Princípios do Bushidô para montanhistas: O código de honra que todo praticante deveria seguir

Pergunte a cada 10 praticantes de montanhismo, quais são as principais reclamações que possuem com relação à prática do esporte. Por volta de quase 90% deles irão reclamar da falta de princípios que todo montanhista apresenta à sua volta. Muitos acreditam que este problema é inerente ao brasileiro, culpando sua educação e que sua “cultura de montanha” é pouco desenvolvida. Pode até ser, mas não é o único no planeta. Este problema existe em todo o mundo.

Há um elemento a mais neste comportamento que parece não escolher idade, classe social, estado que mora, nem mesmo o tipo de montanismo. Há um elemento que parece não fazer parte da psiquê do praticante: a honra. A honra é o sentimento de dignidade e boa reputação.

Muitos praticantes atualmente estão muito mais travestidos em seu manto de soberba, exalando o seu sentimento de pretensão de superioridade sobre as demais pessoas por onde passa. Destas pessoas é comum escutar que a certa modalidade não é boa o suficiente, algum local popular não é bom o suficiente e que somente ele (a), que se acha superior a todos os seres humanos, é a fonte inesgotável de sabedoria e conhecimento. Por este motivo, ao menos na mente desta pessoa, todas as pessoas devem fazer reverência a ele (a) como um (a) semideus (a), ou mesmo um ídolo.

Conhece alguém assim? Pois esta pessoa, sem sombra de dúvida, além de sofrer de uma forte síndrome de superioridade ilusória, também não possui honra. Esta mesma pessoa sem honra, exala fortemente o ressentimento sobre qualquer coisa em direção a quem não fica prestando reverência a ela. A própria incompetência e limitação pessoal fazem este sentimento ser cada vez maior. O grande palco para estas figuras se manifestarem livremente são as redes sociais.

Montanhismo e honra

O que é um (a) montanhista honrado (a)? Quando diz que vai fazer alguma coisa, faz? Cumpre seus compromissos? Se considera uma pessoa confiável? Será que é possível virar esse jogo e ser uma pessoa honrada? Quem age de maneira honrosa tem ações que confirmam suas palavras? Ser honrado leva a ter e manter amigos, influencia a prática do montanhismo e ajuda em todas as áreas da vida.

Mas como ser uma pessoa honrada? Talvez a saída esteja na cultura oriental e nos códigos de honra que lá foram cunhados e que não eram modificados por conta das circunstâncias. Um ótimo exemplo do que vemos até hoje é o samurai, uma espécie de soldado do Japão que vigorou no país entre 930 e 1877.

Existe um motivo pelo qual os samurais são lembrados até hoje. Além de um grande exemplo de força e disciplina, estes guerreiros seguiam um código de honra e conduta que deveria ser ensinado até hoje: O Bushidô (武士道). Bushido significa “O Caminho do Guerreiro”. Ou seja, assim como o montanhismo é um “estilo de vida” a quem pratica, o Bushido, portanto, era o “estilo de vida do samurai”.

Esta espécie de “código de ética dos samurais” tinha para os samurais, mais força que as próprias leis do Japão. Por este motivo, não eram modificadas por conta das circunstâncias, pois a palavra ética, na etimologia, é derivada do grego e significa “aquilo que pertence ao caráter”. Se você quer controlar os outros, primeiro deve controlar a si mesmo.

Bushidô

O Código de Conduta Bushidô foi formado e influenciado pelos conceitos do Budismo, Xintoísmo e Confucionismo. O Bushidô era transmitido oralmente e todos os clãs de samurais o seguiam. Para quem seguia o “O Caminho do Guerreiro”, o objetivo da vida era uma morte honrosa. Na história do Japão, por quase oito séculos os clãs aos quais pertenciam os samurais estavam constantemente entrando em guerras. Por isso, para o samurai, era preciso viver cada momento como se fosse o último. Tudo tinha de ser feito com o máximo empenho.

Como a data do período final dos samurais é por volta de 1877, é um conceito de estilo de vida que acabou há muito tempo. Mas muitos dos princípios do Bushidô podem ser adotados no nosso dia a dia. Uma vez implementados, podemos vislumbrar uma maneira de nos tornarmos mais honrados. A honra determina o caráter de uma pessoa. Se a pessoa reflete honestidade, respeito, integridade ou justiça é, sem dúvida, uma pessoa honrada.

