[EXCLUSIVO] Entrevista com Roniel Fonseca

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Foto : Denise Supertramp

Para toda pessoa que alcança algum grau de excelência em algo vale sempre a máxima : 1% de inspiração e 99% de transpiração.

Este tipo de proporção que demonstra que realizar esforços é fundamental para que qualquer objetivo seja alcançado.

Sem medo de buscar a evolução constantemente o fotógrafo/escalador Roniel Fonseca sabe muito bem que não se pode ter preguiça de buscar a excelência.

Figurinha carimbada em grande parte dos locais de escalada da região sul do Brasil, Fonseca sempre está buscando a excelência em suas fotos dos escaladores da região.

Com olhar diferenciado para fotografias, movimentos, cenas e pessoas Roniel vem se destacando cada vez mais e conseguindo atenção do que é captado por suas lentes por admiradores de todo o Brasil.

Foto : Bruno Lespinasse

Foto : Bruno Lespinasse

Roniel Fonseca é um fotógrafo diferenciado e que vem deslumbrando a todos com a sua evolução e está organizando seu site pessoal (muito aguardado pela comunidade de escaladores que apreciam fotos de qualidade) em www.ronielfonseca.com.br .

Por tudo isso a Revista Blog de Escalada procurou o fotógrafo para uma entrevista para sabermos mais sobre sua vida, pensamentos e carreira de fotógrafo.

Leia a entrevista abaixo

Roniel hoje você é um reconhecido fotógrafo na região sul do Brasil. Como foi a sua caminhada até este reconhecimento?

Como para todo legítimo brasileiro, nada vem de graça e a jornada é longa e árdua! venho fotografando desde 2007 e de lá pra cá muitas águas já rolaram, comecei com fotografia de eventos, passando por festas de aniversário até casamentos, onde se exige fotos mais elaboradas.

Foto : Fabiano_Rocha

Foto : Fabiano_Rocha

Mas o que eu sempre quis foi a fotografia de esportes, até porque, comprei a minha primeira câmera digital para fotografar meus amigos andando de skate e ai o vírus da fotografia (esportiva) me contagiou.

Em 2011 decidi me mudar pra Curitiba pra fazer faculdade de Fotografia e abandonei o ramo de eventos, pois, não era o que eu gostava de fazer, então me joguei na fotografia de esportes, ainda que isso eu fizesse mais por amor do que por dinheiro.

As poucos venho conquistando meu espaço, correndo atrás e tendo muita paciência, pois não é nada fácil, equipamentos específicos caríssimos e retorno financeiro muito aquém do que seria o justo, mas enfim, tem que gostar muito, e isso tenho de sobra!!!

Com o crescimento dos esportes de natureza, muitos fotógrafos se autointitulam “fotógrafos outdoor”. Você acredita que é uma tarefa fácil e basta saber usar uma câmera?

Definitivamente NÃO, não é fácil, começando pelo equipamento que é bem específico, lentes caras, filtros caros, flashs remotos via wireless caros, e a lista é imensa, mas se o dinheiro para comprar todos esses equipamentos não for o problema.

Foto : Daniel Shuch

Foto : Daniel Shuch

O aspirante à fotografia outdoor tem que ter a vivência outdoor, tem que gostar do mato, da altura, de tomar chuva, de ficar horas pendurado por uma corda com as costas doendo, passar calor, aguentar enxames de pernilongos e insetos querendo teu sangue, arriscar-se e arriscar seu precioso equipamento, enfrentar trilhas árduas carregando mochilas pesadas (sim mais de uma mochila), e seeeempre carregará mochilas pesadas, tudo isso pode torna-se uma barreira gigantesca a ser ultrapassada quando a pessoa não tem o principal requisito que é amar o perrengue.

Não adianta apenas querer fotografar outdoor porque acha bonito ou porque dá dinheiro (hahahah quem dera desse dinheiro), tem que estar realmente disposto a sofrer por amor à profissão.

Você tem preferência por Canon ou Nikon? Porque?

Sim, a minha preferência pessoal é Nikon, mas apenas pelo fato de quando fui comprar a minha primeira câmera, a Nikon estava com um modelo de entrada (câmera para iniciantes digamos assim) mais em conta que a Canon.

