Entrevista com Pamela Pack

Caso existisse um hall da fama para a escalada, seguramente uma das primeiras pessoas a serem presenteadas com a honraria seria a americana Pamela Shanti Pack. Com 1,60 m de altura e 49 kg, Pamela Pack é o maior nome da escalada quando se pensa em fendas no estilo off-width, que exige entalamentos de corpo. Quem já arriscou escalar neste estilo sabe que offwidth exige técnica, concentração, determinação e sangue-frio.

Pamela Pack em seu curriculum mais de 80 primeiras ascensões (First Ascents – FA) em vias, nas quais maioria estão localizadas no estado americano do Wyoming. Mas escrever sobre a personalidade da atleta e seus feitos faria esta apresentação ficar tão grande quanto o seu talento.

Porém Pamela Pack é, acima de tudo, um exemplo de quão guerreira uma mulher pode ser diante de qualquer dificuldade tendo ela mesma várias adversidades e mesmo assim estava determinada a escalar e fazer o melhor de si. A escaladora é inspiração para todas as mulheres, sejam elas escaladoras ou não.

A Revista Blog de Escalada procurou a escaladora americana para uma entrevista e fomos atendidos prontamente e com toda a paciência pela atleta. Por cada resposta dada por Pamela Pack nos sentíamos cada vez mais honrados por poder trazer um pouco de sua personalidade e linha de pensamento para o público brasileiro.

(foto topo : Jason Gebauer)

Pamela como atleta você já teve várias lesões em sua carreira. Como você encarou isso para recuperar-se e voltar a vida de atleta ?

Sim, eu tive muitas lesões por eu gostar regularmente de testar e empurrar meus limites daquilo que sou fisicamente capaz de fazer. Um dos meus fotógrafos recentemente disse : “Você é ótima no que faz porque não sabe o que é dor”. Eu apenas sou capaz de conscientemente isolar a dor até eu completar meu objetivo.

Eu fiz uma das minhas mais significantes primeiras ascensões (First Ascent – FA), Gabriel 5.13c (10a graduação brasileira), com pneumonia e uma costela quebrada, por exemplo.

Mas sim, eu fissurei discos na minha coluna em duas ocasiões diferentes, quebrei dentes, desloquei uma costela, rompi o ligamento cruzado anterior e, no último verão, fui mordida por um morcego o que foi horroroso. Lesões fazem parte da vida de um atleta profissional e eu coloco meu coração e alma na recuperação tanto quanto eu coloco na escalada.

Não é uma questão de quando ou se eu vou escalar novamente, é uma questão de como eu posso fazer acontecer.

Foto : Taylor Froelich | http//taylorfroelich.com

Foto : Taylor Froelich | http//taylorfroelich.com

Ser uma escaladora de offwidth é uma escolha diferente. Como você escolhe seus projetos de escalada ?

Eu escalo já faz bastante tempo, mas eu comecei no estilo offwidth depois de uma lesão : CECS – Chronic Exertional Compartment Syndrome (Sindrome Comportimental Crônica), que me danificou um pouco os nervos das minhas mãos. Quanto mais eu treinava mais doloridos meus antebraços ficavam. Comecei a ter uma dificuldade em habilidades motoras – o que tornou difícil regletar e eventualmente nem conseguia segurar uma caneta.

Finalmente eu cheguei a um ponto no qual eu precisava de ajuda para mexer as mãos com minhas piquetas após um dia de escalada em gelo no Colorado. A dor era imensa e quando e durou mais de 24 horas fui parar em um pronto socorro. O doutor mediu a pressão compartimental nos meus braços e me recomendou uma cirurgia o mais rápido possível por estar a pressão muito alta. Ele estava tão preocupado que se não operasse meus braços imediatamente teria um dano irreversível em ambos os braços. Consultei quatro cirurgiões.

Foto : Taylor Froelich | http//taylorfroelich.com

Foto : Taylor Froelich | http//taylorfroelich.com

Três médicos me disseram que eu era maluca por fazer eletivamente, então eu poderia continuar a escalar. Se eu não pudesse parar de escalar eu corria o risco de, literalmente, destruir meus braços.

Um quarto cirurgião quis que eu fizesse uma fasciotomia e agendei, mas no dia anterior considerei as complicações e decidi que não valia a pena para continuar a escalar.