O bushidô era relativamente simples de se assimilar, pois era constituído de apenas sete princípios:

  • Justiça (義 Gi )
  • Coragem (勇 Yuu)
  • Compaixão (仁 Jin)
  • Respeito (礼 Rei)
  • Honestidade (诚 Makoto)
  • Honra (名誉 Meiyo)
  • Lealdade (忠 Chuu)

Se trata de regras baseadas em princípios morais, nos quais um guerreiro samurai tinha o dever de segui-los a todo custo, não só no campo de batalha como também em sua vida diária. Um samurai sem honra era uma coisa imperdoável e a única forma de lavar a sua honra, era através do Harakiri (Ritual de Suicídio).

Justiça (義 Gi )

Esta regra diz respeito à integridade, sinônimo de honestidade, retidão, imparcialidade. A integridade é uma daquelas características que a pessoa tem ou não têm. Não é possível ser “meio íntegro”. O indivíduo íntegro mantém sua conduta reta, sem desvios, mesmo diante de situações em que poderia tirar algum proveito para si.

O bushidô pregava que o samurai tinha a obrigação de ser honesto em todas as suas relações e que acreditasse na sua própria justiça. Não existia para os samurais um “depente”. Existia o que era certo e o que era errado. Pessoas íntegras possuem coerência no discurso e no comportamento, além de tratar com respeito e educação a todos, não importando o motivo.

A partir disso, fica fácil perceber que muitos escaladores e montanhistas adoram apontar os erros para as “injustiças” na prática do montanhismo, mas os próprios praticantes executam uma série de outras injustiças a outras pessoas às escondidas. Falar mal de alguém, ou algum veículo, todas as vezes que é conveniente, é atitude comum entre montanhistas. Mas parece injusto apontar erros de quem os comete? Que tal grande parte dos montanhistas manter a mesma conduta sozinho ou em público?

Para ser justo é necessário fazer o julgamento correto em relação a tudo em sua vida.

Coragem (勇 Yuu)

Viver é arriscado e perigoso e esconder-se como uma tartaruga que se esconde em seu casco, não é a maneira mais adequada de viver. Embora as redes sociais colaborem para que todos fiquem escondidos atrás de uma telinha, ficar criticando os outros sem sequer saber dos próprios defeitos é uma covardia extrema. Os samurais pregavam a necessidade de viver ao máximo e intensamente. Não confundir este conceito com “porraloquice”, porque ser corajoso não é ser um idiota.

Viver é arriscado e perigoso. Ficar escondido não é a melhor maneira de encarar a vida. Você deve se esforçar para viver ao máximo e intensamente. Mas ser corajoso, como citado anteriormente, não é ser um idiota. Um montanhista deve ter inteligência e cautela por trás de seus atos. Substitua o medo pelo respeito e cautela. A coragem heroica não é cega, ela é inteligente e forte.

Compaixão (仁 Jin)

Compaixão pode ser descrita como uma compreensão do estado emocional de outra pessoa. A compaixão pode levar alguém a sentir empatia pelo outro. Para sermos empáticos precisamos nos nivelar com o outro, compreender seus problemas como se fossem nossos. O individualismo a que grande parte dos montanhistas pratica, tem dificultado o desenvolvimento da compaixão.

Cada vez mais é possível ver pessoas querendo tudo para si e fazer tudo sem deixar ninguém ajudar ou ser ajudado. O que se vê é uma couraça de indiferença que vários montanhistas e escaladores usam para se proteger das dores alheias, tornando-os insensíveis ao sofrimento do próximo. Cada vez menos vemos montanhistas se integrando com a sociedade e praticando atos de caridade e, pior ainda, nem se preocupando em fazer algo pelo próprio esporte.

Respeito (礼 Rei)

Um bivaque no fim de tarde ao pé de uma via de 1000 m para ganhar tempo no dia seguinte | Foto: Cissa Carvalho

Para um samurai ser cortês até mesmo para com os seus inimigos, faz com que ele seja melhor do que qualquer animal. O mesmo deveria fazer o montanhista e escalador: saber respeitar as pessoas. Mesmo que elas não concordem com ideias diferentes ou apresente novos conceitos que desconhecem.

