Crítica do filme “Unbranded”

unbranded-cartazNa década de 80, especialmente aos sábados à tarde, as emissoras de TV brasileiras tinham o hábito de reproduzirem filmes de cowboy o que, de uma certa maneira, acabou eternizando este estilo de filmes na cabeça de muitas pessoas. O estilo dos personagens até hoje são reproduzidos em uma espécie de cosplay de Wyatt Earp nas festas agropecuárias pelo Brasil afora. Qualquer dúvida vide a indumentária padrão existente na Festa do Peão de Barretos.

Portanto não seria exagero afirmar que existe no inconsciente coletivo de grande parte da população que, vendo estes exploradores desbravar os EUA, um desejo inerente de também viver uma aventura parecida. Quem nunca sonhou atravessar pradarias em um cavalo e, após um cansativo dia, acampar ao redor de uma fogueira que atire a primeira pedra.

A partir deste espírito saudosista que o produtor Phillip Baribeau produziu o documentário “Unbranded”, sobre uma jornada pelos EUA de quase 5.000 km de percurso para conduzir cavalos selvagens desde a divisa do país com o México até o Canadá. No desafio há um pequeno detalhe: Somente utilizando parques nacionais americanos, não passando por nenhuma propriedade particular.

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Além da direção de fotografia impecável o filme, a qual foi ovacionado pelo público durante a participação no festival Toronto Hots Docs Festival, “Unbranded” traz sobretudo uma mensagem ecológica importante e que raramente é divulgada por ativistas. Ativistas estes muito preocupados com as baleias do oceano e áreas naturais ao redor do mundo mas, ironicamente, a situação de preservação dos cavalos selvagens americanos nunca é levantada pelos “greenpeace da vida”.

O documentário é concebido a partir de uma ideia de Ben Masters, que desejava fazer uma expedição com 16 mustangues selvagens em uma travessia parecida com a realizada por diversos exploradores de seu país. Os mustangues são descendentes diretos dos cavalos levados para a América por conquistadores espanhóis no século XVI e muitos deles acabaram se multiplicando e vivendo em estado selvagem. Uma situação parecida com a que acabou também criando a raça de cachorro Dingo na Austrália.

Ben Masters combinou com outros três amigos que, assim como ele recentemente haviam formado pela Texas A&M University mas sem muita experiência em condução de gado, de conduzir mustangues desde o México até o Canadá em uma viagem que levou mais de 5 meses passando por mais de 5 estados americanos. O grupo, durante a viagem, passa por lugares icônicos com os cavalos como Parque Yellowstone, Grand CanyonGlacier National Park.

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Durante o filme, além das paisagens estonteantes, também é informado um histórico sobre a existência dos mustangues nos EUA e da criação da lei federal americana que protege a espécie permitindo a circulação livre por terras pertencentes ao governo. Porém esta circulação livre também gera certo impacto nos parques e fazendas cercanas pois os cavalos se reproduzem a uma taxa de 20% ao ano, levando a população total chegar atualmente a 50.000 animais. Todos os dados são colocados sem soar panfletário nem acusativo, procurando apenas mostrar o problema e, ocasionalmente, com alguma declaração de algum fazendeiro local ou agente do governo.

Durante toda a exibição do filme é possível também vislumbrar, além da paisagem americana pelas montanhas rochosas, o espírito aventureiro da tarefa. Por ser um documentário, e não um filme artístico, é cativante observar o processo de amadurecimento, e envelhecimento, da relação de cada um dos protagonistas. O tempo é mercado pelo tamanho do cabelo e barba e também pela natural deterioração do relacionamento entre eles. Apesar de usar um ritmo lento, que combina com a jornada longa, este cadenciamento parece incomodar o espectador próximo ao final, quando parece que todos os conflitos apresentados não terão solução e o objetivo de tudo aquilo parece inócuo.

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No decorrer da produção os protagonistas não estão livres de imprevistos como fuga dos cavalos, impedimento de passagem, acidentes de cavalos caírem, etc. Em particular a cena de um mustangue cair de um barranco abaixo é impressionante e merece ser vista várias vezes.

Entretanto é interessante observar também como uma peregrinação de vários dias, como a realizada em “Unbranded”, se assemelha com outras que, positivamente ou negativamente, faz com que cada personagem entre em um processo de auto-descoberta. Este processo de auto-análise se assemelha, nas devidas proporções, ao Caminho de Santiago. Muitas das reflexões dos personagens de “Unbranded”, assim como o amadurecimento de cada um, se assemelha muito ao que a personagem de Reese Whiterspoon viveu no filme “Livre”(Wild, 2014).

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Mesmo assim “Unbranded”, apesar de ser uma produção custeada por financiamento coletivo, mostra um outro lado do espírito outdoor aliado à consciência preservacionista presente em uma produção de boa qualidade e que entrega, sobretudo, entretenimento para diversos tipos de público.

Quem aprecia filmes outdoor somente pela beleza de paisagens irá saborear cada frame e para o público que é mais afeiçoado a temas ecológicos e de natureza terá motivos para estudar a solução a ser implementada para minimizar os impactos dos mustangues.

Nota Revista Blog de Escalada: 

Unbranded está disponível para visualização no Netflix.

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Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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