Crítica do filme “Prohibido escalar”

prohibido-escalar-1Faz parte do espírito saudosista de todo escalador viver em um mundo no qual todo lugar seja livre, sem regras, nem proprietários, para que todos possam escalar e abrir vias da maneira que quiser. Este pensamento parece muito lindo no papel, mas vai de encontro com conceitos de propriedade privada, administração pública e sustentabilidade.

Muito se fala de escalada sustentável mas quem usa esta expressão, que já está desgastada, pensa primeiramente na parte ecológica e impactos ambientais, e muito pouco no aspecto sócio-cultural que o esporte tem a oferecer. Talvez pelo comportamento irracional e radical de biólogos e ecologistas com relação à prática da escalada, as tentativas de fazer com que a maneira que o esporte seja praticado amadurecesse para a realidade que vivemos no século XXI não evoluiu.

Muitos escaladores ainda se mostram resistentes a conversar com autoridades (alguns até mesmo em reconhecê-las), entender a importância de possuir representatividade (muitos permitem que politiqueiros assumam entidades de classe) e aceitar a realidade de que atualmente, por causa do número de praticantes, é necessário haver uma regularização da prática em todos os lugares.

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Obviamente que há vários tipos de regulamentação, sendo algumas mais brandas (baseada na amizade entre escaladores e administradores) e algumas mais restritas (quando necessário pagar taxas e obedecer horários de funcionamento). No cenário perfeito seria todos reconhecessem os escaladores como pessoas capazes de se comportar e respeitar não somente o local, como a natureza ao seu redor e todos os praticantes do esporte. Todos nós sabemos que isso não é possível.

Procurando realizar uma conversa madura e trazer os praticantes  de escalada à realidade que vivemos no momento (na qual muitos lugares de escalada foram fechados a escaladores) o produtor Juan Manuel León, em parceria com a associação Escalada Sostenible, se juntaram ao diretor Dani Castillo para criar o “Prohibido Escalar”. A produção é um documentário de 22 minutos, todo filmado em preto e branco, com várias entrevistas com personalidades que viveram, de alguma forma, alguma problema com a restrição de acesso à escaladores.

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Durante todo o filme são entrevistados escaladores, políticos, biólogos, funcionários de parques e proprietários de terras para, cada um à sua maneira, opinar a respeito da importância da regulamentação da escalada na Espanha, que é um país que possui aproximadamente 1.000 locais de escalada. Em cada uma das declarações as opiniões são emitidas sem rodeios, ou floreios, forçando à reflexão do público sobre o assunto.

Por tratar de um tema delicado, e que desperta discussões passionais a respeito, “Prohibido Escalar” opta por tocar, a todo tempo, o dedo na ferida que é a falta de representatividade que os escaladores possuem. Mesmo aparentemente não intencionalmente mostra também que alguns representantes de escaladores não são hábeis no momento de negociar e dialogar com as autoridades que possam comprometer o acesso à escalada.

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Fica evidente em todo o filme que radicalismos ainda povoam a mente de ambos os lados, cada qual à sua maneira, mas muitos com os mesmos conceitos criados nos anos de 1960. Além destes dogmas, que muitas vezes parecem devaneios, o “Prohibido Escalar” ainda explicita a existência da pior das atitude em várias pessoas : a omissão. Muitos querem opinar, todos desejam algo, mas poucos se dispõe a realmente solucionar, a médio prazo ao menos, o acesso a um local de escalada que está sendo fechado o acesso. Há, indiscutivelmente, pensamentos binários dos dois lados da história.

Mesmo sendo relativamente curto para abordar tantas opiniões antagônicas, “Prohibido Escalar” impacta bastante tanto os defensores de locais de escalada, quanto os que não se importam com nada. Mas o diretor, assim como todos os entrevistados, não levantaram em nenhum momento a questão de como punir as pessoas que infringem regras, pois foi a todo momento foi levantado a bandeira da necessidade de representatividade, mas nada se falou sobre punições a quem não se comporta adequadamente. Este tipo de problema, constantemente evitado, que todas as federações ao redor do mundo tem de conviver, e que poucas se manifestam a respeito do assunto.

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Apesar de mostrar lugares de escalada lindos, a fotografia em preto e branco instantaneamente passa um ambiente de tristeza, e este tipo de recurso narrativo colabora para que “Prohibido Escalar” pareça ainda mais didático. O tom lúgubre é quase uma convocação a quem assiste à reflexão, pois o tom adotado pelo roteiro é de discussão de idéias, não de pessoas.

O diretor também procurou se manter longe da polêmica da existência de representantes paternalistas, políticos figurativos e a formação de “panelinhas” que se perpetuam no poder das federações, sempre com votações obscuras em salas fechadas. As discussões estapafúrdias que causam cisão entre os sócios também não foram listadas. Uma discussão que, assim como a que “Prohibido Escalar” levanta a respeito da regulamentação, deve ser feita pois constantemente reclamamos da maneira que a política é feita em nosso país, mas as federações cometem os mesmos pecados e se comportam igual (às vezes até pior).

O filme “Prohibido Escalar” é, antes de tudo, um filme fundamental, que deveria ser constantemente produzido produções iguais a ele, e que talvez inspire a outras pessoas a levantarem a mesma bandeira que os produtores propõem. O filme promove ainda o sentimento de que a discussão a respeito de regulamentação, e a maneira que são escolhidos os representantes, precisa ser estudada para que o esporte não fique marginalizado. O convite à reflexão que o filme faz é um primeiro passo (muito grande aliás) a ser dado, resta saber se quem o assistir irá fazê-lo.

Nota Revista Blog de Escalada : 

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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