Análise: O que levou à quebra do mosquetão de Daniel Woods?

No final de semana o escalador Daniel Woods passou por um susto: após uma queda, o mosquetão de sua costura quebrou. O escalador não chegou tocar o chão. O incidente gerou um debate intenso e acalorado na internet, com as mais pertinentes e impertinentes teorias a respeito dos reais motivos.

Para “apimentar” mais o debate, havia um vídeo que captava o exato momento da quebra do mosquetão.

Primeiramente, para entender melhor o tipo de análise a fazer do mosquetão, é necessário antes compreender alguns conceitos de engenharia. O principal eles é o de tensão e em como as forças atuam em um mosquetão.

Tensão

O que é tensão? É a medida das forças internas que atuam em um corpo sendo deformado pela ação de uma força.

Quando é aplicado uma força de tração em uma barra de aço, o material tende a “esticar” apresentando deformação gradual à medida que a força vai aumentando. Por deformação, entenda que é qualquer mudança da geometria de um determinado corpo após a aplicação de uma força externa. Empenar ou entortar, por exemplo, é uma espécie de deformação.

 

  • Tensão normal é relativa a efeitos puramente de tração ou compressão e produzem deformação em um plano reto de aplicação da força
  • Tensão de flexão é relativa aos efeitos de tração e compressão em uma mesma seção transversal
  • Tensão de cisalhamento é quando duas partes do material tendem a deslizar uma contra o outra, aplicando uma força cortante bem próximo ao local que uma barra de aço esteja fixa

O que leva a quebrar mosquetão, como no caso de Daniel Woods, é um exemplo clássico de tensão cisalhamento. A preocupação de todos, compreensível diga-se de passagem, é a de que a quebra do mosquetão tenha sido por tensão normal (duas forças aplicadas no mesmo eixo e direções opostas).

Caso tenha acontecido uma ruptura por força normal ficaria caracterizado falha do material, além de apresentar sensível deformação na geometria do corpo do mosquetão (o que não foi o caso).

A julgar pela aparência do mosquetão, não houve deformação acentuada. Portanto, analisando a foto do mosquetão quebrado, é possível verificar que, por não haver uma deformação acentuada, não houve nem Tensão Normal nem Flexão, as quais deformariam a peça de maneira acentuada.

Observando a foto, fica nítido também que houve uma tensão de cisalhamento, o que é importante é analisar os motivos que fizeram esta tensão existir.

À primeira vista, como Daniel Woods estava escalando em uma via muito negativa, com uma costura curta (aproximadamente 12 cm) contribuiu para que a atrito da corda girasse o mosquetão na chapeleta.

Talvez, em primeira análise, caso a costura fosse mais longa (20 cm ou mais) este tipo de atrito poderia ser diminuído pelo peso e maleabilidade da fita tubular da costura.

Para aprofundar mais em conceitos de análise de tensões: http://ensus.com.br

Estudo de caso

Mosquetão Daniel Woods | Foto: Alex Khan

O mosquetão que quebrou na via que Daniel Woods escalava foi identificada como modelo Photom, da marca Camp USA. De acordo com as especificações do equipamento, disposto na página da internet da empresa, a resistência mínima, ou seja com o gatilho aberto, é de 9 kN. Este valor é considerado alto para a média dos mosquetões

Pela proporção que ganhou as redes sociais, o caso foi analisado por dois dos maiores especialistas em equipamento de montanha da Europa: Emanuele Pellizzari e Tino Núñez. Ambos especialistas se apressaram em divulgar seus pareceres em seus perfis de redes sociais.

O espanhol Tino Núñez é autor de manuais técnicos de escalada e de segurança em montanha. Notadamente tem se destacado em seu país por ser um incansável testador de equipamentos de montanha. Seu site é considerado uma referência mundial para artigos técnicos de equipamentos de escalada.

O italiano Emanuele Pellizzari trabalha como engenheiro de materiais da Marmot Mountain Europe e frequentemente publica vídeos sobre análise de equipamentos. Com experiência de mais de 18 anos em controle de qualidade em equipamentos de escalada e montanhismo.

Segundo reportou o espanhol Tito Nuñez ao site. Wogu. Climbing: “Este mosquetão, já castigado, foi exigido talvez tri axialmente (três eixos de direção de forças). Além disso, como Emanuele Pellizzari alertou no ano passado (com pouca repercussão dos meios de comunicação) sobre o grande risco que existe do uso de mosquetões muito perfilados. Em uma chapa padrão é mais seguro que o mosquetão entre pelo lado esquerdo do orifício. Além disso há a advertência da Petzl em ilustração em seu manual que aumenta a possibilidade de ruptura“.

Lembrando que a advertência da marca Petzl, presente em seus catálogos impresso e em PDF, supõe que o mosquetão fique ancorado de maneira incomum à chapeleta e que, desta maneira fique imobilizado. Na explicação feita no início do artigo, sobre natureza das forças em uma material, este exemplo seria uma explicação clássica de cisalhamento.

Algumas marcas, após este alerta da Petzl, procuraram implementar sistemas de segurança que imobilize o mosquetão pelo qual passa a corda à fita tubular.

Segundo a análise de Emanuele. Pellizzari, também em contato ao site espanhol Wogu. Climbing, comentou: “O primeiro que deveria ter feito o escalador Daniel Woods era comprovar se modelo de seu mosquetão foi alvo de algum recall. Segundo, Woods deveria verificar se nenhum mosquetão que estiver clipado na chapeleta estiver imobilizado. Terceiro, se fizermos uma rápida busca na internet, comprovaremos que qualquer mosquetão pode romper se não está preso corretamente, independente se está fixo à fica tubular ou não“.

O italiano se refere à recall. por ter a Camp USA publicado um um em 2015, no qual adverte sobre o perigo que o gatilho do modelo Photon poderia abrir em caso de sofrer uma carga forte. Um recall é uma solicitação de devolução de um lote ou de uma linha inteira de produtos feita pelo próprio fabricante, pela descoberta de problemas relativos à segurança do produto.

Pellizzari acrescenta: “No vídeo pode ser visto como a queda levanta uma nuvem de magnésio da corda. O pó de magnésio suja as cordas, aumentando a fricção com o mosquetão, provocando o efeito de chicote. Este efeito abre o gatilho do mosquetão, deixando-o muito frágil. Manter a corda limpa talvez ajudaria a que os mosquetões sofram cargas menores“.

Para maiores informações: https://woguclimbing.com

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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