Fiquei devastada. Não podia suportar o pensamento de não escalar mais.

Estava olhando um guia de Vedauwoo (local do estado de Wyoming) e vi uma foto de um mestre do offwidth Craig Luebben com Lucille and Bob Scarpelli na infame via “Worm Drive and thought”. Logo pensei : “bem, estes caras não estão regletando, então talvez eu deveria tentar escalar neste estilo”. Fiquei uma semana em Vedauwoo aprendendo a inverter no notório estilo offwidth em boulders e fiquei obcecada.

Era mais que uma obsessão – Senti que algo tinha descoberto e nascido para fazer. Fiquei o verão inteiro em Vedauwoo aprendendo a arte do offwidth e nunca mais olhei para trás. Eu sempre adorei escalar, mas eu persigo offwidth com uma paixão que eu nunca tive antes.

A técnica offwidth requer criatividade e métodos imaginativos para entalar e posicionar as partes do corpo que geralmente não existe em outro estilo de escalada como entalada de duas mãos (hand-to-hand stacks), entalada de dois punhos (fist-to-fist fist stacks), entaladas de joelho (knee jams), entalada de pés (foot-cams), encaixe de pé (heel-toe jams), entalamento de corpo (sidewinding), calf locks, chicken wings  e outros tipos de inversão de corpo.

 Os movimentos são xingados pro muitos escaladores porque tendem a ser fisicamente esgotante, tecnicamente desafiador, dolorido e espantoso. Também, diferentemente de outros estilos de escalada, off-widths requer transportar a pressão externa criada por você em dois planos de rocha em um movimento de impulso, então este elemento de corpo inteiro não é encontrado em outros estilos de escalada.

Eu acho é necessário que para um contato na rocha de corpo inteiro um preparo atlético para o offwidth ser particularmente ser praticado. Existe uma linha tênue entre entalar em uma fenda e ficar presa nela. Eficiência do movimento é crucial. Se o escalador não usar excelente técnica e ser eficiente nela normalmente termina rastejando sem suavidade em vez de ser gracioso.

Foto : Taylor Froelich | http//taylorfroelich.com

Foto : Taylor Froelich | http//taylorfroelich.com

Atualmente eu tenho vários projetos de offwidth de teto em White Rim (local de escalada em Utah). São todos offwidth maciços de 15 a 25 metros de distância. Vou devotar meu dias de outono para estas primeiras ascensões (First Ascent – FA).

O estilo de escalada ginástica invertida me permite escalar vias que seriam de outra forma não escaláveis por serem muito íngremes – negativos e tetos. Eu amo o desafio adicional de determinar como mover meu corpo eficientemente através destes particularmente misteriosos e espantosos espaços.

Vias de várias enfiadas que são predominantemente offwidth, tecnicamente desafiadoras, brutais fisicamente e mentalmente devastadoras. Depois de sete anos, mais de 4.500 metros escalados e 50 FA´s eu ainda continuo obcecada com tudo o que é offwidth. Já abri vias novas na última primavera e foi seguramente muito estranho e comprido para agendar.

Uma delas, “Malice in Wonderland” (5.12 x ), é extremamente estranha. A segunda enfiada tem um túnel apertado de 8 metros e na terceira uma chaminé chinesa (Bombay chimney) improtegível.

Nesta terceira enfiada não chega a ser tecnicamente difícil, mas é escura e medonha e requer usar uma head-lamp. É muito mais espeleologia que escalada.

Você tem uma profissão e carreira profissional. Como equilibrar isso com a escalada ?

Eu trabalhei na costa do Alasca fazendo o mapeamento do fundo do oceano por vários anos. Eu utilizei minhas tendências psicológicas para o masoquismo. Eu estava sendo muito exigida mentalmente e fisicamente em 12-14 horas de trabalho no barco por meses.

Chegou uma hora que eu fiz 72 dias consecutivos de 12 a 14 horas de trabalho. Alto mar por si só é muito mais intimidante que escalada em offwidth. Escalada está relativamente sob me controle : eu decido quão perigoso eu posso me colocar e o que evitar, enquanto no oceano as tempestades estão fora do meu controle.

Acredite em mim, 25 minutos em um barco no alto mar é muito mais aterrorizador que qualquer offwidth que eu já encontrei. Trabalhar no oceano e escalar ambos são fisicamente e mentalmente exigente e eu gosto muito de procurar ambientes extremos.

