Se existem um Deus, está nas rochas – A epifania do escalador responsável

Por Carla Gamboa

Epifania é uma súbita sensação de entendimento ou compreensão da essência de algo. Também pode ser um termo usado para a realização de um sonho com difícil realização.

Meu primeiro contato com a escalada foi por acaso e por azar. Um dia subi ao muro que acabaram de construir no meu ginásio e, desde então, não voltei. Passou pouco tempo antes de querer mais, queria saber o que era a “escalada de verdade”, na “vida real”. Depois de procurar um pouco, consegui alguém que se atreveu a levar uma principiante à montanha. Foi assim que conheci Jilo (Jilotepec – local de escalada no México). Para a minha maior surpresa o lugar era majestoso.

Logo entendi do que se tratava, e também porque os escaladores não podiam ficar longe da rocha. Estando lá, no meio de árvores, com o sol no rosto e a rocha nas mãos, tudo fez sentido. Era como dançar com a rocha. Meu corpo se movia ao ritmo de determinava a via e minha cabeça não pensava em nada mais que seguir movimentando. Foi então que me apaixonei.

Foto : http://stoneadventure.com/

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Me senti abençoada por receber um presente que era somente para mim. Um presente que um ser superior me brindava, a oportunidade de sentir e tocar. Desde então eu não escalo pelo grau, força, fotos ou adrenalina. Eu escalo porque para mim existe um Deus, e ele está na rocha. Onde tudo é perfeito, nada sobra, com vento soprando e  sentindo-me feliz.

Pouco minha felicidade aquele dia quando desci da primeira via e caminhei entre as trilhas e comecei a ver lixo, garravas de água vazias, restos de comida, papel higiênico, rochas pintadas, árvores quebradas… Senti uma dor no peito ao pensar que são muitos os presentes que recebemos da natureza, e a forma ruim, egoísta e limitada com a qual respondemos.

Foto : http://www.freeman.com.mx/

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Os seres humanos dependem da natureza. Sem ela nossa espécie não pode sobreviver. Considero que esta é a poderosa razão para cuidar, ainda mais os escaladores, que somos esta raça que desfrua e utiliza com mãos cheias o que a natureza nos dá. Acredito que deveríamos ser ainda mais responsáveis de cuidar e promover seu cuidado.

A nós, escaladores, ficamos com mãos suadas quando vemos fotos, ouvimos sobre vias e nos encordamos. Sonhamos com os movimentos do crux, aprendemos os betas, caminhamos as trilhas, passamos noites acampando ao redor de fogueiras, falando nossas histórias e comentando sobre nossos planos de viagens. Mas poucas vezes nos damos conta que por trás de nossas incríveis experiências, existe um protagonista silencioso que nos recebe sempre com prazer mas que sofre com nossa escalada.

A rocha que tanto amamos é parte desta natureza da qual dependemos, mas pouco cuidamos. O propósito deste artigo é fazer refletir sobre o que podemos melhorar mas, sobretudo, convidar a atuar de uma forma mais responsável com nosso meio ambiente. Na próxima vez que ir à montanha (ou falésia, boulder, etc) tente voltar com mais do que levou. Espero que seja muitas cadenas, ou aquilo que tenha. Que volte cheio de alegria, inspirado e cheio de energia mas também com o lixo que encontre, já que assim podemos manter nossos locais de escalada limpos. Tente não levar garrafas descartáveis (melhor ainda se for um reutilizável), não jogue bitucas (nem cinzas) de cigarros, papel, comida ou sacolas plásticas.

Assim podemos regressar à natureza um pouco do muito que ela nos dá.

Tradução autorizada de : http://www.freeman.com.mx

Foto no topo : Marcela González | https://www.mexicodesconocido.com.mx

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Sobre o Autor

Raul Freeman Morales

Raul Freeman Morales

Freeman é o mais importante site sobre escalada e esportes de montanha do México e organiza o mais assistido festival de filmes outdoor da América Latina

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