Cada vez mais é visto montanhistas e escaladores desrespeitando a tudo: locais, pessoas, marcas, moradores, entre muitas outras coisas. Parece que ser grosseiro é comum para o montanhista médio atualmente. Muitos, por saber de sua inferioridade intelectual, tornam-se ressentidos e dedicam sua vida a apenas criar discórdia e denegrir quem quer que seja. Muitos agem com se o próprio fracasso fosse culpa de outras pessoas, sem perceber que a culpa é somente dele.

Um montanhista deve ser respeitado não só por sua coragem, mas também pela forma como trata os outros ao seu redor. Muitos montanhistas respeitam somente os amigos, mas desrespeitam quem não conhece, e sequer se comporta respeitosamente onde visita. Um samurai é respeitado não só por sua coragem, mas também pela forma como eles tratam os outros, que tal os montanhistas e escaladores começarem a fazer o mesmo?

Honestidade (诚 Makoto)

Mentir é um ato covarde e desonroso. Por isso, quando um samurai diz que vai fazer algo, considere como se já tivesse feito. Como é honesto, nada vai impedi-lo de cumprir qualquer promessa feita. Um samurai não precisa dar a sua palavra e nem precisa prometer nada. Quando um samurai fala, é porque ele vai agir.

Aquele que perde a sua honestidade já não tem mais nada a perder. O mais difícil para um homem honesto não é cumprir o dever, é conhecê-lo. Para os montanhistas, o que seria a honestidade? Uma boa definição disso é saber o que é o que define e o que é verdadeiro em seus atos e declarações, não sentindo-se propenso a enganar, mentir ou fraudar.

Honra (名誉 Meiyo)

Foto: Joern Haufe | http://diepresse.com/

Um samurai só tem um juiz de sua honra: ele mesmo. Os samurais acreditam nas escolhas que faz, e como trabalha para obtê-las, são um reflexo de quem ele realmente é. Um montanhista honrado não pode se esconder de si mesmo. O valor da nossa dignidade pessoal está implícito na palavra honra. “Desonra é como uma cicatriz em uma árvore. O tempo, em vez de curar, só ajuda a aumentar”, afirmou Miyamoto Musashi, um dos maiores samurais de todos os tempos.

Montanhistas e escaladores, cada vez mais, somente dizem o que os outros querem que diga, e vê o que os outros querem que veja. Este tipo de comportamento gera um grupo de alienados que sequer possuem honra, pois imitam o comportamento que pessoas que não têm honra disseminam. A alienação é a diminuição da capacidade dos indivíduos em pensar ou agir por si próprios. Os indivíduos alienados não têm interesse em ouvir opiniões alheias, e apenas se preocupam com o que lhe interessa, por isso são pessoas alienadas.

Pessoas que inventam histórias apenas para denegrir outras pessoas, para que perpetue o seu próprio séquito de “babadores de ovos”, são o que mais existe no universo da escalada e montanhismo. Pessoas assim não têm honra e nem valorizam pessoas que têm.

Lealdade (忠 Chuu)

Miyamoto Musashi, um dos maiores samurais de todos os tempos, afirmava que “A vida de alguém é limitada, porém a honra e o respeito duram para sempre”. Portanto ser leal é fundamental no desenvolvimento de qualquer pessoa. A palavra de um homem deve ser como sua impressão digital: Você deve levá-la aonde quer que vá. Um montanhista honrado percebe as qualidades positivas e negativas de tudo, distinguindo entre ganho e perda nas questões mundanas. Montanhistas honrados não pensam desonestamente, pensam no que é correto e verdadeiro.

Quando aplicamos lealdade, fidelidade, coragem, justiça, educação, humildade, compaixão, honra e acima de tudo, viver e morrer com dignidade em nossa vida, conseguimos melhorar nosso potencial humano. Entre a força e a técnica, vence a técnica. Se a força e a técnica forem iguais, vence o Espírito.

Miyamoto Musashi, também afirmava que

Quem conhece os outros é inteligente.
Quem conhece a si mesmo é sábio.
Quem vence os outros é forte.
Quem vence a si mesmo é poderoso.
Quem se faz valer tem força de vontade.
Quem é autossuficiente é rico.
Quem não perde o seu lugar é estável.
Quem mesmo na morte não perece, esse vive

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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