Muito se discute por ai que uma é melhor que a outra por isso ou por aquilo, mas já passei desta fase de ser escravo de uma marca, hoje em dia todas são tecnicamente muito equivalentes e pra mim o bom fotografo é aquele que fotografa bem com qualquer equipamento que derem pra ele, o que jogar na minha mão eu uso tudo o que sei, indiferente da marca ou modelo.

Foto : Andressa Guerra

Foto : Andressa Guerra

Mas estou muito satisfeito com o meu equipamento Nikon, eu costumo chamar minha câmera fotográfica de trator, pois já encarou de tudo e continua cumprindo seu papel fielmente, se alguém quiser comprar uma câmera, minha recomendação é Nikon, pois estou extremamente satisfeito com essa marca, apenas por isso!

Quais as principais qualidades deve possuir um fotógrafo de escaladores? Porque?

Ser um escalador também, acredito que esse requisito seja fundamental.

Caso o fotógrafo não seja um escalador, ele vai ficar extremamente limitado, não vai passar de um certo limite, é preciso conhecer técnicas de escalada como ancoragem, acesso por corda (jumarear jumarear e jumarear mais), rapel, transferência etc etc etc.

Fotografia de Boulder é mais acessível pois são pedras com uma altura não muito grande, da pra fotografar do chão ou de cima das pedras que estão sendo escalas, mas quando falamos de vias esportivas que vão até uns 50 metros de altura, ou tradicionais, já começa a ficar complicado.

Se não existe a possibilidades de um acesso por cima para rapelar e conseguir fotografar os atletas no meio da parede, o fotógrafo conseguirá apenas fotos tiradas do chão (fotos de bundas, como chamamos), ou seja, ele tem que ser um escalador também.

O outro requisito, amar esse “esporte”.

Quais são os fotógrafos que você mais admira?

Corey Rich ( http://www.coreyrich.com ) e Jimmy Chin ( http://www.jimmychin.com/ ), foram os primeiros trabalhos que conheci quando comecei a pesquisar sobre fotografia, mais especificamente de escalada e os caras arrebentam, são incríveis escaladores também e tem uma vivência outdoor muito constante e forte.

Foto : Jefferson Bellenda

Foto : Jefferson Bellenda

Tem dois fotógrafos brasileiros que tenho acompanhado seus trabalhos a pouco tempo e tem me inspirado muito, são eles Tom Alves ( http://www.tomalves.com.br/ ) e o Peruzzo ( http://www.peruzzo.fot.br/ ), recomendo muito dar uma olhada no trabalho que eles fazem, é lindo.

É mais fácil fotografar em qual estilo de escalada? Porque?

Como disse antes, fotografar boulder na minha opinião é mais tranquilo, muita coisa se consegue fazer do chão mesmo, ou a poucos metros de altura, sobre as pedras e ainda assim com os pés em um lugar sólido, fixo, sem precisar ficar pendurado por horas e com equipamento pesado nas costas e correndo riscos.

Já o contrário disso, sem dúvida a escalada de aventura é o mais difícil pra se fotografar.

Esse tipo de escalada envolve um comprometimento muito mais amplo, a logística é muito mais complexa que na escalada esportiva por exemplo, o tempo de exposição na parede, a instabilidade do clima, o peso do equipamento de escalada a ser levado para cima somado ao peso do equipamento fotográfico, com o peso da água, da comida etc…

Foto : Andressa Guerra

Foto : Andressa Guerra

Isso torna tudo muito mais difícil e claro, mas arriscado também, mas sem dúvida são poucas pessoas que se arriscam e que gostam desse estilo, eu particularmente, amo um perrengue desse tipo.

No ano de 2013 não houve a organização de campeonatos de escalada. na sua opinião, você acredita que as competições de escalada são viáveis?

Acreditar sempre, é o que precisamos.

A escalada mais que um esporte é um estilo de vida, é o que a maioria dos praticantes vivem dizendo, e já que esse esporte faz parte desse estilo de vida (é a base principal), todos os esportes vem atrelados á competições, que na maioria das vezes, são saudáveis, elevam o nível, confraternizar, acrescentam, modificam, engrandecem.

Por que então os campeonatos são tão raros e poucos incentivados no meio da escalada? Acho uma falha muito grande por parte das entidades, federações e marcas, não explorarem/incentivarem mais esse lado competitivo da escalada, como muito se vê no exterior.

