Entrevista com Leonardo Lima – site “To Longe de Casa”

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

No Brasil as webséries ainda estão procurando o seu lugar ao sol e serem reconhecidas como um entretenimento de qualidade, e uma alternativa para quem procura uma qualidade não mais existente na TV (aberta ou fechada).

Sempre produzindo de forma independente, e abordando temáticas e linguagens mais próximas da realidade e que fale a linguagem do público em geral.

No mercado outdoor há oportunidades de implementação de projetos interessantes e que vem para preencher um público ávido de ver-se devidamente representado por pessoas praticantes das mesmas atividades e não mais por atores globais ou modeletes travestidas de montanhistas.

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Uma das mais interessantes webséries existentes no Brasil é realizada por Leonardo Lima, administrador do site “To Longe de Casa“, que durante suas férias tomou o trabalho de editar e torna-la uma websérie.

Com qualidade superior à muitas séries já realizadas por programas de televisão (aberta ou fechada), Leonardo Lima surpreende pelo bom humor, e por apresentar roteiros interessantes para o expectador.

Para saber um pouco mais deste mochileiro e sua iniciativa de websérie a Revista Blog de Escalada procurou Leonardo lima para uma conversa e saber sobre ele e seu site “To Longe de Casa

Leonardo você realiza de tempos em tempos uma websérie sobre suas viagens. Como é produzir este tipo de mídia?

Eu digo que é uma delícia trabalharmos com aquilo que gostamos, e com a produção desses vídeos não é diferente.

Produzi-los é muito divertido e cansativo ao mesmo tempo.

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Divertido porque eu estou conhecendo um lugar novo, pessoas e culturas novas, e tudo isso que nem um louco conversando sozinho com uma câmera na rua, as pessoas me olham como se eu fosse um ET (risos).

Já a parte cansativa vem pela exaustão de estar o dia inteiro na rua, na trilha ou na montanha, as vezes até sem comer direito, para gravar boas cenas.

Na reta final do trekking ao Monte Roraima, por exemplo, eu já estava mega cansado, querendo chegar logo ao acampamento, mas tinha que parar para abrir mochila, ler script, trocar bateria, filmar, se ficasse ruim eu apagava e filmava de novo e assim por diante.

Faz parte, os vídeos estão no começo ainda e são bem simples, mas eu gosto de produzi-los e espero fazer isso por um bom tempo.

As webséries estão ainda engatinhando no Brasil. Você acredita que haja espaço para este tipo de mídia dentro do mercado outdoor?

Com certeza. Eu particularmente curto muito tudo relacionado a prática de atividades outdoor, tudo bem que não tenho condições físicas e nem financeiras para realizar determinadas atividades dessas, mas eu me amarro e pretendo investir mais nesse quesito, fazer alguns cursos e aplicá-los nos vídeos que produzo.

Eu tenho como inspiração o Canal Off.

São matérias e documentários incríveis do mundo outdoor, infelizmente o canal é fechado e não é acessível a todos, porém a internet é livre.

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Creio que o investimento desse tipo de conteúdo nessa mídia seria muito grande, a única coisa que precisamos são de pessoas e produtoras interessadas em desenvolver conteúdos de qualidade, ao menos um projeto piloto para ver o resultado.

O que eu tento fazer hoje já pode ser um grande passo para um canal dedicado a essas atividades amanhã.

Após você realizar a sua websérie alguma marca de equipamento o procurou para ajudar na criação de futuros episódios?

Estou aguardando na minha caixa de entrada algum e-mail sobre isso (risos).

O equipamento que eu tenho hoje não é lá dos melhores, não é em todo ambiente outdoor que a imagem e o som ficam bons, mas da para quebrar o galho e nada que uma maquiada na edição não resolva, porém ainda fica com aquela pegada meio amadora.

Gostaria muito de receber algum apoio externo nesse quesito, pois quando trabalhamos com equipamentos de qualidade o resultado final é completamente diferente e o retorno obtido por ele é infinitamente melhor.

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Adoraria trabalhar com alguma produtora ou aquelas câmeras esportivas tipo GoPro, mas infelizmente nosso país abusa tanto nas taxas que fica inviável para mim (pelo menos no momento).

Eu particularmente não acho a qualidade da minha câmera muito boa, mas o que eu recebo de e-mails de gente que acha ótima e fica querendo saber a marca é impressionante.

Hoje o “Tô Longe de Casa” está em expansão no mercado de blogs de viagem e outdoor, não é o maior e nem o menor, mas penso que uma parceria, não só em equipamentos, mas também em viagens visaria investimento para os dois lados.

Como você escolhe, e se prepara para as suas viagens?

Dou preferência a lugares no qual eu possa estar em contato com a natureza de alguma forma.

Curto conhecer grandes cidades e acho um máximo ver o contraste e a correria que são nelas, mas se você me fizer escolher entre ir para Nova Iorque nos EUA ou Nuuk na Groelândia, eu com certeza iria para Groelândia.

Sempre que vou à uma cidade grande eu já pesquiso antes se há algum lugar para atividades outdoor por lá.

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

O preparo vai depender muito do destino, duração e da atividade que irei fazer.

Pesquiso sobre o lugar, clima, segurança, vejo que tipos de equipamentos e roupas precisarei levar, que atividades irei fazer dentre outros.

Eu elaboro um roteiro, mas não o deixo engessado, pois gosto de ir mudando durante a viagem e isso ajuda até em caso de imprevistos.

Além desse preparo todo, um dos que mais levo em conta é o psicológico, porque quando viajamos estamos sujeitos a qualquer tipo de coisa, portanto é preciso entender e assumir os riscos que poderão vir, principalmente se a viagem for muito longa.

