-americanos nas Olimpíadas de Tóquio 2020?

Foto: Acervo Pessoal Juan Martin Miranda

Definitivamente a Alejandra Contreras (Chile) e Valentina Aguado (Argentina) demonstraram estar neste nível de vencer. Tenho muita expectativa de ver as duas a final. É muito provável que aconteça e, com um pouco de sorte, as teremos no pódio. Sei que ambas estão se preparando de maneira muito forte e com este objetivo.

No caso da Valentina, atualmente está fazendo uma pré-temporada na Áustria. O tempo escasso para desenvolvimento na escalada de velocidade é um item contra, mas vejo esforços de melhorias das atletas nestas modalidades, amentando as chances!

Lembre-se que as posições de cada disciplina se multiplicam, portanto ter um multiplicador acima de 4º ou 5º dá muitas chances a qualquer um. É necessário ser muito bom nas três modalidades.

Na sua opinião, como está o compromisso das instituições para tornar a escalada mais desenvolvido?

Se ficarmos somente na América do Sul, existe um desejo muito grande de que o esporte se formalize e desenvolva. Em todos os países está acontecendo movimentação para isso, mas é fundamental que os escaladores entendam que é necessário reunir-se através de federações, pois o caminho institucional é a única forma possível.

Para isso é necessário que dirigentes e escaladores que queiram cumprir este papel. A escalada mudou muito nos últimos anos é o ponto chave será que esteja envolvido nisso gente jovem que entenda o rumo que leva a escalada como esporte institucionalizado.

Foto: Javier Petraca

Na Argentina a Subcomisión de Escalada de la Federación Argentina de Esquí y Andinismo trabalha bastante nisso, No Brasil acredito que foi criada uma liga independente, com pessoas que estão trabalhando e fazendo coisas para um bom rumo.

No Peru também estão trabalhando muito bem e já conseguiram formar a própria federação (sendo inclusive reconhecida). No Chile existe muita energia, muita organização, meios de comunicações muito bons, excelentes profissionais, mas tem de sentar de uma vez por todos todos estes atores e chegar a um acordo.

O que não pode acontecer é que exista divergência sem participação de atletas e treinadores.

Quais são as principais diferenças entre as competições que eram organizadas pelo UIAA e agora pelo IFSC?

A princípio não existem grandes diferenças, pois o UIAA liberou a escalada esportiva como uma excelente decisão, entendendo que a escalada tomava um rumo esportivo competitivo que podia chegar a colidir com os valores históricos do montanhismo.

Não resta dúvida sobre isso, hoje a escalada é um esporte com todas as letras. Foi uma excelente decisão, pois sempre iria ter um freio, ou algum ajuste, de como iria evoluir. Além disso foi o ponto chave para ser reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional.

A você parece que na América do Sul teria de seguir a mesma direção do IFSC e UIAA na escalada esportiva (dificuldade, boulder e velocidade) de serem separadas das entidades que já existem?

Por um lado isso seria ideal, uma instituição que se encarregasse exclusivamente da escalada seria o ideal. O ponto contra é que nos países que possuem este tipo de federações de montanha (como é o caso de Chile ou Argentina).

Atualmente não estarão dispostas a dispensar um esporte olímpico, além da possibilidade de obter recursos estatais. Isso não quer dizer que não faça as coisas direitas em prol do esporte, mas federações individuais podem canalizar melhor seus recursos.

Como está o desenvolvimento científico de treinadores de atletas de escalada que planejam competir?

Foto: Acervo Pessoal Juan Martin Miranda

Nos últimos anos está sendo publicado alguns artigos científicos sobre metodologias de treinamento. É a evolução lógica, já que até o momento somente tínhamos informação descritiva da fisiologia da escalada.

Publicações assim são fundamentais para poder prescrever as atividades e doses de treinamento com critério. Eva Lopez é um exemplo claro. Suas pesquisas implementaram, e implementa, metodologias de trabalho que nos permite, como treinadores, a tomar decisões fundamentadas.

Ainda á muito por fazer, investigar e avaliar. No caso das pesquisas relacionadas com treinamento sempre existe o inconveniente de depender de protocolos que envolvem escaladores (em dois ou mais grupos) e devem seguir rigorosamente um processo de treinamento para poder obter resultados do que serve ou não. Isso faz com que seja difícil este tipo de pesquisa. Felizmente existem alguns pesquisadores que estão fazendo e conseguindo excelentes resultados que são de grande ajuda.

