Alpinismo, morte e transtorno de estresse pós-traumático – A morte muda tudo

“O romance da escalada não me interessa. Eu não procuro harpas e asas. Não ouço ópera lá em cima. Em vez disso, minhas montanhas tem dentes.

As arestas recortadas e irregulares em que andamos roçaram cortantes em minha garganta, e nas gargantas dos meus amigos e colegas.” 

– Mark Twight

Em minhas primeiras montanhas eu tinha guia, às vezes até carregador. Minha tarefa era não fazer nenhuma besteira a andar para cima. As decisões eram todas deles. Se vamos pela esquerda ou pela direita, qual a distância da corda de um para outro, com qual nó se encordar, que horas sair, e quando parar (e em escaladas guiadas geralmente a hora de dar meia volta é bem conservadora).

Não demorou para eu perceber que escalar assim não tem a menor graça, e atormentar um deles por três semanas até ele me ensinar tudo possível que ele sabia e mais um pouco. Desde então me entupi de teoria em livros e de prática com parceiros os mais variados possíveis, com estilos e técnicas das mais diferentes escolas.

Não lembro quando foi que fiz minha primeira montanha totalmente independente, mas lembro que a sensação de ter completado todo um processo por conta própria foi 1.000 vezes melhor do que a de qualquer cume guiado. E a partir daí fui me metendo em montanhas mundo afora, escolhendo vias, mudando planos, me perdendo em geleiras, decidindo com o parceiro se vamos assim ou assado, com muitos fracassos (deliciosos) pelo caminho, às vezes pelas razões mais bestas possíveis.

Aproximando a Ponte Lachenal | Foto: Edson Vandeira

Aproximando a Ponte Lachenal | Foto: Edson Vandeira

Sem perceber, virei alpinista. Aquilo que eu achava que era coisa de rico estava acontecendo na minha vida. Me joguei de cabeça, sempre com cuidado, pensando em vias cada vez mais difíceis, montanhas mais remotas, experiências mais completas. Fui largando tudo pelo alpinismo. Vez ou outra alguém distante morria, mas isso fazia parte. Eu sabia que podia acontecer perto de mim, mas no fundo a gente acha que vai passar longe.

Até o dia que passa muito perto. Até o dia em que era para ser você na via onde caiu um serac que matou alguém, mas por uma mudança de planos teimosa de última hora, não foi.

A morte muda tudo

No meio e no fim de 2014 estive em duas situações em vias difíceis onde por muita sorte e destino, o universo resolveu me manter viva. Desde então, batalhei por mais de um ano para entender o que aconteceu, e pior, para entender as mudanças que isso provocou na maneira como eu me relaciono com as montanhas. Sem saber, estava vivendo desde 2014 com transtorno de estresse pós-traumático.

Aos poucos fui perdendo o tesão de começar uma escalada. Cheguei a ter ataques de pânico no meio de vias longas. Algumas vezes cheguei aos cumes e lembrei da sensação boa do processo e da conquista, mas começar tudo isso era cada vez mais difícil, mais obscuro e mais doído. E infelizmente, conforme segui escalando por 2014 e 2015, outros acidentes e mortes aconteceram à minha volta, fazendo pesar cada vez mais esse lado negro do alpinismo.

A exposição a seracs e largura da via caracterizam a normal do Cotopaxi uma típica via PD | Foto: Cissa Carvalho

A exposição a seracs e largura da via caracterizam a normal do Cotopaxi uma típica via PD | Foto: Cissa Carvalho

Quando pensamos que já conhecemos tudo, vem a vida e nos da um tapa forte na cara. Eu pensava que sabia lidar bem com a morte, depois de tanta na minha família devido à doenças, desde que era adolescente.

Mas nesse período, afundei num buraco negro: não era possível que eu tivesse perdido minha paixão, e alguns amigos estavam ainda mais confusos com minhas recusas em escalar ou desistências em meio de vias. Eu não conseguia explicar um pânico silencioso que me mandava voltar pro chão, mesmo quando tudo estava sob absoluto e total controle, como em algumas vias super frequentadas dos Alpes.

Guardei a sete chaves a dor e assisti sozinha em minha cabeça 547 vezes o filme do primeiro acidente – pelo menos uma vez para cada dia que essa tormenta durou. Passei o verão de 2015 nos Alpes com a pior crise de insônia da minha vida, irritada, com sintomas físicos de stress, com uma culpa enorme por ter sobrevivido (“por que ele e não eu?”), lutando contra uma vontade enorme de isolamento, e com flashbacks constantes dos acidentes e incidentes do ano anterior

. Pela primeira vez em anos, eu não queria, mas me forçava a sair para escalar. Estava em negação sobre minha situação, e me afundei em treino e atividade física.

Todos esses são sintomas do ETPT, e com o diagnóstico, tudo de encaixou e um belo dia eu cansei de reviver tanta dor e finalmente encontrei força para começar a caminhar para frente (ou para cima) outra vez.

