Crítica do Filme “High Tension”

high_tension_9Com raríssimas exceções filmes outdoor retratam as consequências de possuir ego demasiado inflado somado à atitudes intempestivas em momentos de tensão.

O motivo desta ausência é facilmente dedutível: são os patrocinadores dos próprios atletas inflados de soberba e vaidade que bancam as produções de filmes.

Facilmente justificado porque ninguém quer ficar mal visto com ninguém, pelo menos explicitamente.

No ano de 2013, por conta de uma atitude intempestiva, o alpinista suíço Ueli Steck sofreu inevitável revés em sua carreira além de imagem pública.

high_tension_3Houve tentativas de parte da acessória de imprensa de utilizar parte da mídia (em especial a fatia “baba ovo”) em amenizar o fato e usar de panos quentes divulgando que o alpinista irá repensar seus feitos e dar “um passo atrás”.

Mas o que motivou toda esta “operação salvação de imagem”?

A resposta foi documentada no filme “High Tension” produzido pela americana “Sender Films”.

Contando a história desde o planejamento do desafio, até os fatos ocorridos no Everest, “High Tension” é, de longe, um dos mais tensos e controversos já realizados pela produtora americana.

high_tension_7Atitude ousada e que merece destaque, pois mesmo não sendo para contar histórias de heróis e fatos heroicos mostrou coragem e pulso firme para divulgar o filme.

Boa parte de “High tension” documenta  os acontecimentos com postura neutra e de maneira a reconstituir linearmente os fatos do ponto de vista de cada envolvido.

Mesmo sendo mostrado o “lado Ueli Steck da história” já se conclui que ele está equivocado em cada pequena decisão tomada, e portanto é perceptível que o incidente não foi provocado pelo acaso.

Pelas imagens e relatos no filme fica registrado que Simone Morro e Ueli Steck ofenderam deliberadamente Sherpas, além de ignorar completamente regras de etiqueta e educação tibetanos.

Como consequência deste o conjunto de erros houve um a briga entre os alpinistas que eclodiu em princípio de linchamento no campo base quando retornaram.

No momento em que o instante de maior tensão é documentado que os alpinistas tiveram sorte de serem protegidos pela guia de montanha Melissa Arnot, e por alguns integrantes da “turma do deixa disso”.

Inevitavelmente a partir do apedrejamento o filme muda sua postura de neutralidade, além de adotar um tom dramático.

Mesmo amenizando as consequências é perceptível que a dupla de alpinistas não aprendeu nada com o ocorrido.

Buscando uma conclusão no estilo “final feliz” para tudo e todos (no estilo Stephen Spielberg), os produtores documentam o acontecimento pós apedrejamento de Ueli Steck e Simone Morro e também para cada um dos envolvidos (Sherpas, guias de montanha e outros escaladores).high_tension_8

Mesmo ficando clara a intenção de suavizar o clima tenso que cerca o filme o tom endurece por parte de Ueli Steck que insinua explicitamente que apenas turistas vão ao Everest, e que Alpinistas de verdade não são bem-vindos lá.

Simone Morro, que apesar de viver no Nepal como resgatista, deixa a entender que partilha do mesmo tipo de pensamento.

Próximo à conclusão o  filme já deixa um inevitável gosto amargo de fel em todas as partes.

Com uma direção firme, que mesmo mudando de postura próximo de seu final, merece destaque e elogios.

high_tension“High Tension” destaca-se como um questionamento filosófico sobre vários aspectos do montanhismo mundial contemporâneo e levanta questões relevantes sobre a exploração financeira do Everest, soberba de escaladores famosos, diferença cultural entre Ocidente e Himalaia e a necessidade de produção artificial de heróis e feitos heroicos por parte da mídia.

Questões estas que já foram levantadas em outras produções, mas sem a abordagem contundente adotada neste filme e deve fazer o espectador refletir sobre qual o destino do esporte com o crescente circo pirotécnico de conquistas vazias baseadas em estratégias de marketing além das bravatas superficiais de escaladores em torno do Everest.

Nota do Blog de Escalada:

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Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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