Appalachian Trail: O diário da travessia feita por um section hiker (Parte 3)

O nível fácil da Appalachian Trail (Caminho dos Apalaches) seria algo em torno de 273 milhas (440 km).

Mas por que escrever sobre uma seção da Appalachian Trail se milhares de pessoas, incluindo brasileiros, já a fizeram toda?

Um thru hiker, aquela pessoa que concluiu toda uma trilha longa, não é uma pessoa comum! Nem física, nem emocionalmente. São pessoas extremamente dedicadas, com recursos, muita experiência e com alta resiliência, ou seja, não é para mim!

Caminho dos Apalaches

Foto: Feisty Adventures | https://feistyadventures.com

Já um section hiker, concluinte de parte de uma trilha longa, pode ser uma pessoa comum, sem tantas habilidades. Por isso que escrevo esse artigo, para mostrar como um simples mortal pode fazer uma trilha longa.

Os 440 km que fiz na Appalachian Trail são factíveis para qualquer praticante de hiking, desde que haja preparação adequada.

Dia 15 – 17/10/2017

Caminho dos Apalaches

Sassafras Gap Shelter | Foto: http://www.wikitrail.org/

Muito frio pela manhã. Fui na cozinha catar comida para o desjejum, uma ampla cozinha, bem equipada e com variados alimentos. Como não estavam personalizados e a hospedagem estava quase vazia, deduzi que as comidas estavam largadas ou eram coletivas. Peguei um pouco de algumas coisas.

Imprimi na Stone House 2 páginas do roteiro da Appalachian Trail até Hot Springs. Katy, uma simpática atendente, ficou de enviar os adaptadores para Hot Springs, gente boa. Comprei pilhas para lanterna e entrei na trilha às 10:10. A mochila voltou a ficar bem pesada com o ressuprimento, não tanto quanto em Springer Mountains.

Boa parte do dia foi de subida – 1.200 metros de desnível!!! Estava muito lento.

Iniciei o dia com casaco, mas com 20 minutos tive que tirá-lo por causa do calor. Quando parava era o maior frio, mas em movimento era tranquilo. Quase nem bebi água nesse dia, não sentia sede por causa do frio. Parei em um abrigo para almoçar (Sassafras Gap Shelter – milha 143.7), e qual a surpresa: o taco era de frango. Joguei fora o recheio e comi o restante com suco de manga (carregava 1 litro).

Por volta do meio-dia, parei em um mirante e quando fui levantar a mochila estirei o ombro direito, uma dor muito forte, tive receio de não conseguir continuar, ainda faltava muita subida, mas a dor foi passando e ajustei a mochila para não forçar o ombro nem outras partes do corpo.

Às 17:35 parei em uma área de camping no Locust Cove Gap (milha 147.3) para dormir pois o próximo abrigo era longe. Um thru hiker de nome Coltrim acampou lá também. Outro thru hiker parou para pegar água mais tarde, ele já tinha feito Springer Mountain-Maine agora estava voltando!!!

Tive dificuldade de pendurar minhas coisas nas árvores mais uma vez pois não havia bear cables.

Dia 16 – 18/10/2017

Caminho dos Apalaches

Não dormi muito bem porque as coisas estavam em uma árvore baixa e porque houve muito movimento nas folhas durante a noite. Fez muito frio pela manhã, difícil despertar e sair da barraca. O parceiro thru hiker partiu bem cedo, nem vi.

Levantei e comecei a arrumar as coisas com as mãos quase congeladas. O ombro direito parou de doer mas o corpo reclamava do peso da mochila. O conjunto reagia bem. Estava mesmo determinado a seguir até Hot Springs (milha 273)!

Antes de iniciar o dia às 9:50, esperei a barraca secar, mas o footprint não secou totalmente, guardei-o assim mesmo.

Altimetria tranquila, mas eu sofria nas subidas.