Qual é o problema a ser discutido?

A CBME está ai firme e forte, as entidades e federações também, os atletas sedentos por “apertar”, as marcas são cada vez mais numerosas e mais capacitadas, o esta faltando, dinheiro? Interesse?

Eu não sou a pessoa mais indicada pra responder isso, mas já que perguntou eu falo o que penso e vejo por ai.

Uma outra coisa que acredito, (opinião pessoal) precisamos profissionalizar nossos atletas de escalada, quando digo profissionalizar, quero dizer, assinar a carteira do atleta, registrá-lo como atleta, incentivá-lo a viajar, escalar, fazer fotografias, filmar e filmar tudo o que fazem, afinal, qual escalador que não gostaria de viver de escalada?

Qual escalador não gostaria de um BOM salário para passar o mês escalando e defendendo um time, uma marca, um produto?

Foto : Andressa Guerra

Foto : Andressa Guerra

O fortalecimento de um atleta, corresponde ao fortalecimento da marca que ele representa, consequentemente do esporte que ele pratica, grandes campeonatos atraem a mídia, que atrai novos praticantes, que precisam adquirir equipamentos para praticarem o esporte e vão comprar dessas marcas que estão em evidência e isso sucessivamente

É uma “cadeia alimentar” digamos assim, todos saem ganhando, INCLUSIVE os fotógrafos e videomakers, que não terão mais suas imagens usadas indevidamente, como já aconteceu comigo algumas vezes, pelo simples fato de a foto estar “publicada” na internet, alguém simplesmente pega essa foto, recorta a sua logomarca, cola a logomarca da empresa dele na foto e sai divulgado por ai sem pagar um centavo, sem ao menos pedir uma autorização, sem ao menos colocar os devidos créditos da imagem.

Isso é crime e acima de tudo uma falta de noção muito grande, ficar pendurado horas pra fazer uma boa fotografia poucos se dispõem (desabafo rs rs).

Profissionalização e campeonatos JÁ!!!

O que a escalada representa para você?

Foto : Daniel Schuch

Foto : Daniel Schuch

Vida, é o que representa pra mim, como já disse e dizem por ai, escalada é mais que um esporte, é a vida do praticante, nos meus nem dois anos de escalada tudo mudou desde que comecei a viver a vida de escalada, alimentação, sono, paz de espírito, físico, mental, conscientização ambiental, amor pelo planeta, tudo está caminhando a passos largos pra uma conjunção, um melhoramento do ser.

Pouco há para se dizer que vá definir tão bem a escalada além de “escalada é vida”

Na sua opinião quais os cinco melhores lugares para escalar no Brasil?

Como sou um bebê engatinhando na escalada, tenho pouco a dizer sobres os melhores lugares do Brasil, e seria uma pretensão muito grande de minha parte sugerir locais, até porque, não estive escalando em muitos.

Foto : Ronaldo Tkotz

Foto : Ronaldo Tkotz

Mas, “UM LUGAR” pra mim é o meu lugar, eu fui atraído de uma maneira poderosa quando vi sua imponência, esse lugar chama-se Marumbi, fica na Serra do Mar paranaense, é um lugar mágico, de uma energia única, uma dimensão que vai além de suas paredes e sua mata encantadoras.

É algo espiritual, não é possível de se explicar, a menos que já tenha estado naquelas paredes alucinantes.

É um lugar que não da pra ir escalar quando você quer, mas somente quando a montanha permite, e isso é um charme especial, o Marumbi tem uma alma própria, e como dizem: “quem bebe das águas do Marumbi, não consegue jamais ficar sem voltar lá”.

Foto : Bruno Lespinasse

Foto : Bruno Lespinasse

Eu já bebi muita água daquela montanha, para mim é um caso perdido.

Ela me emociona, me encanta, me desafia, me machuca, me faz xingá-la de raiva e me faz voltar pra passar perrengue novamente, sou um completo apaixonado por aquilo tudo e tenho muitos anos pela frente ainda para acariciar aquele granito maravilhoso.

O Inverno vem vindo e pensar que a temporada de escalada no Marumbi vem chegando junto, faz os olhos brilharem, o coração bater mais forte e as mãos suarem frio, o Marumbi é único.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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