Os 10 mandamentos de segurança de qualquer atividade na montanha

Caro leitor, se você foi criado em um país com religião predominantemente cristã já deve ter escutado alguma vez na sua vida sobre os dez mandamentos (o decálogo de leis e não o folhetim televisivo de gosto duvidoso e roteiro rocambolesco). Este conjunto de leis que, segundo a Bíblia (mais precisamente no primeiro testamento em Êxodo 20:2-17 e Deuteronômio 5:6-21), teriam sido entregues ao profeta e libertador Moisés. Nas taboas entregues eram apresentadas leis sobre o amor a Deus (as quatro primeiras) e ao próximo (os outros seis), e tinha tinha o objetivo de guiar as pessoas para um caminho de uma vida livre de pecado.

Não importa se você é religioso ou não, já me apresso em avisar que não tenho nenhuma vocação para ser Moisés, muito menos tenho contato direto com Deus para que qualquer lei seja passada a mim. Mas, mesmo assim, tenho consciência de que para toda e qualquer atividade há de seguir algumas regras de conduta para um melhor convívio com os semelhantes e preservar a própria vida.

E é exatamente o que este artigo tem a intenção : servir de guia para quem planeja ir à montanha e voltar dela apenas com lembranças. Obviamente, assim como os 10 mandamentos, você pode optar por não seguir, e ainda assim pode ser que não aconteça nada a você. Mas, estatisticamente falando, pode ser que em algum momento de sua vida de montanha, possa ser surpreendido em uma situação que tentará conversar com Deus rapidinho (mesmo sendo Ateu, acredite !) para sair dela vivo.

Portanto para uma atividade de montanha segura entenda que é : realizar a atividade e voltar vivo para casa para contar as histórias dela. Para manter-se vivo, tenha consciência que é fundamental seguir os 10 mandamentos do praticante de atividades de montanha.

Planeje sua atividade (mesmo que minimamente)

O maior candidato a ser resgatado na montanha é o praticante “porra loca“( pessoa que não se importa com nada, com ninguém em nenhuma circunstância). Aquele que por conta do sentimento de wanderlust sai de casa sem planejar nada nem se preparar adequadamente é forte candidato a nem volta dela. Por isso práticas como obter informação confiável (de preferência de veículos que tenham credibilidade na comunidade) e estar minimamente preparado para a atividade que irá realizar.

Se você acompanhou as notícias via redes sociais, deve ter notado o montante de informação falsa sobre fatos políticos e sociais no ano de 2016. No universo não poderia ser diferente : há muitos relatos sobre fatos inflados, dados errados sobre técnicas, etc. Ninguém está ileso de notícias falsas. Portanto esteja atento a isso. Aproveite e certifique-se sobre o tempo (chuva, vento, temperatura, etc) e possibilidades de chegada e partida do local

Junto disso procure não improvisar equipamentos para qualquer atividade de montanha. Evite, por exemplo, levar um moleton para um pernoite na montanha, ou uma barraca inadequada para onde quer que vá acampar. Este tipo de escolha típica de um “porra louca” (não seja um!), transforma qualquer passeio em um pesadelo. Tanto para você quanto para os resgatistas.

Evite de ir sozinho à montanha

Se você não for o profeta Moisés citado no início do artigo (quando foi sozinho a uma montanha para receber os mandamentos) ou não tiver muita (mas muita mesmo), experiência em montanha, nunca vá sozinho. A experiência em montanha não é algo simples e que se aprende por internet, redes sociais muito menos por revistas impressas (estas menos ainda).

Se o desejo de ir à montanha for irresistível aproveite para avaliar seu nível de conhecimento em qualquer possibilidade de algo dar errado. Verifique se, caso queira ir sozinho, conheça muito bem o lugar, se possui conhecimentos técnicos de sobrevivência, habilidade em técnicas básicas e avançadas de montanhismo e condicionamento físico para isso.