Por conta do estigma dos transtornos psicológicos, existe uma pressão velada de não se deixar afetar por isso, de seguir escalando com a mesma paixão como se nada tivesse acontecido, como se o defunto tivesse orgulho de não estar mais escalando porém de ter morrido de forma gloriosa e romântica… Tenho certeza que preferia estar escalando.

Quintal de casa | Foto: Edson Vandeira

Quintal de casa | Foto: Edson Vandeira

Felizmente esse é um assunto que está começando a ser abordado até por alguns nomes importantes do alpinismo que já passaram por isso (Jimmy Chin como mostrado no filme Meru e Cory Richards sobre sua experiência pós filmagem de Cold), e em suas histórias percebi que escolher a entrega racional e não a obsessão é o caminho mais saudavel, e que sim, da para superar o trauma.

O TEPT muda a maneira de se relacionar com a montanha. Apesar de sempre muito conservadora, me tornei ainda mais lúcida nas minhas escaladas em alta montanha. Desisti de me dedicar à vias comerciais no Himalaia por perceber que são projetos que não agregam nada ao meu estilo e me expõe à comportamentos e riscos totalmente desnecessários.

Decidi me dedicar ao tipo de escalada que alimenta minha paixão e meu talento, e desisti também de entrar em vias muito arriscadas. Ainda que mantendo um elemento de “sofrimento” da escalada alpina, entendi que não preciso nem quero mais me expor à situações tão extremas. Ainda quero escalar por muito tempo, e compartilhar esse prazer com muita gente.

Eu gosto de estar viva e por isso já desisti de tantos cumes. Mas não é só nossa vontade na montanha, tem coisas fora de nosso controle e para realmente cair a ficha disso foi da pior maneira possível. Nem com um guia tomando decisões por você é possível se isentar desse tipo de perigo.

Nos resta decidir subir a montanha, ou ficar aqui por baixo. Controlar o máximo possível as variáveis, ou jogar-se de maneira negligente. Sucumbir à pressão da comunidade por novas vias e exposição, ou manter-se um pouco aquém do pioneirismo para poder voltar para casa e abraçar a família e amigos. O que tiver que ser será, mas quero que seja por muito mais tempo. Agora, sou uma sobrevivente.

A volta ao estado normal das coisas

No final das contas, após tanto cavar por dentro, tanta pergunta, tanta dor, confusão e tantos dias de angústia, a luz veio de um dia acordar e aceitar com a maior tranquilidade, que existem outras coisas tão importantes na minha vida quanto o alpinismo e a escalada, e que isso não me torna menos escaladora ou menos comprometida com minha vida nas montanhas do que no dia anterior, quando isso ainda não fazia sentido.

O que considero o “fim” da minha crise coincidiu com lesões nos tendões dos dedos, que me obrigaram a ficar meses sem escalar e mais meses de fisioterapia e num retorno lento à escalada. Me fez pensar que tudo acontece por um motivo, e todo esse tempo gasto “recomeçando do zero” me fez repensar todos os aspectos da escalada.

Foto: Beto Pinto

Foto: Beto Pinto

Há meses atrás escalada tinha se tornado uma coisa negativa, e hoje, apesar de tudo que passou, estou com uma vontade sem precedentes de escalar e de subir montanhas. Uma vontade não ansiosa, mas serena – de viver o processo, de experimentar tudo como se fosse novo, de vivenciar a comunidade, de sentir a rocha na ponta dos dedos, de respirar o ar rarefeito.

Das pessoas que conheci que passaram pela mesma situação ficou a conclusão óbvia: o TEPT é avassalador, é destruidor, é extremamente doído. E quanto mais cedo ele for tratado, melhor. Mas ele passa. E ainda que ele esmague a paixão pela escalada temporariamente, ela não desaparece, ela volta mais forte.

É ela, e são as montanhas, que fazem a escalada para fora do buraco negro possível. Santo remédio, para qualquer tipo de superação. Enfim, paz.

Bora pra montanhas!

Cissa Carvalho é natural de São Paulo e praticante de esportes outdoor desde os 8 anos de idade. É alpinista fanática, e nas horas vagas tenta escalar em rocha, surfar e arranjar dinheiro para continuar viajando. Já esteve em todos os continentes e já escalou na América do Sul, África, Ásia e Europa

There is one comment

  1. Leandro

    Muito bom esse artigo é melhor ainda sua superação. O GPM acendeu a chama do alpinismo em mim quando me levaram para uma escalada que jamais esquecerei. Aquela pedrinhas nas pontas dos dedos e a missão com uma mistura de superação de concluí e chegar ao topo, foi quebrar os paradigmas de quem achava impossível que um cego consiguiria tais feitos. No outro dia minha confiança e estima estava nas alturas, agora todos os assuntos relacionados a escalada me chama atenção. Mas, sei que tenho muito que aprender e vontade de subir não falta quero sentir na pele e no sangue esta superação novamente….

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