Guia essencial de escaladas em Chamonix

Chamonix, capital mundial do alpinismo, onde tudo começou. Fincada a 1000 metros de altitude num vale entre o maciço das Aiguilles Rouges ao Norte e o maciço do Mont Blanc ao Sul, com 10.000 habitantes fixos de todos os cantos da Europa, o vale recebe mais de 50.000 turistas na alta temporada de verão, sendo a maioria escaladores, alpinistas, trekkeiros e corredores de montanha.

Nos meses de junho a setembro, quando a neve já derreteu das paredes de granito vermelho, o vale é invadido pela comunidade de montanha europeia, sedenta por ascender as famosíssimas vias das faces nortes da bacia de Argentirére na primavera – conhecidas por terem o melhor gelo alpino da Europa, e por conquistar as milhares de vias de rocha nas fissuras quase perfeitas das centenas de agulhas da região durante o verão.

 Chamonix é isso : um mar de montanhas e milhares de vias pra escalar. Foto: Cissa Carvalho

Chamonix é isso : um mar de montanhas e milhares de vias pra escalar | Foto: Cissa Carvalho

Tudo isso com acesso facílimo através dos diversos teleféricos do vales, e com o conforto de dezenas de refúgios espalhados pelos inúmeros glaciares da área.

Chamonix é visita obrigatória para o aspirante e para o expert alpinista, oferecendo desde vias para os principiantes, até algumas das vias alpinas mais técnicas e difíceis do mundo.

Atenção: o sistema de graduação em rocha utilizado neste guia é o francês. Para entender as outras graduações (alpina, gelo, mista), consulte este artigo.

Como Chegar

Corredores de gelo pra escalar na primavera | Foto: Jorge Galve

Corredores de gelo pra escalar na primavera | Foto: Jorge Galve

O jeito mais fácil e rápido é pelo aeroporto de Genebra, na Suíça, e de lá é necessário agendar um dos inúmeros transfers, como a ChamExpress ou AlpyBus, que fazem o percurso de 1 hora até Chamonix ou cidades vizinhas.

Também é possível chegar de carro pela Suíça através de Martigny, ou pelo túnel do Mont Blanc se você vem da Itália, através de Courmayeur.

Atualmente não se chega de trem por Lyon pois diversas estações do caminho estão em reforma, sendo necessário um número enorme de baldeações e muito tempo disponível, ou seja, evite.

Onde Ficar

Chamonix tem centenas de opções: albergues, campings, hotéis simples e de luxo, chalés e apartamentos para alugar.

O camping mais próximo do centro é o Mer de Glace. Assim como os outros campings, conta com estrutura completa.

Os hostels mais baratos e famosos e que ficam lotados de escaladores são o Chamoniard Volant e Gite Le Vagabond. Se prefere um hotel, alguns com bom custo são o Le Chamonix e Le Croix Blanche, ambos no centro da cidade.

Para mais opções consulte esta página. Não se esqueça de fazer reserva: nos meses de julho e agosto é praticamente impossível achar cama sem ter reserva.

O que escalar

  • Para aquecer em rocha
    • Vá para as Aiguilles Rouges, o maciço ao norte de Chamonix. Existem centenas de vias de rocha multi-pitch e algumas trads, a maioria bastante fáceis, acessíveis pelo teleférico de Plan-Praz+Brévent ou Flegére+Index.  Algumas fáceis são a Aresta Sudeste da Aiguille d´Index (4 grau, 6 enfiadas, toda equipada) e diversas vias da Aiguille La Grand Floria. Talvez a mais clássica de todo o maciço seja a Frison-Roche (6a+, 6 enfiadas, paradas com bolt, leve móveis) no pico Brévent.
  • Alpinismo clássico (montanhismo com maior ou menor grau técnico em gelo e neve)
    • É óbvio que a montanha mais famosa da região é o Mont Blanc, 4810 m. Todas as vias do lado francês são bastante fáceis e nada mais que caminhadas, porém expostas a terreno glaciar difícil e queda de rochas. A via do Gouter é de longe a mais famosa, mas outra que vale a pena é a dos 3 Montes (PD), que sai da Aiguille du Midi e passa pelo Mont Blanc do Tacul e Mont Maudit antes de chegar no cume do Mont Blanc. Essas vias não são técnicas, adapte o material de acordo.

