Competições de velocidade na escalada: A grande bizarrice da história do esporte

Há aproximadamente duas semanas houve uma discussão sobre a importância das competições de velocidade na escalada e como esta será “obrigatória” para as olimpíadas.

Acredito que minha opinião é bem explícita no título deste artigo, por isso se acredita que a velocidade na escalada é uma jóia do Nilo (“Meu Deus, que eu faria sem ela!”), deveria deixar de ler desde já o que escreverei, pois irá sangrar seus olhos.

Foto: http://www.climbingbusinessjournal.com

Depois de discutir o assunto sobre competições de escalada, primeiramente me perguntei se estava no caminho errado (que somente me fez meditar mais que o necessário). Seria por um acaso somente eu que pensava que a velocidade era um disparate imposto pelo IFSC. Faça você, caro leitor, uma pesquisa na internet, a qual não tem cientificamente nenhum valor estatístico real, mas mesmo assim mostrará a ponta do iceberg. Na pesquisa que eu fiz, dos 244 (votos por IP) que a responderam, 92% respondeu que não gostava desta modalidade, sendo apenas 3% que afirmaram que eram indiferentes e, pasmem, somente 5% que afirmaram gostar (11 de 244). Sentindo motivado pela maciça negação desta modalidade, me coloquei a colocar todo meu repúdio a esta modalidade e, claro, as razões pelas quais esta aposta do IFSC seja uma modalidade obrigatória nas competições de escalada que virão pelo futuro.

A modalidade de velocidade está 100% regulamentada pelo IFSC. A altura é sempre a mesma, assim como a sua inclinação. Aliado a isso as agarras são sempre as mesmas, a posição varia muito pouco, escala-se em top-rope e a ideia é chegar a um ponto final que tem de tocar. Somente tocar e cair.

A isso chamam de escalada? Se uma competição de bombeiros tem mais ação e velocidade mas não são, necessariamente, escaladores.

Foto: http://cruxcrush.com

É necessário voltar um pouco ao que historicamente foi o início das competições de velocidade onde um Hans Florine (escalador especializado em escalada de velocidade em Yosemite) era o rei incontestável e que depois levaria o conceito de velocidade a outros limites. Nos anos 80 e 90 já existiam competições de velocidade, é verdade, mas seu formato era muito diferente do contemporâneo. Naqueles tempos a via escalada na modalidade era sempre diferente em cada competição e simulava muito mais a uma de escalada convencional. Desde este ponto de vista, a monotonia se dissipava e cada sede mundial tinha sua via de escalada diferente.

Não sei de que limbo apareceu esta padronização imutável e regras próprias que lembram muito mais atletismo do que escalada propriamente dita. Viva o atletismo! Mas lembre-se que atletismo e escalada são esportes diferentes.

Um amigo jornalista me disse que se sentia atraído pela competição de velocidade e, evidentemente, minhas respostas foram os seguintes questionamentos:

  • Você já viu uma competição de boulder transmitida ao vivo por completo? (A resposta foi “sim”)
  • Você já viu uma competição de dificuldade transmitida ao vivo por completo? (A resposta foi “sim”)
  • Você já viu uma competição de velocidade transmitida ao vivo por completo? (A resposta, OBVIA, foi um sonoro “NÃO”)

Além disso, quando este meu amigo jornalista se viu na situação embaraçosa, sua resposta mudou drasticamente. Pior foi a situação se extrapolarmos a hipótese de que em cada cidade irá se passar o mesmo, provavelmente com os mesmos tempos e sem falar dos mesmos movimentos, gestos e estratégias. Isso adicionando a incerteza de que certo escalador conseguiria chegar ao topo ou não.

Foto: http://cruxcrush.com

A competição de velocidade não tem nenhuma das coisas que a grande maioria dos escaladores buscam na escalada. Não há a admiração que todos possuem por aquele atleta capaz de resolver problemas novos, com movimentos/agarras/inclinações novos. Usando técnicas diferentes e repertório de movimentos é o que faz cada escalador parecer de outro mundo. O boulder e a dificuldade evoluíram muito no decorrer dos anos, enquanto a de velocidade se transformou em um tédio gigantesco.