Caminho dos Apalaches

Cable Gap Shelter

No Stecoah Gap (milha 150.4), à margem da rodovia NC 143, parei para descansar. Abri o footprint para secar, joguei meu lixo na lixeira, peguei uma garrafinha de água e uma garrafa Nalgene que deixaram em cima da mesa.

Cheguei no Cable Gap Shelter (milha 158.9) ainda claro (por volta das 17:20) e encontrei umas 10 pessoas ao redor da fogueira, fiquei triste pois não queria armar barraca. Todos estavam em barracas, dormi sozinho no abrigo. Encontrei um cipó fácil para pendurar as coisas.

Consegui tomar um banho meia sola no córrego próximo ao abrigo.

Dia 17 – 19/10/2017

Caminho dos Apalaches

F​ontana Dam | Foto: http://www.appalachiantrail.org

O povo saiu bem cedo, esperei clarear totalmente e o frio melhorar um pouco. À noite algum animal de casco rondou o abrigo por alguns minutos, mas dormi bem mesmo assim.

Parti às 9:30, muita subida no começo, iniciei com luvas e casaco mas retirei meia hora depois.

Antes de partir, chegou um gordinho morto, sem experiência, tinha subido de Fontana Dam desde as 6:00, meu próximo destino.

Não sentia nenhuma dor preocupante. Encontrei vários cachorros de caçadores com coleiras eletrônicas rastreáveis, em seguida encontrei dois caçadores. Topei com um casal apenas já na descida. Ao final, passei na entrada da marina e fui contornando pela linda margem do lago da barragem Fontana até o melhor abrigo da Appalachian Trail.

Cheguei no abrigo muito cedo (por volta das 14:15), um abrigo grande com carregador solar de celular, água potável e chuveiro quente!!! Lavei roupa, carreguei o celular e fui no visitor center comprar uns biscoitos. Na volta, passeei pela barragem.

Caminho dos Apalaches

Spence Field Shelter | Foto: https://hikinginthesmokies.wordpress.com/

Mais tarde chegaram 4 pessoas muito fedidas, sendo três thru hikers south. Falei do chuveiro mas nem ligaram, dormiram daquele jeito mesmo.

A carga da minha caneta acabou, problema sério, resolvi pegar uma das 3 canetas do livro de registro.

Decidi partir de madrugada e fazer 17 milhas devagar até Spence Field Shelter a fim de chegar em Hot Springs em 8 dias – dia 27/10/2017.

Dia Distância Destino Total
20/10 17.3 milhas (27,84 km) Spence Field Shelter 182.9 milhas (294,35 km)
21/10 13.5 milhas (21,73 km) Double Springs Gap Shelter 196.4 milhas (316,07 km)
22/10 13.4 milhas (21,56 km) Icewater Spring Shelter 209.8 milhas (337,64 km)
23/10 12.1 milhas (19,47 km) Tri-Corner Knob Shelter 221.9 milhas (357,11 km)
24/10 14.8 milhas (23,82 km) Davenport Gap Shelter 236.7 milhas (380,93 km)
25/10 10.5 milhas (16,90 km) Groundhog Creek Shelter 247.2 milhas (397,83 km)
26/10 13.1 milhas (21,08 km) Walnut Mountain Shelter 260.3 milhas (418,91 km)
27/10 13.1 milhas (21,08 km) Hot Springs 273.4 milhas (439,99 km)
  • 17 milhas = 11 horas de percurso
  • 15 milhas = 10 horas de percurso
  • 13 milhas = 8 horas de percurso
  • 12 milhas = 8 horas de percurso
  • 10 milhas = 6 horas de percurso

Dia 18 – 20/10/2017

Caminho dos Apalaches

Foto: https://www.mysmokymountainpark.com

Era para acordar de madrugada para iniciar o hiking bem cedo vez que não estava tão frio, mas só consegui levantar às 6:00 (ainda escuro) e iniciar às 7:00 no escuro e sem comer. Atravessei a Fontana Dam sobre o Little Tennessee River (milha 166.4) e logo depois vi um pequeno urso que correu quando me viu.