Informe às pessoas sobre a atividade

Uma das historias mais icônicas do universo Outdoor é sobre o americano Aron Ralston, que saiu para uma atividade outdoor e não avisou ninguém para onde estava indo. Ralston fez ainda pior : mudou de ideia no meio de sua viagem sobre tudo o que e onde iria fazer. Desta maneira nem mesmo com quem tinha comentado sobre sua atividade sabia para onde iria. O resultado desta imprudência todos já sabem, e foi retratado no filme 127 Horas, quando Aron teve de cortar o próprio braço para escapar de uma pedra que o prendia.

Há vários casos similares ao do americano e, portanto, não é novidade para ninguém. Sistematicamente há pessoas que se perdem em trilhas urbanas por acreditarem que uma atividade outdoor simples é inofensiva. Da mesma maneira pessoas que fazem camping estruturado em região metropolitana e acreditam que é a mesma coisa em um acampamento selvagem. Há uma frase que resume bem a fata de prudência : “Somente duas coisas são infinitas neste mundo – O universo e a estupidez humana“.

Portanto quando for sair para qualquer atividade, avise a uma pessoa de confiança (amigo, família, cônjuge, pequete, etc) e lhe dê informações sobre a atividade, itinerário, horários, etc. Uma vez relatado o seu planejamento respeite-o. Pois se você combinar de realizar uma trilha ou escalada X e no meio do caminho optar por Y, dificultará bastante o seu resgate no caso de um imprevisto.

Tenha equipamento básico

 

Qualquer esporte possui equipamentos básicos para a sua prática. Nos esportes outdoor não poderia ser diferente. Por isso é fundamental, e imprescindível, ter um equipamento básico de segurança em montanha como : kit de primeiros socorros, headlamp, manta térmica, relógio, bússola, canivete, fogareiro, isqueiro e, principalmente um recipiente para carregar água (cantil, bolsa de hidratação ou garrafa térmica).

Nestes tempos modernos é bastante útil o uso de um smartphone.

Caso você tenha experiência, saberá que os equipamentos outdoor citados acima possuem peso, e tamanho, adequados para a sua atividade de montanha. Basta comparar as dimensões de uma lanterna com a de uma headlamp e assim por diante.

Leve equipamento adequado

Como citado acima, evite ao máximo improvisar um equipamento outdoor. A improvisação somente é aceitável se for em uma emergência e diante de algo inesperado. Se for para se aquecer, deixe o seu moleton em casa e use um fleece (de preferência o sistema de camadas), não faça sua trilha com coturnos militares e sim com botas de trekking adequadas, deixe sua garrafa pet em casa, utilize recipientes de água apropriados para atividades outdoor, tenha um fogareiro adequado para não fazer fogueiras, e assim por diante.

No momento que for selecionar seu equipamento para a sua atividade revise cada item de sua mochila. Revise inclusive a sua mochila !. Quando sair para uma atividade de montanha tem de ser prazeroso e não o contrário, e isso depende desta inspeção e da seleção de utensílios que levar para a montanha.

Saiba orientar-se

Saber orientar-se, para saber a direção certa a seguir, é um item fundamental para qualquer montanhista. Da mesma maneira que na cidade é necessário entender a lógica urbanística do local que irá visitar, assim como os ponto de referência. Na montanha não poderia ser diferente (e por que seria ?).

Procure aprender a usar aparelhos de GPS, bussolas, mapas, constelações, posição do sol e estrelas, etc. O melhor aliado de um montanhista que comece a ficar perdido é uma bússola, por isso sempre procure ter uma.

Esteja ciente que pode ter de abortar o plano

Como já descrito em um artigo inteiro dedicado a isso, é muito importante para o montanhista saber abortar o plano traçado para a atividade. Sempre será muito melhor voltar para casa e voltar um outro dia. Portanto se planeje ir a um lugar escalar e nos dias de sua viagem chover intensamente, inclusive na madrugada anterior. Mesmo assim ir à rocha e ela estiver molhada, opte por abdicar de realizar a atividade.