Trabalho também a questão da saudade, antes eu sentia muita falta de casa, com o passar do tempo consegui superar isso e praticar o desapego.

Nos aeroportos do Brasil muito pouco se vê de pessoas usando mochilas, e sim mala de rodinhas. Qual a sua opinião a respeito disso?

Antes mesmo de começar todas essas aventuras eu viajei apenas 1 vez de mala de rodinha e odiei, acho que ali era o primeiro sintoma de mochileiro.

Eu sou bem alto, então aquela alça da mala não subia o suficiente, eu tinha que ficar todo torto, aquela rodinha agarrava no meu pé, é difícil de carregar, passei raiva, enfim, após essa viagem eu passei a usar a minha fiel mochila, muito, mas muito mais prático.

No aeroporto eu vejo as pessoas com aquelas malas imensas, parece que estão de mudança, enquanto tudo que preciso para passar o mês viajando cabe na minha mochila.

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Eu acho que quem viaja de mala, lá no fundo tem vontade de viajar de mochila também.

Comecei a deduzir isso, pois sempre que vou pegar a minha mochila na esteira no desembarque as pessoas começam a apontar para ela, ficam olhando, encantadas, algumas até riem.

Não sei, mas elas gostam.

Eu sou um cara meio tímido então trato de pegá-la o mais rápido possível e sair dali antes que comecem os cochichos.

Por fim eu penso que cada um tem o seu estilo de viagem e viaja da forma que bem entender, seja de mala ou mochila. O importante é viajar.

O preço das passagens aéreas no Brasil são mais caras que para viajar no Exterior. Você acredita que este quadro irá mudar algum dia?

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Eu fico indignado com uma coisa dessa.

Eu amo o Brasil, aqui tem lugares espetaculares, mas por diversas vezes me vejo ter que viajar para fora do país porque o valor da passagem aqui é absurdamente cara, tanto de avião como de ônibus.

Para falar a verdade, vamos envelhecer se ficarmos esperando por alguma posição do governo, companhias aéreas e das empresas responsáveis pelas taxas aeroportuárias.

O interesse deles é lucrar, principalmente se o destino é aquele mais cobiçado, como as praias do nordeste no verão.

Quem sabe em um futuro distante esse quadro mude não é mesmo?

Até um tempo atrás só quem viajava de avião era rico, hoje isso já é acessível às demais classes.

Bom, enquanto esse dia não chega eu fico por conta dos pontos do cartão de crédito e aquelas super promoções de passagens aéreas.

Manter um site exige muita dedicação do proprietário. Quais são as principais dificuldades que você enfrenta para atualizar o seu?

Nossa, tem que ter muita dedicação mesmo.

Antes eu o tinha o “Tô Longe de Casa” apenas como passatempo, mas quando eu vi que “bagaça ficou séria” percebi que estava na hora de mudar e foi ai que o bicho começou a pegar (risos).

Uma das dificuldades foi dar o ponta pé inicial nesse projeto sozinho.

Para quem ainda não sabe, eu tomo conta do blog sozinho, ainda não pensei em terceiros colaborando, quem sabe futuramente.

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Comecei ele sem um puto no bolso, tive que hospedar site, comprar domínio, personalizar tema, migrar todo conteúdo da plataforma gratuita para a paga, editar .php e .html e detalhe, eu não sabia mexer em nada disso.

Caguei com o blog diversas vezes (risos), mas passei por essa fase complicada.

Hoje meu único problema é o tempo que tenho disponível para produzir material e divulgar.

Conciliar trabalho e blog tem sido bem difícil, mas faço na medida do possível.

Em breve esse dilema irá acabar e terei tempo integral para o “Tô Longe de Casa”.

Outra questão que também não é nada boa foi meu fluxo de viagens que caiu bastante de uns tempos para cá.

Por enquanto a fonte de histórias ainda não secou, mas ano que vem pretendo ter novidades inéditas para contar.

Para quem deseja começar a fazer mochilão, ou turismo de aventura quais são os principais conselhos que você daria?

Não tenha medo, ele é a principal barreira entre pessoas e sonhos.

“Ah eu não vou porque é perigoso viajar sozinho” ou “Estou sem dinheiro” ou “Eu não falo a língua daquele país”… tudo história para boi dormir, desculpinhas esfarrapadas sabe.

Pessoas viajam o mundo e não acontecem nada, pessoas tropeçam na rua e morrem.

Com R$100,00 já é possível fazer uma pequena viagem para cidade vizinha.

E a pessoa nunca vai aprender uma nova língua e cultura se não se permitir (sim, é possível aprende ruma outra língua apenas viajando).

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Foto: Acervo pessoal Leonardo Lima

Sei que o primeiro passo é o mais difícil, mas depois dele você vai experimentar um caminhar diferente.

O mundo é imenso e nós temos que dar as caras por ai, explorar, descobrir, quebrar tabus e preconceitos, conhecer o próximo e repassar esse conhecimento para que mais pessoas sejam instigadas a isso.

Infelizmente ele não vai aguentar por muito tempo, a ação do homem está acabando com muitos lugares lindos, lugares que no futuro só existirão em fotos, vídeos e espero que em nossas memórias.

Hoje eu tenho orgulho de dizer que conheci uma das maiores e mais imponentes geleiras da América do Sul, o maior deserto de sal do mundo e um oásis no meio de dunas de areia imensas, mas até quando esses lugares vão estar lá para você conhecer?

Viva, não sobreviva.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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