Fui até o final da estrada e entrei no Great Smoky Mountains, depositei o permit na caixinha apropriada. O dia seria muito longo: 17.3 milhas = 27,8 km com muita subida. Logo após o nascer do sol, vi dois ursos de tamanho médio brincando de picula e meia hora depois vi um grande que até consegui filmar.

Subida constante, estava a mais ou menos 1.3 milhas/hora. Duas simpáticas senhoras me alcançaram e uma delas me deu uma banana e uma barra de cereal depois de conversar um pouco.

Seguia tentando conciliar o avanço com o risco de contusão. Não podia dormir antes de Spence Field Shelter, pois as Smoky Mountains são frias, chuvosas e infestadas de ursos pretos. Porém nesse dia não fez frio, pelo contrário, senti sede várias vezes.

Parei para fazer o desjejum em uma fonte de água por volta das 10:00.

Na Shuckstack Fire Tower (milha 170.5) subi até o alto e fiz várias fotos, vista sensacional, dava para avistar o lago da barragem e vários morros.

Caminho dos Apalaches

Mollies Ridge Shelter | Foto: http://atinretro.blogspot.com.br

Mochila ainda incomodando, pés doendo, mas conseguia acelerar o ritmo nos trechos planos e descidas. Parei para almoçar no Mollies Ridge Shelter (milha 177.0), um abrigo de pedras bem bacana.

A certa altura vi um peru no mato, igualzinho ao nosso. Consegui chegar no Spence Field Shelter (milha 182.9) ainda de dia às 18:00. Pouco antes, avistei o quinto urso do dia, primeiro vi as orelhas pretas, depois ele saiu correndo, fofo.

O abrigo estava cheio mas consegui vaga. Nas Smoky Mountains todos os abrigos possuem bear cable, um adianto. Água boa, tomei um meio banho, senti muito o esforço do dia, cheguei a sentir dor de cabeça do estresse físico, mas fui deitar me sentindo MUITO BEM: META ALCANÇADA!!!

A estratégia funcionou!

Dia 19 – 21/10/2017

Caminho dos Apalaches

Double Spring Gap shelter

Noite muito boa apesar de um animal roncar do meu lado algumas vezes até eu futucar o colchão dele.

Pela manhã não fazia muito frio (entre 12° e 14°C), então resolvi partir mais cedo – 8:45. Levei bastante água porque a previsão era de dia quente.

Muitos non hikers na trilha, nos sábados os moradores locais fazem trilhas curtas no parque, se alojando nos abrigos, uma merda, porque conversam até tarde, bebem, fumam e lotam os abrigos.

Tomei café em uma fonte às 10h, aproveitei e arrumei a mochila, gastei 1 hora nessa parada. O dia estava parcialmente nublado, mas o sol surgiu várias vezes, consegui carregar o celular 100% depois da troca do cabo e da disponibilidade de sol.

Deixei passar 2 pontos de água não sinalizados, isso me custou o atraso do almoço.

Às 17:00 no Silers Bald Shelter (milha 194.7), super frio, uma hora depois já estava no Double Spring Gap Shelter (milha 196.4). Estava cheio mas consegui vaga, pois parte do dia acelerei para não chegar tarde no abrigo pensando justamente nisso.

Passei pelo Mount Love (milha 199.9) sem notar por causa do frio, minha meta original.

Já estava a 1.500 metros de altitude, a vegetação mudou, surgiram outras árvores, pinheiros e capim. Muito vento também. Nesse dia vi um peru. No final da tarde a temperatura baixou. Os colegas que estavam no abrigo fizeram uma grande fogueira até às 22h, sabadão na trilha!!!