Acreditar que nada nunca irá acontecer com você é um forte indício que você não é valente e sim imprudente.

Esteja atento a qualquer coisa

Foto : Walter Costa

O maior índice de acidentes em montanha acontece por quem confunde a atividade com ir a um Shopping Center qualquer. Atualmente é muito comum ver pessoas nas trilhas com mochilas inapropriadas, acampando em lugares inadequados, ascendendo fogueiras, andando em lugares proibidos e, desta maneira, se expondo a um acidente imprudentemente.

Por isso procure usar a educação para orientar estas pessoas e, caso seja necessário, denunciá-las às autoridades como polícia civil, militar, guarda-parques, guias e monitores de atividades. Pode parecer constrangedor a você apontar o erro de algum “porra-loca”, mas esta atitude ajuda a evitar acidentes e prevenir catástrofes como um incêndio, avalanche ou outro desastre natural.

Para exemplificar melhor : No Parque Nacional Torres del Paine houve um incêndio que quase destruiu o parque por inteiro causado por um praticante imprudente. A partir disso a administração do parque adotou uma linha dura com quem ascendesse fogo em lugares proibidos. Não houve mais incêndios desde então. No Brasil há o triste exemplo do Pico dos Marins que a cada ano vinha tornando-se o centro nacional da “farofa na montanha”, com os piores exemplos possíveis de comportamento na montanha. Tantas pessoas despreparadas a ir à montanha provocou um incêndio gigantesco que praticamente destruiu 2/3 da vegetação do local. Desde então nenhum procedimento foi implementado para barrar os farofeiros.

Saiba se portar em emergências

Foto: www.soydeliebana.es

Onde quer que esteja procure saber quais telefones de emergências que têm de chamar no caso de algum acidente que presenciar. Mesmo que esteja no exterior, esteja ciente de que, caso aconteça com você ou à sua volta, terá de prestar assistência da melhor maneira.

Faz parte de qualquer código de ética de montanha ajudar a quem estiver necessitando de auxílio por estar em risco de vida. Para isso, obviamente, é imprescindível saber ao menos o número de emergência a ligar.

Qualquer atividade começa e termina na sua casa

A atitude mais comum que existe de um praticante de atividades de montanha é achar que ela começa na entrada do parque (ou ao pé de uma via de escalada) e na saída dele. Ignorando que toda a viagem também faz parte da atividade.

Por isso dirigir prudentemente (não confundir este conceito ligado somente à velocidade !), procurando não arriscar-se em ultrapassagens proibidas, conduzir pelo acostamento, com excesso de sono ou consumir bebidas alcoólicas é muito comum. Também é muito também fumar maconha para relaxar antes de pegar a estrada ou até mesmo durante.

Tudo isso faz com que pessoas estejam com segurança nas montanhas, mas acabem se acidentando indo ou voltando delas. Ser montanhista é sentir-se livre, mas arriscar a vida com atitudes imaturas nada tem a ver com liberdade.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

There are 5 comments

    1. Luciano Fernandes

      Oi Marcelo

      Obrigado pela sua mensagem. O principal risco de levar uma garrafa pet é que como via de regra a pessoa a larga no meio do caminho. Estatisticamente todas as garrafas pet deixadas em trilhas e parques são de pessoas que levaram para beber e, por algum motivo, ficou por lá. Algumas vezes cai da mochila outras a pessoa larga mesmo.

      O segundo problema é que a garrafa pet por nao ter tratamento na embalagem deixa gosto e cheiro, o que motiva uma vez mais as pessoas a largarem a garrafa pelo caminho.

      Aliado a tudo isso a garrafa PET é ruim de carregar, além de ocupar um lugar muito grande na mochila. Como também não possui embalagem que conserva o calor, logo esquenta o líquido, motivando o abandono da mesma.

      Abs

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