As provas de competições de velocidade é o mesmo “baile” de sempre, sem mudanças de ritmo nem volume. Pessoalmente, como escalador e treinador, não me representa nem nunca me representará.

Discutindo isso acabo até mesmo a faltar com os esportistas que a praticam. Mas minha resposta a isso é óbvia: Se eu não gosto, é faltar com o respeito dizer isso? Pois isso é o que induz a maioria das pessoas. Por isso me coloquei a pensar a quem poderia ofender, por isso fui acompanhar os resultados finais de escalada em velocidade da copa do mundo. Na verdade nenhum dos atletas era familiar, ninguém me parecia ter sido destaque por ter encadenado um determinado grau. Seja de dificuldade ou boulder. Eram “atletas” que subiam uma muralha várias vezes da mesma maneira (literalmente). Obviamente que como pessoas respeito todos, como dever ser com qualquer outra pessoa, mas não me produz nenhuma admiração a atividade que realizam. Que fique claro que não se trata de impedir o que fazem, este é seu negócio, mas o problema é quando o impõem como uma modalidade de escalada.

Em uma discussão ente amigos se levantou a história de realizar a via “The Nose” (que possui 1.000 metros de extensão) em Yosemite em velocidade, a qual Alex Honnold e Hans Florine ostentam o recorde de 2h23min. Entretanto não devemos comparar este tipo de escalada em velocidade com a que é realizada em competições. Acredita mesmo que são equivalentes?

http://www.climbingbusinessjournal.com

Mas este artigo não é apenas um “eu não gosto”. É além de dizer que é uma modalidade para enfiá-la em uma lata de lixo, o que obviamente é algo mais violento. Mas desde o momento que tomaram a decisão de torná-la obrigatória, fazendo com que excelentes atletas de boulder e dificuldade estejam obrigados a fazê-la. Isso apenas para definir ranqueamento e medalhas, mesmo que estes mesmos atletas da elite das competições de escalada não a pratica, além de publicamente declararem que não gostam. Então, neste aspecto, quem está violentando quem?

Além de ser violento, também é ridículo, pois os mesmos escaladores que ostentam medalhas e conquistas em competições possuem pouca possibilidade de conseguir uma pontuação decente em boulder e dificuldade.

Além disso, escaladores de dificuldade e boulder, terão que fazer velocidade e, provavelmente, não veremos os tempos espetaculares que realizam alguns atletas dedicados 100% a escalada de velocidade. Outra incongruência que existe, é a de que misture a velocidade com as outras categorias. Sem querer me estender mais, acredito que dificuldade e boulder deveriam ser separadas, mas pelo menos estas duas modalidades sendo realizadas juntas existem um bom número de escaladores possuem resultados espetaculares em ambas. Tanto na rocha, quanto nas competições.

Obviamente que o IFSC não mudará nada se ser este artigo, mas não tenho nenhuma dúvida que foi uma péssima jogada do comitê olímpico impor e misturar a escalada de velocidade como parte de uma competição. Parece que a decisão foi um ato político e não uma resolução originária de escaladores para escaladores. Que nas olimpíadas o que seja importante é o espetáculo, eu entendo. Pois então por que não cria-se algo cheio de fogos de artifício, com musculosos de torso desnudo fazendo movimentos de teto e, para completar, mulheres com roupa super-justa fazendo movimentos de flexibilidade? Seria notável também, mas seria escalada?

Não me gosta de brincar de queimada, mas se alguém me disser que sou obrigado a fazê-lo para, desta maneira, poder competir no que eu gosto, meu pensamento seria o mesmo que tenho para a modalidade de escalada em velocidade. Verdadeiramente não sinto nenhuma admiração por nenhum “atleta” que a pratique, da mesma maneira que um jogador de queimada.

Lembro, claro, que esta é uma opinião e que pode estar 100% em discordância comigo, incluindo ser profissional de queimada.

Tradução autorizada de: http://rocanbolt.com

Gonzo Rocanbolt é chileno, médico, escalador e indiscutivelmente uns dos mais completos autores de artigos sobre treinamento de escaladores existentes no mundo. Respeitado em todo o mundo é o organizador do Simpósio de Medicina de Montanha no Chile e palestrante de eventos de escalada no Chile, Argentina e Espanha

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