Dia 20 – 22/10/2017

Caminho dos Apalaches

Icewater Spring Shelter | Foto: https://hikinginthesmokies.wordpress.com

Às 8:45, saí alimentado, queria chegar cedo no Icewater Shelter porque havia probabilidade de chuva. Ventou forte toda a madrugada, mas a temperatura no abrigo estava confortável apesar do cheiro de fumaça da fogueira. Quase todo o dia esteve nublado com ventos fortes mas sem chuva. Pela tarde abriu um pouco. Os ombros incomodaram bastante todo o dia, acho que foi porque não parei o suficiente.

Muitas subidas, muita gente na trilha: Domingão!

Cheguei no Newfound Gap às 14:00 pretendendo almoçar lá, mas tinha uma multidão lá, é um grande atrativo turístico, então comi uma barra de cereal e segui para o abrigo que estava a 2 horas.

Cheguei no Icewater Spring Shelter (milha 209.8) às 16:15, lá estava um casal senior. Almocei e logo depois jantei porque estava frio, abrigo alto e exposto. Depois chegaram 2 rapazes. Noite tranquila sem frio.

Pendurei a comida com capa de chuva porque havia previsão de chuva para as 6:00, mas não adiantou, entrou água porém o estrago foi pouco.

Final da tarde não ventou tanto.

Dia 21 – 23/10/2017

Caminho dos Apalaches

Pecks Corner Shelter | Foto: https://hikinginthesmokies.wordpress.com

A partir das 6:00 começou o aguaceiro, mas continuei dormindo de boa. Vento forte toda a noite. Parti às 9:00 quase sem água, seriam sete horas de hiking sob chuva, previsão até às 18:00.

Esse dia tinha tudo para ser um dos mais difíceis – chuva, vento e altitude entre 1.600 m – 1.800 m e foi.

FOI O DIA MAIS DIFÍCIL!!!

Chuva e ventos fortes por toda a manhã me deixaram ensopado e com muito frio. Minha mão ficou dormente e sem força, os pés gelados e sem força também, a dormência ia até o meio da canela. Muito frio, nem podia parar que esfriava mais ainda. A bota estava cheia de água. Cruzar as cristas era um grande sofrimento por causa da exposição aos ventos. Mesmo com tudo isso, encontrei uns dez doidos na trilha nesse dia.

Na entrada do Peck´s Corner Shelter (milha 217.1), decidi encarar as 0.8 milhas de ida e o mesmo de volta, pois já estava quase hipotérmico. Ao chegar no abrigo, a chuva parou, tirei toda a roupa e almocei. De lá até o Tri-Corner Shelter foi tranquilo, sem chuva nem vento, pouco frio, cheguei às 18:10. No abrigo, uns adolescentes conversantes e um hiker.

Caminho dos Apalaches

Foto: http://www.billflorac.com/

Caminhei boa parte do dia dentro d’água, a trilha toda virou um rio. Depois das 15h até apareceu um solzinho fraco. Foi o dia em que andei o maior período sem parar: 4 horas, e nem podia parar, pois a Appalachian Trail não possui pontos com cobertura, exceto os abrigos.

Molhei uma meia de dormir – merda!

Continuava me sentindo bem, disposto e alimentado. Algumas dores nos pés e ombros, coluna e dedos da mão um pouco doloridos também.

Já programava o retorno para Atlanta, pois considerava alcançada a meta de 273 milhas. Pensava em alugar um carro em Asheville-NC.

Continua na parte 4…

Orlandinho Barros nasceu em 5/7/1965 na Bahia, é pai de duas filhas, formado em TI, morando em Salvador, atualmente dedicado ao trekking. É Explorador de trilhas desde sempre, fazendo quase todas as trilhas clássicas no Brasil em 11 estados, muitas sozinho. Fez 440 km da Appalachian Trail em 2017 em 25 dias. Abriu 305 km da Trilha inédita Brasil Central conectando Brasília a Alto Paraíso em 2016.

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