Entrevista com Claudney Neves

Foto Acima: Mauro Chiara

Fosse possível medir a dedicação de pessoas a um esporte, ou a uma filosofia de vida, sem dúvida nenhuma o cearense Claudney Neves obteria nesta estaca um valor muito próximo do máximo.

Membro dedicado do Clube Excursionista Light, profundo estudioso de técnicas e histórias de escalada, uma mente inquieta a todos os aspectos de montanhismo Claudney é, sem dúvida nenhuma uma figura singular.

Sempre presente em toda e qualquer discussão sobre escalada, desde assuntos profundos até ao mais supérfulo, Neves é um exemplo a ser seguido por quem acredita que o fortalecimento das federações são os clubes de escalada.

Por todas estas qualidades, e para saber mais sobre um dos ícones da escalada cearense, a Revista Blog de Escalada procurou Claudney Neves para uma conversa.

Claudney, você é um dedicado membro do CEL (Clube Excursionista Light ), o que significa fazer parte dele para você?

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Foto: Acervo pessoal Claudney Neves

Minha história com o Clube Excursionista Light completa 10 anos agora em 2015.

Entrei para o Curso Básico de Montanhismo (CBM) do CEL em 2005, quando desejava aprender a escalar. Acabei me apaixonando pela escalada e pelo Clube.

Alguns anos depois, assumi a presidência por dois mandatos, o que é bem trabalhoso.

Em 2014 passei o cetro para o Éder Abreu ­ a quem admiro muito por sua dedicação ­ e hoje divido com a Karla Paiva a Diretoria de Comunicação Social.

Estar por esse tempo todo no Clube é como fazer parte de uma grande família e proporciona um sentimento sensacional de realização.

Por tabela, tudo que é feito ali contribui de alguma forma com o esporte, e isso me faz sentir muito bem.

Saber que nosso trabalho tem feito diferença e está repercutindo na comunidade de montanha não tem preço.

O CEL teve a iniciativa do “papo de montanha” que hoje é também disponibilizado na internet e é referência nacional. Como foi que surgiu esta idéia?

Foto: Karla Paiva

Foto: Karla Paiva

A ideia do Papo de Montanha partiu do Guilherme Silva, que foi um dos meus Diretores Técnicos na primeira gestão.

Inicialmente apenas realizávamos os Papos na sede do CEL, mas muita gente não podia participar, principalmente de outros estados, e pedia para que filmássemos.

Isso só foi acontecer a partir da 14a edição, hoje já foram realizados quase 50.

Temos feito a diferença também com esse projeto e pretendemos continuar por muito mais tempo.

Sou apenas uma das peças, há muito mais gente envolvida.

Além do Guilherme, que é o responsável pela organização e contato com os palestrantes e de mim, que entro com a produção, registro e divulgação, a diretoria do Clube, hoje com o Éder à frente, continua abraçando o projeto e provê todos o meios nas várias etapas.

A Paula Gabi escreveu a maioria dos textos que entra na divulgação e o Felipe Dantas ficou a árdua missão de editar os vídeos..

Quem assiste os Papos não tem noção de todo o trabalho de bastidores para sua realização.

Aproveitando, assinem o canal  e acompanhem o projeto pela página do CEL  ;)

Foto: Flavia Dos Anjos

Foto: Flavia Dos Anjos

Você também realizou, junto com um fonoaudiólogo, um estudo detalhado sobre comunicação na escalada. Qual foi a motivação para isso?

O embrião da ideia surgiu em 2009, de uma conversa pós­escalada, na casa de um amigo, o João Paulo Seixas.

Sua esposa na época, Isabela Poli, fonoaudióloga, jogou essa sugestão, de fazer um estudo com os comandos de voz na escalada.

Foto: Claudio Pereira

Foto: Claudio Pereira

O projeto ficou parado por diversos motivos e só em 2013 conheci outro fonoaudiólogo, também escalador, o Marcio Moreira, que topou a empreitada.

Alterei a ideia inicial, que era de colher os comandos de livros e outras fontes escritas, pois isso era material escasso nessa área.

Criei uma pesquisa online perguntando aos escaladores quais comandos eles usavam.

Espalhei por listas de discussão e páginas nas redes sociais e, surpreendentemente, colhemos mais de 500 respostas.

A partir daí foi tratar os dados, gerar gráficos e analisar os resultados. Isso tudo rendeu uma revista com 50 páginas, editada pela Karla Paiva, e está disponível no site do CEL http://celight.org.br

Foi mais um trabalho que me encheu de orgulho e daquele sentimento de dever cumprido, que só conhece quem já teve aquele desejo incontrolável de criar algo útil.

Se você não sabe do que estou falando, recomendo fortemente que crie, produza, que faça a diferença, que pergunte por que está vivo e qual seu objetivo.