As mistas mais clássicas são a travessia da Cosmiques Arete (AD, 240 m, 4a) e travessia do Pointe Lachenal (AD, 4a). São boas introduções à escalada mista já que é necessário além do material de neve, alguns móveis para proteger.

Para um desafio maior, recomendo o Couloir Coutorier (D, 1000 m, 55-60°) um corredor de 1.000 metros de gelo alpino de até 60° que vai diretamente ao cume da Aiguille Verte, 4.122 m, e vai colocar à prova as batatas da perna de qualquer um.

Rapel na Pointe Lachenal | Foto: Edson Vandeira.

Rapel na Pointe Lachenal | Foto: Edson Vandeira.

  • Rocha alpina difícil, ou as “Grand Voies” (todas em móvel com poucas paradas fixas, descidas difíceis e muito comprometimento, em geral com bivaque, temporada de verão):
Uma das últimas travessias da Aresta de Cosmiques, com Mont Blanc du Tacul ao fundo | Foto: Cissa Carvalho.

Uma das últimas travessias da Aresta de Cosmiques, com Mont Blanc du Tacul ao fundo | Foto: Cissa Carvalho.

Preparando as escaladas

Antes de mais nada, consulte o Chamonix Meteo, que é atualizado duas vezes por dia (8 da manhã e 5 da tarde). Se houver possibilidade de mal tempo, não suba pro maciço para escalar.

A Compagnie du Mont Blanc é a empresa dona dos teleféricos da região, e oferece inúmeras possibilidades de pacote dependendo de quais teleféricos você vai utilizar e por quanto tempo. Se você vai ficar mais que algumas semanas, vale a pena comprar o passe de verão, que dá acesso ilimitado a todos os teleféricos por 450 euros (preço de 2015) e é válido de Maio a Novembro.

Uma das últimas travessias da Aresta de Cosmiques, com Mont Blanc du Tacul ao fundo | Foto: Cissa Carvalho

Uma das últimas travessias da Aresta de Cosmiques, com Mont Blanc du Tacul ao fundo | Foto: Cissa Carvalho

O principal recurso de informação é o Office de Haute Montagne. Lá eles tem todos os guias de escalada impressos, além de centenas de pastas com croquis das vias, e tudo pode ser xerocado. Eles tem também o livro de parceiros onde é possível deixar recados para encontrar parceiros, e também o livro de relatos onde as pessoas deixam detalhes sobre saídas recentes e condições.

É possível pedir informações de vias específicas aos atendentes, que também falam inglês. No andar de baixo , onde fica a Compagnie de Guides de Chamonix, é possível contratar um guia de montanha caso seja necessário.

Último diedro da Frison-Roche, em Brévent | Foto: Cissa Carvalho

Último diedro da Frison-Roche, em Brévent | Foto: Cissa Carvalho

Informações de segurança atualizadas sobre condições da neve e das vias, além de relatos recentes também podem ser encontradas nesta parte do site da Chamoniarde. Principalmente na primavera, quando ainda há bastante neve no maciço, é fundamental monitorar as condições das geleiras e da neve em geral.

O grupo de resgate de alta montanha é o PGHM. Em caso de emergência, há sinal de celular em quase todos os pontos do maciço, e o número é o 112.

O portal Camp2camp é muito utilizado pelos franceses, que sempre colocam relatos de suas escaladas e portanto tem informações muito boas das condições das vias, além de croquis atualizados. Se você fala francês, também é ótimo lugar para encontrar parceiros.

Os imponentes Drus vistos do vale | Foto: Cissa Carvalho.

Os imponentes Drus vistos do vale | Foto: Cissa Carvalho.

O que trazer

Para alpinismo de primavera, 2 cordas de 60 m dry, 6-8 parafusos de gelo, piolets técnicos, botas de montanha, camadas adequadas (a primavera pode ser bastante fria nos Alpes), e no geral todo o material de média/alta montanha. Peças móveis médias e pequenas, 1 set de nuts, 1 estaca, 8-12 costuras alpinas, bastante cordelete para abandono, e uma pequena seleção de pitons.

Para as vias de rocha alpina, praticamente o mesmo material que acima, retirando apenas o que seja muito específico de gelo e neve.

Saco de dormir e material de acampamento vão depender do tipo de via que se faz. É possível escalar só ficando nos refúgios, mas para as vias de maior comprometimento onde é necessário fazer bivaque, será necessário ter o material adequado para tal.