De todas as formas, sempre nos fica como obrigação estar sempre informados com os avanços de estudos descritivos, para poder planejar metodologias que nos sirvam para fazer progredir nossos atletas.

Qual o caminho que um treinador deve tomar para se atualizar e treinar escaladores?

Que pergunta difícil!

Para começar deve ter conhecimentos básicos de fisiologia, psicologia, pedagogia e treinamento. Tudo o que um professor em Educação Física adquire em sua formação de gradação. Mas somente isso não basta, já que a escalada é um ramo do esporte que não está em praticamente nenhuma grade curricular na formação de educadores físicos.

Por isso, deve também conhecer o esporte em profundidade e em cada uma das disciplinas, fundamentos, condições fisiológicas, técnicas e táticas. Poder descrever com maior rigorosidade possível o que consiste cada disciplina em seu contexto específico. E aí está a capacidade de ler e interpretar todas as informações científicas a que um possa ter acesso. No meu caso tenho uma base de quase todas as publicações científicas publicadas até agora (ao menos calculo que algo em torno de 90/95%).

Foto: Acervo Pessoal Juan Martin Miranda

Isso vai nos levar ao seguinte: que é aprender e escutar os que sabem e/ou possuem muita experiência. E neste aspecto me detenho um momento. Todo o fundamento anterior (formação de base e pesquisa) tem de ser o filtro para o que estamos escutando, endo e/ou consumindo por internet. Devemos saber discriminar a informação que recebemos. Atualmente temos ao alcance todo tipo de informação. Qualquer um pode escrever, publicar vídeos de treinamento, ou até mesmo ver a receita de algum escalador vencedor ou mesmo o guru da moda. Mas esta informação deve passar por este filtro.

Cada uma das atividades que realizamos com alunos deve ter um fundamento específico, visto desde um momento e contexto específico. Fazer algo que somente porque viu alguém fazer um certo escalador, ou treinador, é o principal erro da minha profissão.

E, claro, experimentar, aprender e errar (sempre com uma certa margem de segurança).

Foto: Acervo Pessoal Juan Martin Miranda

Você participou de um Simpósio de Ciência da Escalada no Chile em Dezembro do último ano. Eventos como este são relevantes para os treinadores? Por que?

Eventos como o Simpósio Ciencia de la Escalada são lugares de aprendizagem e intercâmbio de ideias, não somente que vão dizer os palestrantes em suas disciplinas, mas também conversas posteriores, comentários das pessoas, perguntas interação, etc. Cada pequena história, experiência, de fato poder ser muito útil para a formação pessoal

O encontro de muitas pessoas interessadas em um tema, faz com que cada um se enriqueça. Particularmente eu aprendo muito nestes eventos, tanto como ouvinte quando palestrante.

Sempre tenho presente na minha mente uma frase de Oscar Wilde: “Não sou suficientemente jovem para saber tudo…”.

Em sua opinião, por que é importante a escalada fazer parte da Olimpíada de Tóquio?

A princípio será o pontapé inicial para terminar de desenvolver a escalada como um esporte competitivo (fique atento, a parte recreativa se alimenta muito disso). Para nós, que estamos imersos no mundo de treinamento e no alto rendimento, nos obriga a ser mais profissionais na nossa maneira de agir.

Mas definitivamente o desenvolvimento a partir de Tóquio será muito bom. Eu vejo recursos sendo colocados na escalada todo o tempo.

Em países como os nossos (américa do Sul) no qual os investimentos privados não sobram para a infraestrutura na escalada, o fato de ser olímpico, sendo considerado pelos governos, pode nos dar um impulso de qualidade às instalações existentes. A partir disso fomentar e difundir a prática de toda a população, independente do status econômico.

Depois de Tóquio 2020, existe uma Olimpíada em Paris. Outro país que tem a escalada como um esporte bastante popular. Você acredita que é possível que a escalada possa estar nesta edição também?

Eu imagino que caso siga o programa olímpico como está sendo implementado ultimamente, a escalada possui grandes chances de estar também em Paris 2024. Se conseguirmos novamente que esteja no shortlist e ganhar outra oportunidade seria fantástico.

Mas, de todas as formas, temos esta possibilidade e sendo a França, uma potência da escalada, não irão duvidar de aceitar a modalidade nos jogos de 2024, caso proponham novamente o esporte no programa.

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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