Livro da semana: “Black Faces, White Spaces” – Carolyn Finney

Há uma realidade no universo de esportes outdoor que é a escassez de certo tio de perfil de indivíduos. Inegavelmente as pessoas de baixa renda e, principalmente, afrodescendentes são dos perfis que menos fazem parte do universo outdoor.

Faça um teste para lembrar quando foi que em alguma das quase moribundas revistas impressas havia algum atleta (homem ou mulher) afrodescendente praticante de esportes outdoor na capa. Faça o mesmo esforço de memória para verificar qual marca da indústria outdoor, nacional ou internacional, patrocina ou apoia atletas afrodescendentes.

Enquanto as marcas outdoor praticam abertamente e sem constrangimento o tokenismo (prática de fazer apenas um esforço superficial ou simbólico para ser inclusivo), o problema continua existindo. No universo de esportes de natureza, infelizmente, há a triste realidade da representatividade.

A escritora norte-americana Carolyn Finney reparou que locais clássicos de prática de esportes de montanha, como os parques nacionais de seu país, nem sempre foram tão abertos a algumas pessoas quanto a outras. Seu livro “Black Faces, White Spaces” examina o problema detalhando as razões pelas quais as pessoas afrodescendentes foram deixadas de fora da recreação ao ar livre e do movimento ambiental.

Geógrafa e intérprete, Carolyn Finney é professora assistente de geografia na Universidade de Kentucky e baseia-se na história e na mídia para detalhar como a raça e a natureza estão profundamente relacionadas, enquanto mostra o trabalho do povo afrodescendente de seu país que luta pela equidade no universo outdoor.

O livro “Black Faces, White Spaces” é muito mais do que simplesmente estudos ambientais. Ele argumenta que as percepções populares do ambientalismo falharam em reconhecer o papel histórico da raça e do racismo na formação da natureza, perpetuando o discurso de um “deserto branco” à espera de ser conquistado.

Claramente influenciada pela Teoria Crítica da Raça, a obra também é uma narrativa desconstrutiva da noção dominante de ambientalismo como um “espaço neutro”. Para basear sua crítica e tocar na ferida aberta, pouco discutida por quem trabalha na indústria outdoor, a autora analisou o conteúdo de revistas, folhetos e catálogos de parques, além de entrevistar cidadãos da Flórida, funcionários do National Parks Service (NPS) e ambientalistas.

A autora procurou na sua obra olhar além do discurso do movimento de justiça ambiental para examinar como o ambiente natural foi entendido, mercantilizado e representado por norte-americanos brancos e negros.

Construindo uma ponte sobre os campos da história ambiental, estudos culturais, estudos críticos sobre corrida e geografia, Finney argumenta que os legados da escravidão, leis de Jim Crow (leis estaduais e locais que impunham a segregação racial no sul dos EUA) e violência racial moldaram os entendimentos culturais dos “espaços ao ar livre” e determinaram quem deveria e poderia ter acesso a espaços naturais.

Com base em uma variedade de fontes do cinema, literatura e cultura popular, e analisando diferentes momentos históricos, incluindo o estabelecimento da Lei da Natureza nos EUA em 1964 e as consequências do furacão Katrina, a autora revela as maneiras reais e percebidas pelas quais a natureza e o ambiente são ‘racializados’ nos EUA. Olhando para o futuro, a autora também destaca o trabalho dos afrodescendentes norte-americanos que estão abrindo portas para uma maior participação em questões.

Carolyn Finney mostra na sua obra que que as representações dos afrodescendentes e suas experiências moldam a memória coletiva sobre o meio ambiente. O livro de Finney é um excelente estudo de como as percepções do “Great Outdoors” se cruzam com a experiência afro-americana.

Ficha técnica

  • Título: Black Faces, White Spaces: Reimagining the Relationship of African Americans to the Great Outdoors
  • Autor: Carolyn Finney
  • Edição:
  • Ano: 2014
  • Número de páginas: 194
  • Editora: University of North Carolina Press

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