Locomoção no Vale

O vale de Chamonix tem 5 cidades principais – Servoz, Les Houches, Chamonix, Argentiére e Vallorcine, além de diversos vilarejos. Os principais áreas de escalada são acessadas através de teleféricos nessas cidades.

O vale é inteiro interligado por trem e linhas de ônibus totalmente gratuitos com o cartão de turistas que você pode retirar no seu local de hospedagem ou oficina de turismo, junto com o mapa da rede. Portanto, uma vez em Chamonix, não é necessário carro para locomover-se.

Pilar Gervasutti, no Mont Blanc du Tacul | Foto: Cissa Carvalho.

Pilar Gervasutti, no Mont Blanc du Tacul | Foto: Cissa Carvalho.

Lojas de Equipamento

Em Chamonix é possível encontrar uma variedade enorme de material de escalada e alpinismo, de diversas marcas, como Patagonia, Mammut, Salomon, Millet, etc. As promoções acontecem no final da primavera (abril e maio) e no final do verão (agosto/setembro) e nessas épocas é possível encontrar materiais por preços convidativos.

A Snell Sports, com 3 andares na rua principal, é a multimarcas mais conhecida e vende as linhas completas de quase todas as marcas, desde Black Diamond e Petzl até Edelrid, Beal, e marcas européias.

Na Technique Extreme, outra multimarcas, é possível encontrar grande variedade de material de escalada e trekking porém de marcas menores e menos conhecidas, e portanto mais baratas, além da marca própria deles.

A Decathlon tem uma Mountain Store na cidade vizinha de Passy, a 20 minutos de carro, com a linha completa de material de montanha e escalada da Simond e Petzl.

Corredor de neve fácil bem no começo da primavera | Foto: Sergio Cruz

Corredor de neve fácil bem no começo da primavera | Foto: Sergio Cruz

Bares, Restaurantes e Vida noturno

Chamonix tem dezenas de bares e restaurantes de cozinhas do mundo todo, além de vegetarianos, veganos e orgânicos.

A Micro Brasserie de Chamonix, conhecida como MBC, tem cervejas excelentes de fabricação própria e o melhor hamburguer da cidade, além de música ao vivo 2 vezes por mês. O Hibou Deli tem opções rápidas de comida saudável, vegetariana, vegana e/ou sem glúten. Para experimentar a cozinha regional, ou “savoyarde cousine”, a melhor opção é o Le Bivouac, bom, não muito caro e frequentado mais por locais do que por turistas.

Para começar (ou terminar) a noite, o bar mais famoso com certeza é o Elevation 1904, onde a galera vai para ver e ser vista. Se você prefere um ambiente mais laid back, a praça do bairro de Cham Sud, onde moram a maioria dos trabalhadores sazonais, tem diversas opções, entre elas o divertidíssimo Monkey Bar. O Bar d´Up na Rue du Moulins, é um autêntico pub inglês com mesas de sinuca e pebolim e música ao vivo, promoções de happy hour e bem descontraído.

Finalmente, se a ideia é acabar a noite sem condições de escalar no dia seguinte, dirija-se ao Le Tof ou Amnesia e boa sorte. Mas eu não recomendo !

 Escalador terminando a via Rebuffat no esporão da Aiguille du Midi | Foto: Chema Galve.

Escalador terminando a via Rebuffat no esporão da Aiguille du Midi | Foto: Chema Galve.

Informações adicionais

A Oficina de Turismo fica na praça principal na frente da igreja e oferece uma série de serviços gratuitos, folhetos e internet grátis. Falam inglês e podem ajudar a fazer reservas de hotéis e compras de passagens de trem, entre outros.

O Chamonix.net é o portal comercial da cidade também com boas informações de hospedagem, restaurantes e passeios.

Fique tranquilo quanto à língua, em Chamonix se fala muito mais inglês que qualquer outra língua, e com a crescente comunidade espanhola, a vida de quem só fala português também ficou mais fácil.

Boas escaladas !

Sobre o Autor

Cissa Carvalho

Cissa Carvalho

Cissa Carvalho é natural de São Paulo e praticante de esportes outdoor desde os 8 anos de idade. É alpinista fanática, e nas horas vagas tenta escalar em rocha, surfar e arranjar dinheiro para continuar viajando. Já esteve em todos os continentes e já escalou na América do Sul, África, Ásia e Europa

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