Eu encontrei um bom negócio nestas situações que exigem mentalmente e fisicamente pois requerem muito coco e é fantástico experimentar o que sente no momento. Agora eu posso escalar o tempo todo e também escrever um pouco como freelancer.

Na comunidade de escalada existem muito mais mulheres escalando agora. Em sua opinião, o que você acha disso ?

É fantástico ver tantas mulheres agora escalando e eu estou realmente feliz de ver mais garotas indo escalar offwidth. Existem muitas mulheres agora que são tão fortes, ou até mais, que os homens em todos os gêneros de escalada.

O offwidth era um dos últimos redutos que os homens dominavam com relação à quantidade de mulheres, e eu estou maravilhada de ter mudado este paradigma.

Para escaladores(as) que estão planejando escalar tão duro quanto você, qual seria o seu conselho ?

Acredite em você mesmo(a) e não deixe que a dúvida de ninguém, ou suas expectativas, interfira no que você quer conquistar como escalador(a). Estabeleça metas de curto e longo prazo e faça planos para atingi-las.

Eu vou para todos os projetos pensando “Isso É possível” e determino o que necessito para fazer aqueles objetivos possíveis. Isso deve envolver meses de treinamento, busca por parceiros com ambições similares e/ou grande parcela de paciência.

Entretanto, eu sempre me lembro das palavras do lendário explorador polar Fridtjof Nansen : “A dificuldade é o que toma menos tempo, o impossível demora um pouco mais”.

Você tem algum plano, ou projeto, de escalar na América do Sul em lugares como Patagônia ?

Eu não tenho nenhum plano, mas eu definitivamente quero ir escalar na Patagônia.

Foto : Taylor Froelich | http//taylorfroelich.com

Foto : Taylor Froelich | http//taylorfroelich.com

Como é seu treinamento para este estilo único que é a escalada offwidth ?

Eu treino de 4 a 6 horas por dia durante a temporada baixa (off season) e faço treino de manutenção durante a temporada de escalada. Eu tenho também um fisioterapeuta que me consulta com regularidade. Se eu tenho algum problema, retorno para Montana para manutenção com o fisioterapeuta. Basicamente meu treinamento é uma combinação de treino aeróbico, força, core e estabilização (muito pilates), alongamento, treinamentos de pliometria e aeróbicos. 

Historicamente offwidth tem sido um das modalidades mais evitadas, desprezadas, temidas e humilhadas da escalada e graças ao seu estilo físico brutal. A lenda do offwidth, Bob Scarpelli, descreveu o estilo melhor : “Eu tenho esta correlação que eu fiz entre boxe, que você escuta pessoas chama-lo de doce ciência, offwidth é muito como a doce ciência da escalada porque o que acontece é a brutalidade no ato. Brutalidade no boxe, assim como em fendas abertas, é que disfarça o ofício, pois bons boxeadores profissionais tem uma habilidade incrível, e habilidosos escaladores de offwidth tem a mesma habilidade. Mas a brutalidade de lutar por aquilo é o que faz com que pareça nenhuma arte e que não há habilidade nisso, mas se você pensar isso está no caminho errado.”

Foto : Jason Gebauer | http://www.jasongebauerphotography.com/

Foto : Jason Gebauer | http://www.jasongebauerphotography.com/

Basicamente entrar em um offwidth vertical bem difícil para mim é o equivalente colocar uma mulher de 1,60m e  49 kg para boxear em um ringue com um homem enorme e esperar que ela escape sem nenhum arranhão, então, sim, eu tenho muitas lesões e treino sem parar.

Eu acho que eu tenho a vantagem de ser forçada a desenvolver uma técnica impecável para compensar minha baixa estatura. Estou nas mesmas vias que caras que carregam 10 kg na cintura, mas eu peso 49 kg e isso é quase 20% do meu peso, então eu preciso ser proporcionalmente forte que qualquer um para compensar e ter uma técnica impecável para poder usar menos equipamentos.

Escalada offwidth é mais sobre eficiência do movimento e procuro ser extraordinariamente eficiente eliminando qualquer movimento cansativo e maximizar os descansos. Eu estudo biomecânica de diferentes técnicas e determino as maneiras de as torna-las mais eficiente.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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