Como comentamos na palestra para apresentação dos resultados, é apenas um estudo inicial, que precisa ser desenvolvido e aprimorado, mas isso será outra história.

Foto: Dalton Chiarelli

Foto: Dalton Chiarelli

Na sua opinião, as federações como um todo (Rio de Janeiro e Brasil) estão alinhadas com os interesses de escaladores e montanhistas dos novos praticantes no Brasil?

Não só as federações, mas os clubes e associações fazem um trabalho fantástico em todo o Brasil.

Basta olhar tudo que já realizaram e continuam realizando.

Vez ou outra leio notícias de resoluções de problemas com acesso, participação nas câmaras técnicas, produção de documentação relevante, realização de eventos como a Semana Brasileira de Montanhismo e as diversas Aberturas de Temporada espalhadas Brasil afora.

Isso tudo movido a trabalho voluntário! É realmente de tirar o chapéu.

Cada um devia pensar em como pode também ajudar.

Se não é possível com seu tempo e trabalho, a maneira mais simples é federando-­se, assim somamos em representação e, de lambuja, colaboramos financeiramente, um dos calcanhares de Aquiles das nossas pobres federações.

Foto: Karla Paiva

Foto: Karla Paiva

O montanhismo, como os esportes de montanha em geral, estão vivenciando um novo crescimento de interesse. Como você visualiza esta realidade?

Foto: Guilherme Costa

Foto: Guilherme Costa

Vejo isso de forma cautelosa.

Se por um lado mais gente está entrando no esporte, nem todos estão iniciando da forma correta.

Se formos levantar os acidentes relatados no ano passado ­ da pra ver aqui, ó http://www.cbme.org.br/relatos­disponiveis­para­consulta ­ muitos foram causados por erros básicos. Então, sendo bem cliché, não basta só quantidade, é preciso muito mais qualidade, preocupação com a segurança e noção do que se está fazendo pode trazer sérias consequências.

Já encontrei escaladores nas paredes que não sabiam sequer montar uma parada simples, outros que perguntaram como usar o freio para fazer segurança do seu participante e muitos que começaram com amigos e não tinham a menor ideia das habilidades necessárias para entrarem na via que já estavam.

Isso é muito preocupante mesmo, porque essas mesmas pessoas não buscam informação e nem imaginam que há listas de discussões, clubes de montanhismos e até mesmo instrutores certificados que oferecem conhecimento e mostram a forma correta de fazer uma escalada sem morrer ou matar seu parceiro.

Dentro do universo de escaladores, a quantidade de pessoas que abdicam de viajar para praticarem o esporte sempre nos mesmos lugares é grande. Que conselho você teria para estas pessoas?

Foto: Acervo pessoal  Claudney Neves

Foto: Acervo pessoal Claudney Neves

Cara, isso é um assunto que sempre comentamos, principalmente ali na Urca, um lugar de muito fácil acesso.

Tem gente que só escala na Urca, outros que só escalam na mesma montanha e, por incrível que pareça, alguns que escalam a mesma via seguidas vezes em vários finais de semana, a mesma via!, e não estou falando de escalada esportiva.

Bem, cada um é livre para fazer o que mais lhe agrada, mas nesses casos que citei, estão perdendo muuuuuitas oportunidades.

De conhecer vias alucinantes, gente maravilhosa, lugares incríveis, rocha diferente, sabores, cheiros e sensações que nunca tiveram!

Viajar para escalar é uma das melhores experiências que você pode experimentar.

Quem realmente curte o esporte não deveria deixar passar esse tipo de oportunidade.

Às vezes pode não parecer, mas os escaladores são unidos, fazem parte de uma tribo e se ajudam, se um for com a cara do outro, claro! =D

Foto: Guilherme Costa

Foto: Guilherme Costa

Já perdi a conta de quantas amizades já fiz em bases de via aqui no Brasil e mundo afora.

Um dos casos que gosto de contar é da vez que viajei para a Colômbia.

Fiquei na casa de um colombiano a quem fui apresentado por um escalador de São Paulo que conheci pelo finado MSN.

Esse paulista fez a ponte e no final da história o colombiano foi nos receber no aeroporto, fez um tour pela cidade com a gente e nos levou para a casa que alugava com outros amigos, ficou conosco lá durante o final de semana e nos entregou a chave do lugar.

Ficamos lá sozinhos por mais alguns dias, voltamos para Bogotá e devolvemos a chave a ele e viajamos de volta para o Brasil.

Isso tudo sem nunca ter me visto ou a menina que estava comigo.

Quem não viaja nunca vai compartilhar isso.

Viajem, escalem e interajam sempre, garanto que esse negócio de subir em pedra vai ficar muito mais divertido!

Claudney-Neves2

Foto: Nayara Lucide

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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